Não basta ser pai: tem que participar

Estadão

08 Agosto 2010 | 07h00

Sempre gostei do Dia dos Pais, aquela coisa de almoçar com a família, dar presente, etc. Há quatro anos, no entanto, passei a curtir ainda mais da data: continuo dando presente, mas desde então eu também passei a ganhar.

Já escrevi aqui sobre meu pai, sobre outros pais, sobre os queridos avôs, que são pais duas vezes. Hoje, quero aproveitar a data para defender os pais ‘em carreira solo’, que já não dividem o teto com as mães.

Isso leva a uma questão que tira o sono de muita gente: será que pais separados têm mais dificuldade na hora de educar uma criança? Uma análise inicial (e superficial) indicaria que sim. Mas, sinceramente, tenho a esperança de que a resposta possa ser ‘depende’.

Acredito que depende das circunstâncias sociais, das famílias. Mas acredito que depende, principalmente, dos próprios pais.

Quando um casamento chega ao fim, é natural que exista mágoa entre os envolvidos. Ninguém é tão insensível a ponto de ficar imune a isso. O importante é evitar que essa mágoa vire um monstro alimentado pelo passado infeliz. E não permitir que os problemas causados pelos adultos cheguem às crianças.

Mães separadas que realmente se importam com seus filhos devem estimular o maior contato possível da criança com os pais, e pais separados têm que estar preparados para exigir essa proximidade. O fundamental é não ser egoísta: seu filho tem o direito de dar certo, mesmo que seu casamento não tenha dado.
Já que estamos falando de casais separados, somos obrigados também a falar sobre os eventuais novos integrantes que essa família passa a ter. São duas figuras geralmente vistas como vilãs pela ficção, mas que muitas vezes são tão presentes na vida das crianças quanto os seus pares oficiais: o padrasto e a madrasta.

Mães legais deveriam encaram com naturalidade o fato de que os ex-maridos não vão se dedicar ao sacerdócio apenas porque se separaram, até porque ex-mulheres também não costumam entrar para conventos. A vida recomeça a cada ciclo, impõe novas experiências, se transforma. Não há bem ou mal absoluto: é preciso seguir em frente. Com respeito, amizade ou, pelo menos, civilização.

Quando eu era criança, havia um comercial na TV que dizia ‘não basta ser pai, tem que participar’. Nunca esqueci essa frase, acho que ela é muito mais complexa do que parece. Temos que participar da vida dos nossos filhos, da formação de quem eles vão ser. Não basta ser pai: para merecer presente pelo dia de hoje, tem que participar.