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10 Fevereiro 2009 | 14h31

Se alguém me perguntar qual é a profissão que eu menos gostaria de ser na vida eu tenho a resposta na ponta da língua: professora infantil. Não, eu não sou um monstro que odeia crianças. Mas se você já teve a oportunidade de vê-las em ação, nunca mais acharia que o rótulo de ‘santa’ cabe às religiosas que ficam enfurnadas na tranquilidade silenciosa do claustro.

Professoras é que deviam ser canonizadas.

Na última segunda-feira foi o primeiro dia de aula da minha filha. Acompanhei a adaptação e vi o que essas professoras são obrigadas a aguentar. Disputas por brinquedos. Iogurtes derrubados no chão. E, apesar de não ser praticante de ioga, vi um garotinho repetindo um mantra (‘mamãããe’) durante duas horas ininterruptas. Fiquei tão louco que saí correndo da sala e enforquei o boneco do Barney que estava pendurado na porta do banheiro.

É divertido observar o comportamento das crianças nessa idade. Elas estão na fase do ‘é meu’, ou seja, tudo que existe no mundo é deles. Deve ser difícil aceitar que nem tudo no mundo pode ser seu. Algumas crianças agem como ditadorazinhas cruéis e impiedosas, mas depois melhoram. Outras continuam assim depois de adultas; olha o Hugo Chávez, por exemplo.

Nunca gostei muito de brincar com crianças – até ter uma, claro. Acho ridículo gente que fica falando com aquela voz infantilóide de desenho animado. Mas agora, que tenho uma filha, me pego fazendo exatamente a mesma coisa. Canto até musiquinhas cujas letras são completamente sem nexo, mas minha filha fica tão feliz que elas soam como canções dos Beatles para mim. De vez em quando eu canso e coloco o ‘Kind of Blue’ para ela ouvir. Daí explico que o compositor da trilha sonora dos Backyardigans já tocou com o Miles Davis… Mas não sei se isso importa quando você tem dois anos.

Voltando à escola, acho que o primeiro dia de aula tem um significado bem maior do que apenas ver seu filho vestido com o uniforme. É como se fosse um novo parto, um nascimento social do indivíduo. Parece papo de antropólogo chato, né? Mas não é. Só vendo minha filha interagindo com outras crianças na classe é que compreendi que ela terá de conviver no dia-a-dia com outros seres humanos… e que ela não será eternamente só minha.

Não lembro bem como foi o meu primeiro dia de aula, mas o da minha filha será para sempre: o dia em que ela deixou de ser a ‘Bebel do papai’ e virou a ‘Bebel do Maternal 2’. Inesquecível.

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