Elis era uma mulher de verdade

Estadão

21 Janeiro 2007 | 00h04

Elis

Cresci ouvindo Elis Regina em casa, graças ao bom gosto musical dos meus pais, ambos jornalistas de cultura. Em ocasião dos 25 anos da morte da Elis, na última sexta-feira, comentei com minha mãe que gostaria de ler um texto dela sobre a cantora, que também era sua amiga e ‘ídola’. Achei tão bonito que pedi a autorização para postar aqui no blog. Aqui está, portanto, o texto da jornalista Helô Machado.

“19 de janeiro de 1982. A empregada entrou correndo no meu quarto e disse: A Elis morreu! O susto foi tão grande que comecei a chorar, antes mesmo de saber se a notícia era verdadeira. E chorei o dia inteiro. Elis sempre foi a minha cantora, a artista que eu queria ser se fosse artista. Era a voz, o balanço, a divisão da música, era tudo. Eu até imitava Elis, de tanto que gostava. Todo mundo sabia disso. Ela também. E ria daquele jeito escancarado, de gengiva imensa e dentes pequenininhos.

No dia em que Elis morreu, fui para a Folha chorando, almocei chorando, trabalhei chorando, fiz uma entrevista na TV chorando, peguei o carro chorando e fui me despedir dela à noite, no Teatro Bandeirantes, chorando.

Mas não era só eu que chorava. Lá fora, a multidão não parava de chorar. Uma multidão que fechou a Brigadeiro até o dia seguinte.

Walter Silva, o Pica Pau – disc-jockey e grande amigo de Elis – me consolou na chegada. Entrei na fila para vê-la no palco, o mesmo palco onde a aplaudi tanto e onde ela viveu tanto sucesso em tantos meses com seu show ‘Falso Brilhante’.

Diante do caixão, relembrei meus momentos únicos com Elis: ela, aflita na porta da minha casa, pedindo que eu amamentasse seu filho João Marcello – ele era alérgico a todo tipo de leite e a ama-de-leite que ela havia contratado não conseguira pegar a ponte aérea.

Eu tinha acabado de ter meu primeiro filho Felipe e, felicíssima, pude atender ao pedido da ‘minha ídola’, que se hospedava sempre (para minha alegria) na casa de meu vizinho, o ator Alberto Ruschel.

Lembrei também dos nossos cabelos vermelhos e curtinhos à moda de Elis, ‘raspados’ no (barbeiro) Ringo, do Shopping Iguatemi, e das nossas gargalhadas quando Elis cantava ‘Amante à Moda Antiga’, em seu último espetáculo ‘Trem Azul’, de Fernando Faro.

No camarim, antes do show, ela substituía o ‘T’ pelo ‘P’ no verso “…apesar do velho Tênis e da calça desbotada…” e a gente morria de rir.

E lá estava eu, olhando Elis morta, tão pequenininha, meio que sorrindo, com a garganta cortada pela autópsia e a camiseta proibida da bandeira do Brasil, com ‘Elis Regina’ no lugar de ‘Ordem e Progresso’.

Alguém do meu lado me abraçou, tentando me confortar. Era Belchior. Saí, chorando ainda mais: me lembrei que Belchior terminou de compor ‘Como Nossos Pais’ num jantar que demos em casa… Elis amou tanto a música que não via a hora de gravá-la.

Tudo isso faz tanto tempo… outro tempão que não encontro Belchior. Quanta coisa aconteceu, surgiu, desapareceu, mudou. Como o tempo passou depressa. Faz tanto tempo e parece que foi ontem. Parece que Elis se foi para sempre e que não partiu nunca. Choro até hoje quando vejo Elis na TV, mas mesmo assim gosto de vê-la. Ouvir Elis é sempre uma grande felicidade. Dependendo da música, canto com ela. Ou, para falar a verdade… dou uma choradinha.”