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18 Março 2011 | 19h23

Algumas pessoas poderiam dizer que a atriz Lea Michele, de Glee, tem o nariz um pouco grande. Eu responderia: é o que temos para o momento

Uma coisa inusitada aconteceu na semana passada: dois amigos meus, completamente opostos em termos de personalidade e modo de vida, usaram exatamente a mesma expressão quando conversavam comigo. Um deles é publicitário, diretor de uma grande agência. O outro é um roqueiro, compositor de uma famosa banda de rock.

O que eles têm em comum? O branco dos olhos, no máximo. E, no entanto, me deixaram de olhos arregalados quando ouvi os caras dizendo a mesmíssima coisa.

“É o que temos para o momento”, disseram, diante de situações completamente diferentes. Isso me chamou a atenção, em primeiro lugar porque eu não imaginava que dois caras com vocabulários tão diversos pudessem compartilhar sequer uma simples frase. Em segundo, porque é uma frase que pode ter um significado muito mais complexo do que nos permite compreender a simples soma de suas palavras.

Tudo bem, você vai dizer que isso acontece com frequência com expressões que estão na moda, joias poéticas como ‘enfiar o pé na jaca’, ‘soltar a franga’ e outras belas contribuições da informalidade das ruas ao vocabulário brasileiro. Mas, nesse caso, acredito que a frase pode ser interpretada com teor um pouco diferente. Para mim, simboliza uma tendência muito mais complexa dos dias em que vivemos.

“É o que temos para o momento” simboliza, antes de tudo, uma aceitação pragmática de um fato. É um pouco fatalista? Pode ser. Mas, antes de tudo, é uma expressão realista, que não tinge de cores vivas o que é preto e branco. É uma prova de que há ocasiões em que não adianta a gente tentar reinventar a roda. Há uma outra expressão que diz o seguinte: “o cara que não sabia que aquilo era impossível foi lá e fez”.

Sim, é claro que isso acontece. As pessoas se superam. Quebram recordes. Explodem limites. Mas, na maioria dos casos do dia a dia, é necessário enfiar a viola dentro do saco e aceitar: é o que temos para o momento. Talvez tenha sido por isso que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lançou um livro com o título ‘O Brasil do Possível’. Era o que ele tinha para o momento.

Isso revela também essa atual tendência ao imediatismo. Quem consegue refletir sobre a vida? Tudo tem que ser agora, não há tempo para esperar. Temos algo melhor para oferecer? Temos, mas vai demorar um pouco. Coisas bem feitas precisam de carinho e capricho. Está com pressa? Come cru. Os japoneses estavam com pressa quando inventaram o sushi.

Espero que você tenha gostado do assunto da coluna desta semana. Se não gostou, desculpe. Era o que tínhamos para o momento.

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