David Lynch, o Imperador dos Sonhos

Estadão

10 Outubro 2007 | 09h19

David

Sou tão fã de David Lynch que meu caderno da faculdade tinha uma foto dele colada na capa. Comecei a gostar do diretor americano por causa de ‘Homem Elefante’, mas depois veio ‘Veludo Azul’, ‘Coração Selvagem’, a série ‘Twin Peaks’, ‘Cidade dos Sonhos’… e, antes que você possa dizer a palavra ‘ultrabizarríssimo’, eu já havia virado fã do cara. Se amanhã ele virar diretor dos comerciais das Casas Bahia, eu vou achar que eles merecem o Oscar.

Quem entra numa sala de cinema para ver um filme do David Lynch já sabe o que vai encontrar. Isso só não aconteceu em ‘The Straight Story’, (‘A História Real’) filme muito legal mas que não tem nada a ver com o estilo abstrato que o diretor imprime a seus outros filmes. Se bem que Lynch fez uma coisa nesse filme que eu achei genial: ele é um típico ‘road movie’, mas, ao contrário dos ‘road movies’ convencionais, que privilegiam personagens belos e jovens em alta velocidade, Lynch fez um ‘road movie’ ao contrário, lento, em que o personagem principal é um velhinho que cruza os Estados Unidos num trator caindo aos pedaços.

Três rápidas curiosidades sobre David Lynch: ele tem uma empresa de café orgânico (compre grãos no seu site oficial) ; ele saiu com uma vaca na coleira pelas ruas de Los Angeles pedindo a indicação da atriz Laura Dern ao Oscar; ele terminou o casamento com Isabella Rossellini por fax; ele estava em Los Angeles e ela, em Moscou (essa última eu tenho minhas dúvidas se é verdadeira – mas que eles foram casados, isso é verdade. E se conheceram nas filmagens de ‘Veludo Azul’).

Bom, tudo isso é para dizer que hoje sou uma pessoa mais feliz porque assisti ao novo filme de Lynch, ‘Inland Empire’ (‘Império dos Sonhos’, por aqui) em uma dessas cabines para jornalistas que alguém por aqui chamou ironicamente de ‘fura-fila de jornalistas’. (Não deixa de ser, mas convenhamos que somos necessários para quem deseja ler a crítica antes de ir ao cinema.) O filme será exibido na Mostra Internacional de São Paulo.

‘Império dos Sonhos’, enfim, é o filme mais louco do mais louco diretor da história do cinema. A história até que começa razoavelmente linear: a charmosíssima e talentosa Laura Dern faz o papel de Nikki Grace, uma atriz escalada para a nova superprodução do diretor Kingsley Stewart (Jeremy Irons) ao lado do galã-mulherengo Devon Berk (Justin Theroux). No dia do início das filmagens, Kingsley revela aos astros principais que o filme é na verdade um ‘remake’ de uma produção que nunca chegou a ser finalizada. A razão? O filme seria amaldiçoado porque é na verdade uma adaptação de uma lenda polonesa – e os dois atores escalados na época foram assassinados. A partir daí, Lynch cria toda sua loucura. Nikki e Devon começam a atuar, mas aos poucos o casal começa a virar também na vida real os seus próprios personagens, Sue e Billy. E tem início a seqüência de cenas mais bizarra que eu já vi em toda a minha vida.

A trama é uma espécie de lado B de ‘Cidade dos Sonhos’. Também trata (de certa forma, porque tudo com David Lynch é ‘de certa forma’) de Hollywood, mas de uma maneira mais macabra e sombria. Não é um filme de terror, longe disso. É que a história incorpora de maneira indireta personagens periféricos de Los Angeles (mendigos da Sunset Boulevard, por exemplo) que vivem a mágica do cinema pelo lado de fora, assim como lanterninhas e as velhinhas bisbilhoteiras vizinhas de celebridades. Para se ter uma idéia da loucura toda, há cenas em polonês – sem legenda! E mesmo assim, é impossível não ser hipnotizado pelas imagens surrealistas que jorram da tela. Agora, se alguém descobrir o que significa aquela família de coelhos-humanos que ficam sentados numa sala escura, por favor me avisem (foto abaixo).

Pontos que não gostei: ‘Império’ é filmado inteirinho em vídeo/formato digital. Antes de entrar no cinema, achei que isso era uma novidade maravilhosa, democrática, libertária. Quando vi o resultado, fiquei decepcionado. A impressão que dá é que estamos vendo um vídeo do YouTube na tela grande – uma espécie de ‘Bruxa de Blair’ escrita por um roteirista doidão. A textura do filme é estranha, pixelizada, feia. Uma pena, porque a imagem linda, perfeita e bem fotografada era uma das características que eu gostava dos filmes de Lynch. A loucura bem filmada era, sei lá, mais defensável. Outro ponto que não gostei: o filme é muito longo. Uma viagem de duas horas é aceitável; uma loucura de três horas é meio cansativa.

Fora isso, o filme é muito legal. David Lynch é um pintor abstrato que usa a câmera como um pincel; aqui não é necessário “entender” o filme no sentido literal da palavra. É mais importante senti-lo, absorvê-lo como uma obra de arte aberta e original. O filme atrai a atenção do público justamente porque é cerebral ao extremo. Você fica sempre tentando descobrir o que quer dizer cada signo visual exibido, cada frase do roteiro, cada expressão no rosto dos atores. É por isso que David Lynch continua a ser um dos últimos gênios realmente originais do cinema: porque ele faz perguntas e não dá respostas fáceis. Cada um sai do cinema com uma impressão, um filme na cabeça, o que torna cada espectador um ser altamente criativo: você é obrigado a montar alguma história a partir daquelas imagens, você sente-se obrigado a tentar encontrar alguma lógica naquilo tudo. Você tem que pensar duas vezes antes de responder “você foi ao cinema? Qual era a história do filme?” e por aí vai. Nem sempre se encontra, nem sempre é possível compreender tudo o que se passa na tela. Mas é um filme de David Lynch – e para mim isso é o suficiente.

Inland Empire