Brasil: sem orgulho e sem amor

Estadão

30 Julho 2007 | 09h57

natalia

Para mim não há nada mais constrangedor do que ouvir a torcida cantando “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor…”. Não tenho o menor orgulho de ser brasileiro. Por que eu teria? Isso soa como uma comparação com outras nacionalidades, como se ter nascido aqui nos desse alguma vantagem em relação a quem nasceu em outro país.

Orgulho de quê, cara pálida? Das praias bonitas, das florestas, dos rios? Isso tudo é lindo, mas não foi graças a nenhum brasileiro que a natureza veio parar aqui. Pelo contrário, aliás: estamos destruindo e queimando nossas maravilhas numa velocidade cada vez maior.

Orgulho de quê? Do povo brasileiro? Temos pessoas boas e más, como qualquer outro país. Hoje em dia, arriscaria até a dizer que somos piores do que os outros; nenhum outro povo agüentaria calado a humilhação pela qual sucessivos governos incompetentes nos fazem passar. A Justiça não é justa, o Legislativo só legisla em causa própria, o Executivo é motivo de riso – pena que os palhaços somos nós. “Não se pode generalizar”, defendem-se, protegidos pela imunidade que eles mesmos se concedem. A realidade dos fatos mostra que posso, sim.

Em relação a outros povos, a vergonha aumenta. Quando algum amigo estrangeiro me pergunta “qual é a melhor época para visitar o Brasil?”, eu respondo: nunca. Nossos aeroportos não funcionam – Santos Dumont deve estar se revirando no túmulo –, as ruas são imundas e você pode ser assaltado no caminho para o hotel (ou em qualquer outro local de qualquer cidade, a qualquer hora). E se for à Cidade Maravilhosa, ainda corre o risco de levar uma bala na cabeça no meio da rua. Ou seja, vá para outro país mais civilizado. Algum país na África, por exemplo.

Chegamos, finalmente, ao esporte, onde a torcida é composta por brasileiros “com muito orgulho e muito amor”. O Pan já acabou e, desculpe dizer, o mérito dos nossos atletas é deles mesmos, não têm nada a ver com o Brasil. Esportistas como Natália Falavigna, prata no Taekwondo, vencem apesar de serem brasileiros. São heróis que lutam por seus sonhos, como todos nós. Alguns conseguem se dar bem, a grande maioria só sobrevive. Aqui é assim: cada um por si. E Deus, que nunca foi brasileiro, contra todos.