O encontro do ilustrador Rogério Coelho com seus leitores
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O encontro do ilustrador Rogério Coelho com seus leitores

Premiado com o troféu HQMix e finalista em três categorias do Jabuti, o autor visitou uma escola na periferia de Porto Alegre, no projeto Adote Um Escritor

Bia Reis

02 Novembro 2016 | 18h00

coelho-turmaRogério Coelho fala sobre seu trabalho a alunos de escola municipal de Porto Alegre. Crédito: Bia Reis/Estadão

 

Qual foi o primeiro livro que você publicou? Qual você mais gostou de fazer? E o mais difícil? Quando você começou a desenhar? Você pode mostrar o livro que fez com seu filho?

Rogério Coelho mal teve tempo para respirar assim que abriu para as perguntas. As crianças que ocupavam as cadeiras e o chão de uma sala na Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof. Judith Macedo de Araújo, na periferia de Porto Alegre, estavam ansiosas para saber tudo sobre o ilustrador e autor de livros infantis cujas obras haviam lido nas últimas semanas como parte do projeto Adote Um Escritor, que acaba de completar de 15 anos.

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Desenhos feitos pelas crianças com base em livro de Rogério. Crédito: Bia Reis/Estadão

 

Os alunos, entre 9 e 13 anos, já tinham lido dois livros autorais de Rogério – O Barco dos Sonhos, da Editora Positivo, e Louco – Fuga, da Graphic MSP, que estão entre os finalistas do mais importante prêmio da literatura brasileira, o Jabuti – e alguns entre os cerca de cem que já ilustrou, como O Amor Pega Feito Um Bocejo e O Dia de Ver Meu Pai, em parceria com seu filho do meio, Pedro, de 12 anos.

Rogério conhece bem a realidade dos meninos e meninas para quem foi falar. Na infância e adolescência, estudou na rede pública do Paraná, a maior parte do tempo em Curitiba. Filho de pai contador e mãe professora, teve uma vida simples, mas nunca lhe faltaram materiais – e persistência – para desenhar. E foi isso o que o ilustrador, que recebeu neste ano o troféu HQMix, o Oscar dos quadrinhos no Brasil, contou para as crianças:

“Estar aqui é uma coisa surpreendente. Se, quando eu tinha a idade de vocês, alguém me falasse que isso ia acontecer, não acreditaria. Com 11 ou 12 anos, não desenhava nada parecido com o que faço hoje. Tinha amigos que desenhavam muito melhor, mas eu fui persistente”, disse Rogério, de 41 anos.

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Caderninho de Rogério com ilustrações que deram origem a O Barco dos Sonhos. Crédito: Bia Reis/Estadão

 

As crianças cresceram os olhos quando Rogério tirou da mochila as folhas soltas de um caderninho onde esboçou pela primeira vez livro-imagem O Barco dos Sonhos. Nele, a narrativa é construída apenas com ilustrações, sem palavras. As folhas passaram de mão em mão e atiçaram a curiosidade. “Foi fácil ou difícil fazer esse livro”, perguntou um aluno. “Coloquei minha experiência de vida, então foi fácil, apesar de demorado. É difícil quando tenho de ilustrar um texto em que não encontro nenhum ponto de contato.”

Rogério explicou a diferença entre ilustrar um texto de outro autor e fazer um livro inteiro e incentivou as crianças a continuarem desenhando, sempre. Às que gostam muito de desenhar, sugeriu que participem de concursos e salões. O conselho animou Pedro Henrique, de 10 anos, que sonha em ser desenhista. “Vou pedir ajuda para o professor para descobrir como concorrer.”

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Pedro e Yasmin, dois alunos devoradores de livros. Crédito: Bia Reis/Estadão

 

Pedro faz parte de um grupo de alunos da escola que são devoradores de livros. “Gosto de ler tudo, mas principalmente aventura e terror, como As Crônicas de Nárnia, de C.S.Lewis. Já não pego mais muitos livros das prateleiras das crianças, prefiro os juvenis”, disse Pedro, que costuma trocar dicas de leitura com a amiga Yasmin Eduardo, de 11. Articuladíssima, Yasmin falou que antes adorava livros sobre bullying – “Eu vivia isso, por causa da minha cor e da minha religião. Mas isso foi uma poeira que passou” – e agora lê tudo, de Até as Princesas Soltam Pum, de Ilan Brenman e Yonit Zilberman, passando por obras sobre a África e chegando a Thalita Rebouças.

Perguntados se ler os ajuda na escola, Yasmin contou que é aluna nota 10, mas que Pedro, “apesar de ser muito inteligente e leitor”, só pensa em desenhar. Os dois riem. E menina revela: “Eu quero ser uma cientista global, mas hoje sou mesmo é uma fofoqueira de livros.” Como assim, Yasmin? “Fofoqueira de livros. Não posso ver alguém lendo uma coisa que já li que fico com vontade de contar o fim da história”, diverte-se.

Sobre o Adote Um Escritor. Criado há 15 anos, o projeto Adote Um Escritor é resultado de uma parceria da Secretaria de Educação de Porto Alegre com a Câmara do Livro. Realizado nas 98 escolas da rede municipal, beneficia diretamente cerca de 15 mil alunos por ano, segundo Ana Paula Cecato, coordenadora do Núcleo de Formação de Mediadores do Livro, da Câmara. “Nosso objetivo é a formação do leitor literário. Acreditamos na literatura como ferramenta de empoderamento.”

O projeto ocorre durante o ano inteiro, não apenas durante a Feira do Livro de Porto Alegre. No primeiro semestre, a organização escolhe 65 autores, sendo 40 do Rio Grande do Sul e 25 de outros Estados brasileiros. Cada escola da rede municipal fica com um autor e recebe seus livros para trabalhá-los com os estudantes, além de assessoria técnica. Para as crianças, o ponto alto é a visita do escritor ou do ilustrador à escola.