O 'Leite Derramado' de Chico Buarque

Estadão

07 Abril 2009 | 10h40

Chico Buarque

Deve ser ótimo ser o Chico Buarque. Você lança um livro de vez em quando e não precisa fazer a menor força nem para ser destaque em todos os veículos de mídia do país, nem para voltar a ser objeto de desejo das mulheres brasileiras. E não precisa nem ter o trabalho de dar entrevista, tirar foto, aparecer na TV. Nada. É só lançar o livro e correr para o abraço.

Acabei de ler ‘Leite Derramado’ no fim de semana e gostei bastante. Eu tinha achado ‘Estorvo’ bem chato, por isso nem me animei a encarar ‘Benjamim’. Quando saiu ‘Budapeste’ eu decidi dar uma chance (‘dar uma chance’ para o Chico Buarque é bom; que pretensão a minha ) porque sou apaixonado pela capital húngara, e queria ver a história que o Chico tinha criado ao redor dela. Fiquei impressionado porque o livro é simplesmente sensacional, e a partir daí virei fã do Chico escritor.

‘Leite Derramado’ não é tão bom quando ‘Budapeste’, mas também é bem interessante. Em primeiro lugar porque é muito bem escrito. Ao contrário do ditado ‘don’t believe the hype’, Chico Buarque realmente virou um mestre na arte de derramar (desculpe o trocadilho) histórias no papel. Como leitor, arrisco a dizer que ele construiu um estilo próprio bastante maduro e característico, que tomou forma em ‘Budapeste’ e se consolidou no livro novo.

Não vamos, porém, exagerar na rasgação de seda: Não gostei de algumas coisas em ‘Leite Derramado’, a começar pelo título. Dá para ler nas entrelinhas o velho e manjado ditado ‘não adianta chorar pelo…’, o que remete de maneira explícita demais ao caráter fatalista da obra, um retrato do destino trágico e da decadência de uma família tradicional brasileira. Com tantas referências à história do país, será que Chico quis dizer que o destino do Brasil está inexoravelmente fadado ao fracasso? Mas não é só isso: além do nome ser feio, é óbvio e de sentido figurado simplista. Chico até inclui algumas cenas sobre leite no sentido literal (acrescentadas após o batismo do livro, talvez?), mas não com força suficiente para imaginar que o leite representa alguma coisa realmente importante na história.

Vamos, então, à história: no leito de morte, um senhor de 100 anos relembra sua vida. O Chico que me desculpe, mas isso já foi feito pelo menos umas 253 mil vezes, não só na literatura quanto no cinema (‘O Curioso Caso de Benjamin Button’ talvez seja o exemplo mais recente). Apesar do clichê na narrativa, Chico consegue injetar um pouco de originalidade na trama por meio de flashbacks não-lineares e trechos em que o narrador perde o fio da meada (graças aos remédios e/ou falhas na memória). Sem separar narração de divagação, Chico consegue ‘confundir’ o leitor no bom sentido, gerando um texto que se aproxima da maneira natural do fluxo do pensamento.

E ele faz isso muito bem, o que cria uma empatia entre o leitor e o narrador – o que, infelizmente, não se realiza na plenitude no resto da trama. O narrador é frio, arrogante demais. Até tentei forçar uma empatia, mas nem assim eu consegui. O estilo do narrador em primeira pessoa também me remeteu um pouco à ‘Budapeste’, embora os dois personagens sejam muito diferentes e a história dos livros, mais ainda. Senti em ambos um ar de loser, perdedor, como se fossem vítimas que não conseguem se levantar contra um futuro inevitável. Seriam anti-heróis se tivessem a força de heróis, mas a apatia dos dois é tão evidente que não permite sequer a relação que normalmente se estabelece entre heróis e leitores.

‘Leite Derramado’ tem muitas citações históricas de um Brasil que não existe mais, onde o glamour de se falar em francês para os empregados não entenderem foi substituído pelo dinheiro fácil e sujo do tráfico de drogas; onde o respeito pela hierarquia social pré-determinada foi jogado no lixo para dar lugar ao ‘quem pode mais chora menos’. Chico faz diversos paralelos com a realidade atual, e acerta muitas vezes nos alvos planejados com a delicadeza e a maestria de quem domina as metáforas e paralelos e como poucos: como na frase (do jeito que as coisas vão…) ‘Copacabana se assemelhará a Chicago, com policiais e gângsteres trocando tiros pelas ruas’. Ou como no trecho em que ele conta como o pai perdeu tudo com a quebra da Bolsa de Nova York em 1929. Já é tudo parte do passado, mas há algo de eterno na sociedade que insiste em sobreviver contra todas as expectativas.

Com detalhes históricos evidentemente pesquisados e uma sutil inspiração no próprio pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, Chico parece usar a ficção como metáfora da vida brasileira nos últimos dois séculos. Chico situa trechos da história em um Rio de Janeiro ‘Corcovado-pré-Cristo Redentor’, e daí traça paralelos com o Rio atual, onde o velho narrador não compreende nem consegue se situar. O tempo também acaba sendo um personagem, mas escondido na forma das lembranças, memórias afetivas e desilusões amorosas (na verdade, uma só, a de uma morena espevitada chamada Matilde).

A saga familiar do narrador me trouxe ecos dos Buendía de ‘100 Anos de Solidão’, já que os personagens (pai, filho, neto) são batizados sempre com o mesmo nome, Eulálio Assumpção (a não ser a filha dele, que se chama Maria Eulália). É como se Chico quisesse mostrar que a realidade já é suficientemente fantástica, em oposição ao realismo fantástico de Gabriel García Márquez. Em vez de lendas do folclore local ou situações nitidamente irreais, Chico mostra que é a realidade do Brasil o que realmente nos fascina, de tão absurda que é.

Se García Márquez escrevia textos de realismo fantástico, Chico escreve sobre a realidade real, a realidade historicamente fantástica. Enquanto conta sua vida à enfermeira (ou a outras personagens que trocam de lugar com ela e que não são devidamente apresentadas), o narrador de Chico descobre que um passado glamouroso não lhe garante um presente glamouroso. A não ser que você seja Chico Buarque, que será eternamente um grande compositor e, desde ‘Budapeste’, um dos maiores escritores do país. Agora só falta Chico correr para o abraço.