Liza Minelli: Minha mãe queria ser essa mina

Estadão

20 Março 2009 | 17h02

Marcos Brindicci/Reuters

Quando eu era criança, lembro da minha mãe vendo o filme ‘Cabaret’ e dizendo que era fã da atriz principal, Liza Minelli. Uma noite, ela e meu pai foram a uma festa à fantasia: meu pai foi de gângster; minha mãe foi de… Liza Minelli em ‘Cabaret’.

Ou seja: da mesma forma que eu queria ser caras como Robert Plant, do Led Zeppelin, ou Paul McCartney, dos Beatles, cresci vendo que minha mãe queria, de certa forma, ser Liza Minelli.

Quando comentei isso com a Miriam, assessora de imprensa do Via Funchal, ouvi uma frase que me deixou pensando um bom tempo. “Se conhecesse pessoalmente, a Liza Minelli é que ia querer ser sua mãe.”

Sei que esse blog se chama ‘Palavra de Homem’ e um show de Liza Minelli não é exatamente o assunto mais quente nas mesas de boteco da galera. Então vejam isso como uma homenagem a minha mãe. E mãe todo homem tem.

A seguir, texto de Helô Machado sobre o show de Liza Minelli.


Liza em São Paulo

Helô Machado

Quando eu tinha 10 anos, minha mãe me tirou do ballet: achou que as minhas pernas estavam ficando musculosas. Perdi assim minha grande chance de ser não apenas bailarina, mas uma grande estrela da Broadway. Como Liza Minelli.

Ontem eu estive com ela, no Via Funchal, no seu único show em São Paulo. O lugar privilegiado na primeira fila quase me permitia ouvir as batidas bem ritmadas do seu coração e a sua respiração ofegante entre uma música e outra, quando, simpaticíssima, ela falava da alegria de estar na cidade.

Para uma jornalista atenta, a primeira fila é tudo. Antes do início do show, vi duas botas pretas de paetês que ‘andavam’ de um lado para outro no palco, atrás da cortina fechada (cortina, aliás, um tanto quanto curta). Devem ser da estrela, pensei. Afinal, Liza se apresentaria somente com a sua orquestra de 12 músicos…

A cortina se abre e ela surge. Emoção total. Liza Minelli ali, bem pertinho. A roupa é brilhante: todinha de paetê preto. Muito brilho, como exige uma estrela do showbiz. O modelo é de uma senhora, que talvez precise disfarçar a silhueta avolumada: calça, regata, casaco, echarpe. E as botas de paetê? Foram trocadas por uns sapatos, salto médio e grosso, em tom de bege.

Não acreditei. Tive vontade de parar a orquestra, perguntar por aquelas botas pretas que eu vira, mas era tarde demais: Liza começou a cantar e eu me esqueci completamente do sapato ‘descombinado’ e da roupa nada a ver com aquela jovem encantadora e divertida, mestra de todos os ritmos, dona da maior afinação e daquele palco imenso, senhora absoluta de toda aquela gente.

No segundo ato, Liza muda de roupa, mas não perde o brilho. Ofusca em marrom: calça justa, bata ampla e mais curta e os tais sapatos, agora combinando. Mas isso não importa mesmo. Em quase duas horas de espetáculo, lá estava ela inteira, cheia de graça, linda e solta, desfilando seus sucessos e outras canções desconhecidas e não menos emocionantes. Entre as vinte músicas escolhidas, ‘Teach me’, ‘If’, ‘Comme ils disent’, de Charles Aznavour, cantada em inglês, ‘Liza com Z’, ‘Alexander Ragtime Band’, as inesquecíveis ‘Maybe This Time’ e ‘Life is a Cabaret’, do filme ‘Cabaret’, que lhe deu o Oscar em 72 e… ‘New York, New York’, claro!

A simpatia e o talento da estrela vão mais longe: a orquestra ataca ‘Canto de Ossanha’, de Baden Powell e Vinícius de Morais, na mais perfeita batida afro da composição e ela emenda um delicioso ‘Trevo de 4 Folhas’, sucesso de Nara Leão. E, agora, sucesso de Liza. Canta com bossa, com ginga, com samba no pé.

Não fosse o sotaque, poderia ser uma autêntica rainha de bateria, sem precisar ficar nua… Inacreditável. Ela repete, o público enlouquece. A cada passo, levantada de mão, cotovelada, a orquestra acompanha e vice-versa.

Liza nasceu para isso. Nasceu nisso. Jamais poderá calcular em quantos palcos já pisou, por quantos camarins e sets de filmagens já passou e até adormeceu quando criança, levada pela mãe, Judy Garland ou pelo pai, Vincent Minelli. Vencedora de vários prêmios, cantora, atriz e bailarina, ela pode se gabar de ser uma das artistas mais completas do século 20: atuou em 27 filmes, lançou 35 discos. Quantos shows já realizou? Sei lá. Nem ela sabe…

Aos 62 anos, bem mais magra do que na última vez que esteve no Brasil, livre da dependência de remédios, álcool e de quatro maridos, a estrela às vezes demonstra não poder ficar muito tempo de pé. Brinca com isso, ao puxar uma cadeira da coxia para cantar sentada: “Antes eu me sentava no segundo ato. Agora pego a cadeira no primeiro”…

O público talvez pense que é pela idade. Pouca gente se lembra. Há seis anos, Liza Minelli teve graves problemas na coluna ou nas pernas. Disseram até que ela não poderia mais andar… “Ela está inteira, cantando como nunca”, festejou o The New York Times, na sua estreia na Broadway, em dezembro. O show ‘Liza’ deveria permanecer duas semanas em cartaz. Sucesso absoluto de público e crítica, ficou quatro. Sua temporada brasileira começou em Porto Alegre. Dia 21 ela canta em Brasília e dia 24 no Rio de Janeiro. Depois? Em qualquer grande teatro do planeta…

Outros palcos, outras luzes, outras platéias. Tudo tão diferente e a mesma magia de sempre. Ela está acostumada. Antes de nascer, Liza Minelli já sabia: o show não pode parar – ‘the show must go on’. Aí é que está a grande diferença. Ser uma estrela não é para qualquer uma, não. Esse era o meu grande sonho de infância e, para dizer a verdade, ainda é. Sabe aquele sonho escondido que a gente conta pra todo mundo e todo mundo acha engraçado e pensa que é brincadeira? Mas no fundo – e no raso – não é. Deu pra entender?