Ozzy Osbourne: Injeção de metal

Estadão

07 Abril 2008 | 11h42

ozzy

Adorei o show do Ozzy Osbourne, mas confesso que ‘Príncipe das Trevas’ é um adjetivo que não cabe mais ele a não ser como gozação. Na minha humilde opinião de fã de heavy metal há 28 anos, o reality show da família Osbourne teve um efeito colateral sobre a imagem do vocalista inglês: o programa me fez perder o respeito por Ozzy. Qual adolescente do mundo gostaria de ver seu ídolo sendo humilhado por filhos idiotas e passando as tardes com medo de pisar no cocô de seus vira-latas?

Mas vamos voltar ao show. Tudo começou com o Black Label Society, banda que pouquíssima gente conhece no Brasil, mas com músicos que consideram os reis da cocada preta, como pude constatar no backstage. Para descrever o som da banda, basta imaginar os caras do Alice in Chains e do Lynyrd Skynyrd tocando country. É mais ou menos isso. O Black Label é a banda de Zakk Wylde, que também é guitarrista de Ozzy. Ele é, simplesmente, muito, muito bom. O cara canta, toca guitarra e é o principal compositor (o que, no caso do Black Label, não quer dizer muito). As músicas são meio repetitivas, etc, mas temos que dar o braço a torcer: é difícil tirar os olhos do cara durante o show.

Daí veio o Korn, que fez um show bem legal (veja aqui a música ‘A.D.I.D.A.S. (All Day I Dream About Sex)‘. Tive a oportunidade de entrevistar o baixista Fieldy antes do show, e ele me pareceu um cara bastante inteligente. Fiquei meio surpreso com algumas respostas dele: para você ter uma idéia, perguntei quem seria hoje ‘um líder que valeria a pena seguir’, fazendo uma alusão ao disco do Korn de 1998, ‘Follow the Leader’. Ele me respondeu: ‘O U2. Eles são a maior banda do mundo, não? Então são eles que temos que seguir’. Achei engraçado o músico citar o U2, até porque o Korn é uma das bandas mais pesadas do mundo.


(Clique aqui para ver o vídeo da entrevista)

O show deles foi muito bom, apesar do público querer, mesmo, ver o Ozzy. O vocal do Korn, Jonathan Davis, tem a sigla HIV tatuada no braço, coisa que sempre achei muito estranha. Mas daí descobri que é o apelido dele (o que é ainda mais estranho). Também encontrei com ele no backstage, e me pareceu um cara bem mais calmo do que o louco headbanger com saia escocesa camuflada que detona no palco. Ele nem deu bola para as fãs, algumas delas bonitinhas, que tentavam conhecê-lo. Até porque o empresário da banda é seu sogro, e o acompanha para todo lugar.

O que eu mais gostei do Korn é que eles tem uma pegada meio hip hop, o que dá um groove a um som tão pesado. Mas eles são dark mesmo: todo mundo de preto, etc. O único elemento branco no palco era um backing vocal albino. Também achei legal que, em seu disco ‘Acústico MTV’, eles tocaram ‘Creep’, do Radiohead, e ‘In Between Days’, do The Cure, com a participação do próprio Robert Smith. Mostra uma cabeça mais aberta do que a maioria das bandas pesadas, o que é sempre bom.

Às 22h30, subiu ao palco o ex-príncipe das trevas. A introdução do show do Ozzy é hilária, com um vídeo onde ele aparece como personagem de vários filmes e séries de TV. Tem o Ozzy em ‘Lost’, nos ‘Sopranos’, em ‘A Rainha’, sempre vestido como algum persongem. O problema é que, novamente, a platéia perde um pouco o respeito: em uma das várias cenas escatológicas, Ozzy aparece defecando num escritório; em outra ele está vestido de mulher, de lingerie, na cama, esperando um homem; e na pior de todas, está com a bunda de um gordão enfiada no rosto, como no filme ‘Borat’. Tudo bem, é muito engraçado e tal, mas para mim, que cresci ouvindo o Ozzy, acho uma falta de respeito com o que ele representa para o rock pesado. Enquanto Sharon enche os bolsos de dólares, Ozzy passa vergonha. Sem radicalismo, é só uma opinião.

Quando Ozzy entra no palco, a gente vê que não é falta de respeito, não. Ele nem parece ligar para tudo isso. Seu figurino do show parecia um pijama; ele dá risada o show inteiro, talvez da cara de quem levava a sério seu papo satanista dos anos 70. Ele ainda consegue cantar afinadinho, sim, todos os seus sucessos. Mas é que, aos 60 anos, Ozzy parece ter virado aquele vovozinho meio gagá, totalmente manipulado pela mulher Sharon, cujo fantasma onisciente controla sua vida pelo telefone da mansão deles em Los Angeles. Ozzy anda de um lado para o outro, repete que o público tem que ficar ‘fuckin crazy’, etc. Mas não parece ser de verdade, é tudo meio um simulacro do que ele era no passado. O público (inclusive eu, claro) não liga, se emociona, canta as músicas do mesmo jeito e sorri com o personagem que Ozzy criou (ou será que foi Sharon?). Mas a impressão que dá, sinceramente, é que ele nem sabe o que está acontecendo direito.

Com relação à música, claro que continua maravilhosa. Ninguém liga muito para as canções novas, mas quando ele toca ‘Bark at the Moon’, ‘Mr. Crowley’, ‘Crazy Train’, ‘Suicide Solution’ e os clássicos do Black Sabbath, ‘War Pigs’, ‘Iron Man’ e ‘Paranoid’, a galera vai à loucura. Eu também, claro. Passei a adolescência ouvindo a voz de Ozzy, e é sempre um prazer ouvi-la novamente no Brasil.

Um capítulo à parte, mais uma vez, é o guitarrista Zakk Wylde. O cara é muito carismático e talentoso, além de tocar incrivelmente bem. Eu gostaria de tocar guitarra como ele: Zakk faz tudo parecer tão fácil, até os solos de Randy Rhoads (guitarrista do Ozzy morto em 1982 num desastre de avião), que ele reproduziu nota por nota. A noite teve várias referências a este, que é um dos maiores guitarristas da história: Zakk tocou com a guitarra Gibson Flying V preta com bolinhas brancas e o baixista do Black Label Society tocou com uma camiseta com a foto de Randy Rhoads).

Muita coisa se falou sobre o sangue que escorreu dos dedos de Zakk Wylde durante o show do Ozzy. Uns falaram que ele cortou o dedo no anel, outros, que ele se cortou num abridor de garrafas. Mas aqui não tem especulação: vou contar a história verdadeira.

Zakk passou a tarde enchendo a cara de whisky. Deu entrevistas tão bêbado que a maioria nem foi para o ar porque estavam simplesmente ridículas (uma delas foi no banheiro, por insistência do bebum, e claro que não deu para ser aproveitada pela emissora de TV). Depois de encher a cara, Zakk começou a surtar e quebrou o quarto do hotel inteiro, jogou garrafas de whisky na parede e acabou cortando o dedo. Não precisou ir para o hospital, mas a produção teve que chamar o Ozzy para ele ir no quarto do Zakk, para tentar acalmá-lo. Durante o show, o corte abriu e o dedo dele voltou a sangrar.

Lembrei do show do Iron Maiden no Rock in Rio I, quando o vocalista Bruce Dickinson se cortou durante ‘Revelations’ ao bater a guitarra no supercílio. As TVs começaram a questionar: é sangue mesmo ou maquiagem? Nunca ouvi uma coisa tão ridícula. Quem usa sangue artificial para esse efeito usa, obviamente, com muito mais exagero (Kiss, Marilyn Manson, Gwar). Ninguém vai usar um sanguinho artificial no supercílio para criar um efeito de filme de terror. O cara se cortou mesmo, pronto. Os músicos de heavy metal podem ter uma postura de super-heróis, mas eles também sangram.

A mesma coisa com Zakk. Para que ele ia querer ter um sanguinho na guitarra? Para parecer durão, mau? O cara já é um ogro total, um lenhador de quase 1,90m e 200 quilos. Você acha que ele ia usar um sanguinho artificial no dedo para parecer ‘mau’? Uuuhhh, que medo.

Mesmo assim, tocando meio bêbado e errando alguns andamentos, Zakk foi o destaque do show. O baterista Mike Bordim (ex-Faith No More) é bom, mas o guitarrista rouba a cena de todos, inclusive de Ozzy. No Rio, ele havia jogado a guitarra para a platéia e, arrependido, de um ‘stagedive’ para resgatá-la; em São Paulo, ele preferiu arremesar um cabeçote (amplificador) Marshall. Foi o personagem do fim de semana. Fora a bebida, eu queria ser esse cara.

Outra coisa que ninguém viu, mas você, leitor deste blog, fica sabendo: Ozzy sempre pede um médico quando está em turnê, e no Brasil não foi diferente. Sabe para quê? Para tomar uma injeção de vitamina antes do show. Ozzy chegou lá pelas 8 horas no estádio do Palmeiras e foi direto para o consultório montado no local. Chegando lá, abaixou as calças sem o menor pudor e disse: ‘B twelve’ (B12). O médido aplicou a injeção e o príncipe das trevas foi embora, rapidinho. Eu garanto: Ozzy não chorou. Pelo menos isso.

Fotos: J.F. Diório/AE
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