Don Delillo: Homem em alta

Estadão

03 Outubro 2007 | 10h17

delillo

Pelo jeito parece que o 11 de setembro ainda vai render muita produção cultural, principalmente para os pensadores americanos. Li no fim de semana ‘Homem em Queda’, novo livro de Don Delillo. Depois de John Updike e tantos outros mestres, Delillo em seu novo trabalho também optou por abordar o terrorismo.

O livro é muito interessante, principalmente porque mostra os efeitos do 11/9 numa família tipicamente nova-iorquina. Estamos acostumados a ler sobre os efeitos dos atentados terroristas na geopolítica mundial, na política americana, nas consequências para a sucessão de Bush. Mas e o efeito no cidadão comum, aquele cara que estava no prédio e escapou? Não estou falando dos heróicos bombeiros ou policiais abordados no péssimo filme de Oliver Stone, ‘World Trade Center’. Estou falando de um profissional normal, um cara comum que trabalhava em uma das torres gêmeas, por exemplo. Que tipo de efeito teve o atentado sobre ele?

Don Delillo é um mestre das palavras e apresenta um cenário de confusão e desilusão pós-11/9. A trama do livro começa com Keith, um executivo, descendo as escadas machucado e coberto de poeira. Completamente perdido, ele volta para a casa da ex-mulher para se encontrar com o filho, Justin. A partir daí, Keith se muda de volta para a casa da mulher, Lianne, e tenta reorganizar a vida. ‘Homem em Queda’ também é interessante ao mostrar os amigos de Justin, um garoto de 7 anos, conversando sobre o atentando. Eles não entendem direito o que aconteceu, passam a ficar na janela observando o céu em busca de novos aviões assassinos. A narrativa, neste trecho em especial, fica bastante sensível – apesar de Delillo não escrever uma única linha sobre qualquer emoção em si. Suas frases são estranhas, curtas, quase abstratas em algumas ocasiões. Ele parece querer que o leitor também perca um pouco do seu rumo, como se as páginas do livro fossem torres igualmente atingidas por uma catástrofe.

O livro também fala sobre o ‘homem em queda’, um suposto acrobata/artista urbano que faz performances estilo ‘bungee jump’, eventos em que simula a própria queda como se fosse uma das pessoas que se atiraram do WTC para não morrerem queimadas. Às vezes Delillo narra a queda do tal performer, às vezes ele fala sobre os homens e mulheres que se atiraram, mesmo. A linguagem provoca uma visão embaralhada de fatos e sensações, sempre com a maestria típica do escritor americano. Apesar de ser considerado um ‘escritor para escritores’, ainda acho que Philip Roth é o maior mestre vivo da literatura americana…

(Sou suspeito de dizer porque sou fã de carteirinha de Roth; seu penúltimo livro, ‘Homem Comum’, aliás, acaba de sair no Brasil e vale a pena. Nos Estados Unidos, chega às livrarias esta semana ‘Exit Ghost’, novo livro do autor. Quanto tempo será que vai demorar para sair por aqui?)

Não vou contar mais porque a história de ‘Homem em Queda’ se desenrola em outras áreas, o núcleo familiar de Keith, sua sogra e o namorado dela, sua turma de amigos viciados em pôquer.

Quem quiser ler sobre os atentados de maneira mais objetiva, vai preferir a obra-prima ‘O Vulto das Torres: A Al-Qaeda e o Caminho até o 11 de Setembro’, do jornalista americano Lawrence Wright, vencedor do prêmio Pulitzer de 2007. Quem preferir entrar na cabeça de um jovem muçulmano revoltado, pode tentar ‘Terrorista’, de John Updike (se alguém tiver paciência, há um post sobre ele em algum lugar deste blog). Mas se você quiser entrar na cabeça de uma pessoa normal que (sobre)viveu o pesadelo, acho que ‘Homem em Queda’ será uma grande experiência.