De um giz de cera, um mundo de histórias!
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De um giz de cera, um mundo de histórias!

Em 'A Revolta dos Gizes de Cera', Drew Daywalt e Oliver Jeffers imaginam o que aconteceria se os gizes se revoltassem, por motivos diversos

Bia Reis

10 Outubro 2017 | 06h00

Em 2015, um livro aterrissou em terras brasileiras com um título tão adorável quanto intrigante: A Revolta dos Gizes de Cera. Era uma tradução que o selo Salamandra trazia ao Brasil, dos autores Drew Daywalt e Oliver Jeffers. O traço do irlandês Jeffers é bastante conhecido já por aqui, com livros incríveis como Achados e PerdidosPresos e O Coração e a Garrafa. Mas a parceria com o norte-americano foi algo tão perfeito que rendeu uma continuação, A Volta dos Gizes de Cera, que este ano chegou por aqui. Os dois juntos venderam 3 milhões de cópias no mundo e o segundo volume chegou a ficar 200 semanas na lista de best-sellers do jornal The New York Times. É um estrondo mesmo, tanto que a Sony anunciou estar fazendo um filme inspirado nos livros.

Mas por que tamanho estardalhaço? Pela mais criativa e mais simples ideia de que os gizes de cera – ou crayons, como chamam os de língua inglesa – um dia podem se revoltar. E pelos mais diversos motivos. No primeiro livro, Diego, um menino dono de vários gizes, recebe cartas de várias cores. Ou melhor: uma carta de uma cor diferente. A primeira que o leitor tem acesso é a do Vermelho, cansado de trabalhar demais pintando carros de bombeiro, morangos e todos os corações do Dia dos Namorados. Depois, é a vez do Roxo, que é muito caprichoso e gostaria de que o menino se preocupasse mais em colorir dentro do contorno. Os dois mais divertidos são o Laranja e o Amarelo, que disputam o título de “a verdadeira cor do sol” e querem que Diego decida. O enredo termina com o menino comovido com as queixas e uma solução deliciosa.

Pois bem, Diego não sabia, mas, com o passar dos anos, sua fissura em usar os gizes de cera o tempo todo fizeram com que alguns deles fossem esquecidos pela casa. É por isso que, desta vez, Diego recebe uma porção de postais. O que era divertido e cheio de boas sacadas no primeiro, ganha ainda mais força e ironia no segundo.

Quem começa a contar seu drama é o giz de cera bordô. Pouco usado no dia a dia, ele conta a Diego que está no sofá da sala, partido ao meio, e que apenas sobreviveu com a ajuda do Clipe, que está “segurando as pontas”. Em seguida, temos o giz Verde-Ervilha que lamenta que ninguém gosta dele de verdade e que decidiu mudar de nome e fugir para o mundo. Mas o mais incrível é, sem dúvida, o Vermelho-Neon, que foi esquecido em um hotel nas férias. Ele decide, então, voltar para casa e dá uma “volta ao mundo” completamente bizarra, enviando vários postais a Diego.

Estas questões de pertencimento, valor do que “serve e não serve”, características de comportamento e a própria trama são, digamos, imprescindíveis ou inevitáveis do pensamento da criança. O giz de cera representa, além de tudo isso, algo tão perto do democrático, da possibilidade de qualquer criança (ou adulto) poder se divertir se tiver um nas mãos. Por isso, as crianças se identificam demais com os personagens que, no traço também irônico e nonsense de Oliver Jeffers, ficam extremamente expressivos, a partir de um objeto tão comum quanto especial. O leitor fica com vontade de desenhar com os seus livros, quer cuidar dos gizes abandonados, colocando-se no lugar deles (os desprezados, maltratados, esquecidos) ou como Diego (que não teve a intenção de magoar ninguém, mas…): nunca saberemos ao certo. Talvez um pouco de cada, assim como trocamos de papéis conforme a situação.

No mais, uma diversão inesquecível, uma oportunidade de delicadamente e criativamente potenciar uma leitura em texto e imagem. Conversas para não para mais.

** Quer conhecer outro livro do Oliver Jeffers? Confira então O Coração e a Garrafa,

Serviço

A Volta dos Gizes de Cera
Autores: Drew Daywalt e Oliver Jeffers
Editora: Salamandra
Preço médio: R$ 45

(Bia Reis e Cristiane Rogério)