Eu tenho vergonha dos outros

Estadão

25 Março 2009 | 09h00

Mallu Magalhães

Não sei se faz tipo ou se ela é assim mesmo, mas fico constrangido toda vez que vejo uma entrevista da cantora Mallu Magalhães

Você pode até nunca ter ouvido essa expressão, mas tenho certeza de que sabe o que ela significa. ‘Vergonha dos outros’, também conhecida como ‘vergonha alheia’, é aquela desconfortável sensação de constrangimento que nos toma o coração quando vemos outras pessoas passando por situações ridículas.

Vergonha alheia não escolhe vítima: ela pode aparecer graças a algo que aconteceu com nosso melhor amigo ou com um estranho. E nos deixa igualmente mal.

O teatro geralmente é um lugar perfeito para aprender a sentir vergonha alheia. Minha primeira vez foi lá, quando eu tinha uns vinte anos. Fui convidado para assistir a um monólogo de um amigo meu, que praticamente havia obrigado todos os seus conhecidos a comparecerem ao espetáculo. Ao chegar lá, porém, descobri que eu seria responsável por metade do público presente – isso, claro, sem contar as pulgas do teatro. Ao ver o local deserto, meu peito começou a se encher com um sentimento que misturava pena e desconforto, e até uma pitada de raiva por ver um ser humano exposto a uma situação tão idiota. Nascia ali uma emoção nova. Nascia ali a minha vergonha alheia.

Tudo ficou pior quando o ator entrou em cena e viu que só havia duas pessoas na plateia. Meu amigo tentou atuar como se o teatro estivesse lotado, e isso foi tão ridículo que a minha humilde e recém-nascida vergonha alheia começou a se transformar em um monstro gigantesco. Esse monstro invisível me obrigou a abaixar entre as cadeiras e rastejar até a saída; eu só resisti em nome da amizade.

Mas aí as coisas pioraram: eu e o outro coitado da plateia nos sentíamos obrigados a rir de piadas totalmente sem graça, já que meu amigo não tirava os olhos da gente. E nem dava, afinal, ali não tinha mais ninguém para ele olhar.

Após 253 horas (pelo menos foi isso que pareceu), a peça acabou e a humilhante salva de palmas foi o derradeiro momento de vergonha alheia da noite. Se eu estivesse vendo um filme, poderia ter dormido na primeira fila que os atores nem iam ligar. Talvez seja por isso que gosto mais de cinema.

Alguns amigos dizem que temos que lutar contra a vergonha alheia, que cada um de nós é responsável por seus atos e que normalmente já perdemos muito tempo nos preocupando com nossa própria vergonha para pensar no constrangimento de terceiros. É verdade. Mas enquanto os monstros continuarem ocupando salas de teatro e outros lugares públicos, minha vergonha alheia vai sobreviver. E eu não tenho a menor vergonha disso.