Wild Wild Country: fanatismo religioso, sexo, violência, luxo e uma reflexão sobre o “bem”

Wild Wild Country: fanatismo religioso, sexo, violência, luxo e uma reflexão sobre o “bem”

Documentário da Netflix exibe impressionante história de fanatismo de seita nos anos oitenta.

Estado da Arte

05 Abril 2018 | 17h30

por Renata Velloso

Você que fica irritado com o pessoal que quer fazer regra até para fantasia de carnaval, imagine-se na pele dos moradores da pequena e pacata cidade de Antelope em 1981. O pequeno vilarejo, então com cerca 40 habitantes, no interior do estado de Oregon, nos EUA, recebeu visitantes inesperados e que chegaram para ficar. Eram seguidores do guru indiano Rajneesh, também conhecido por Bhagwan e mais tarde, por Osho. Esse é o enredo base do documentário Wild Wild Country, recém lançado pela Netflix.

A seita tem princípios que parecem simples e positivos: prometem a iluminação humana através da meditação e do contato com a natureza. Seus membros são incentivados a praticar o desapego não apenas em relação aos bens materiais como também em seus relacionamentos. Mas, apesar das ideais aparentemente inofensivas e do fato todos os membros, à exceção do guru, usarem roupas apenas nos tons de vermelho, laranja ou rosa, a passagem deles pelos EUA foi sombria.

Exceto pelo líder, falecido em 1990, os todos protagonistas dessa história são entrevistados pelo documentário da Netflix. Hoje, eles têm a aparência de avós fofinhos e distintos que vestem colete de lã e fazem biscoitos de Natal. Isso torna ainda mais surpreendente acompanhar a montanha russa de eventos que viveram décadas atrás.  Se não tivesse tudo muito bem documentado, e você vai descobrir o porquê dessa riqueza de imagens e gravações na segunda parte da série, não daria para acreditar.

Seria cruel dar spoliersnessa resenha, mas eu posso prometer que você vai passar pelo menos metade das 6 horas de documentário de boca aberta, incrédulo. Só para abrir o apetite, dá para contar que essas pessoas compraram por 5 milhões de dólares (pouco mais de 15 milhões hoje) arrecadados em doações, um rancho de 64 mil hectares no meio do nada.

Não à toa, antes de ser comprado, esse rancho era chamado de Big Muddy Ranch (grande rancho de lama, em tradução livre). Naquele lugar completamente inóspito, utilizando apenas trabalho voluntário, os seguidores da seita, construíram em um ano uma cidade auto suficiente para 10 mil pessoas. Na cidade, que passaram a chamar de Rajneeshpuram, havia casas confortáveis, uma fazenda orgânica, fábrica e lojas e vestimentas, escola e até uma represa para geração de energia elétrica para a comunidade.

O grupo não se mudou da Índia para os Estados Unidos por acaso. Os EUA ofereciam as condições ideais para o crescimento da seita que passava por problemas com o fisco indiano. Primeiro porque uma parcela importante das pessoas que iam visitar o templo na Índia eram norte-americanos, segundo (e talvez mais importante) a Constituição dos EUA garante explicitamente a liberdade religiosa, de expressão e de agrupamento e com isso, oferecia uma proteção fundamental para eles.

Porém, não foram exatamente bem recebidos pelos locais e o embate desses forasteiros com os antigos habitantes vai escalando de maneira exponencial e acaba envolvendo o país inteiro, até o governo federal, numa tensão de tirar o fôlego. E tão interessante quanto as reviravoltas mirabolantes que essa história apresenta são as reflexões filosóficas e políticas que podemos tirar dela.

Os seguidores da seita, chamados sannyasins, incomodavam. Se uma reforma no apartamento de cima já incomoda, imagina seu vizinho construindo uma cidade! Mas, pela fala dos antigos habitantes do interior do Oregon que aparecem no documentário, o incômodo com a construção foi secundário. O que angustiava mesmo era o comportamento moral (ou amoral) dos seus seguidores no que tange à nudez e à sexualidade.

Fazia parte do ritual dos sannyasins uma espécie de catarse em grupo na qual os participantes, todos nus, expurgavam seus males com gritos, danças e lutas corporais, até que, supostamente purificados, encontravam a calma através da meditação. Esse ritual foi filmado por um cinegrafista que conseguiu participar de um desses eventos e foi exibido no cinema da cidade de Antelope. Como vocês podem imaginar, não pegou bem.

Além de praticar esses rituais de purificação nus, os sannyasins também pregavam o desapego em relação aos relacionamentos. Eles negavam o sentimento de posse que é a base da monogamia e do amor romântico e acreditavam que, desde que fosse consensual, qualquer arranjo de relacionamento era aceito. Claro, que dentro do rancho havia casais monogâmicos heterossexuais padrão, mas essa não era uma regra, muito menos uma obrigação. Para uma sociedade americana estruturada sobre as bases da família nuclear, essa falta de regras causava estranheza. E mais incômodo, claro.

Fazendo um paralelo com o que aconteceu com o Brasil recentemente a respeito das exposições de arte polêmicas que aconteceram em São Paulo e Porto Alegre, os conservadores americanos tentaram colocar o comportamento dos sannyasins em cheque em termos jurídicos invocando as crianças. O argumento, conhecido nosso, era que os adultos até poderiam viver a sua sexualidade e os seus relacionamentos como bem entendessem, mas a comunidade também era habitada por crianças. Até que ponto seria saudável que elas fossem expostas a esse tipo de comportamento? Pior, dentro do rancho havia até uma escola pública, na qual os professores eram todos adeptos da seita. Seria certo esse tipo de doutrinamento em cima das crianças?

Os sannyasins se defendiam dizendo que as crianças eram tratadas com respeito e carinho, estavam saudáveis e que, ter professores religiosos não era um problema, nem uma novidade. Eles têm até razão, dado que até hoje em vastas regiões dos EUA, e até estados inteiros, como é o caso de Utah com os Mórmons, líderes religiosos participam da educação das crianças sem nenhum problema.

Outro argumentos que devemos conceder aos seguidores do Rajneesh é que eles não começaram a violência. Mas como explicou a líder Ma Anand Sheela, talvez a personagem mais interessante dessa série (pelo menos do lado dos Rajneeshs) não fazia parte dos ensinamentos do seu mestre “dar a outra face”. Portanto, eles não iniciaram os ataques violentos, mas escalaram de uma maneira absurda e obviamente ilegal.

Daí podemos tirar outro paralelo com a nossa realidade atual. Alegando estar defendendo a sua existência e a integridade dos seus membros, bem como a disseminação de uma ideia positiva de iluminação de toda a humanidade, como se fossem a própria encarnação do bem e da felicidade, os seguidores de Rajneesh partiram para o ataque.

A ofensiva foi liderada pela própria secretária pessoal de Rajneesh, Ma Anand Sheela, que determinava a estratégia após reuniões diárias, sempre a portas fechadas, com o grande mestre. Ele em si, era poupado em todos os sentidos e ironicamente, apesar de pregar desapego aos bens materiais, vivia uma vida de luxo que deixaria com inveja Eike Batista de seus bons tempos.

Como vocês podem já imaginar, quando os escândalos vieram à tona, o grande mestre alegou que desconhecia tudo o que era feito em seu nome. Não faltou nem o argumento “cadê as provas?”. Parece familiar?  E é mesmo. Por tudo isso, Wild Wild Country é um programa imperdível.

Renata Velloso é formada em Administração Pública pela EAESP-FGV e Medicina pela Unicamp, trabalha com projetos de inovação na área de saúde no Vale do Silício na Califórnia, é colaboradora do Terraço Econômico e autora do livro de empreendedorismo para jovens e adolescentes “Criando Unicórnios”.