Uma concepção da nação israelita e do herói bíblico – Parte 2: Sansão e o Anti-Herói

Uma concepção da nação israelita e do herói bíblico – Parte 2: Sansão e o Anti-Herói

Estado da Arte

01 Fevereiro 2018 | 12h00

por Thiago Blumenthal

Situada no capítulo 13 do livro dos Juízes a narrativa do nascimento de Sansão serve de importante discussão para defendermos a ideia que propusemos no primeiro artigo desta série, dedicado a Ana: da urgência do herói e da transição política israelita.

No primeiro versículo deste capítulo, já temos a explicitação da desestabilização social do período: os israelitas estavam entregues às mãos dos filisteus por quarenta anos. Tal informação logo de início nos liga ao comentário de Carol Meyers[1], que vê uma influência social maior da mulher em períodos de desagregação e caos social.

Ou seja, há aí um indício de que a narrativa, tendo uma protagonista feminina (e com as peculiaridades que lhe são atribuídas, especialmente quanto à anunciação, como já veremos), segue os mesmos caminhos daqueles tomados por Ana, como analisamos anteriormente. Mas não se trata do mesmo percurso: primeiro ponto, a narrativa é cronológica e canonicamente anterior a Ana; segundo ponto, enquanto em Ana, há um processo evolutivo metonímico da personagem (da sociedade), o mesmo não se dá com a família de Sansão, especialmente com a mãe.


Aqui em Sansão, se desenha perfeitamente um panorama de uma sociedade e de uma fé israelitas desvairadas e despreparadas, diferente do que encontramos em Ana, uma figura imbuída de independência e consciente da importância da concepção, não apenas para o seu próprio papel dentro do círculo familiar de patriarcado, mas também para a coletividade israelita (o paradoxo votivo, de oferecer o primeiro fruto a Deus).

De início, a mão de Sansão toma proporções quase únicas na bíblia hebraica, pois é ela quem pessoalmente recebe a anunciação, no paralelo infertilidadefertilidade, no versículo 3:

את-עקרה ולא ילדת והרית וילדת בו

[És estéril, e nunca concebeste; porém conceberás, e terás um filho.] 

Assim, a explicitação da esterilidade com o termo אקרה e a adversativa hebraica, na anunciação da concepção. Tal anunciação se mostra de modo bastante típico: a própria mulher estéril recebe a anunciação, mas não apenas isso; é-lhe declarada a sua esterilidade. Existe aí um jogo de verso e reverso próprio da construção bíblica, mas incomum às anunciações de esterilidade. Esse diálogo direto e sem intermediários estabelecido entre a mãe de Sansão e o anjo do Senhor guarda em sua estrutura própria da linguagem um aspecto que será importante para a análise.

Enquanto o diálogo travado entre a mão de Sansão e o anjo se dota de uma apurada escolha até mesmo vocabular, o mesmo não ocorre no diálogo entre ela e o marido, deixando aí entrever uma superfície do baixo estrato social israelita, como dito, desvairado e caótico, política e religiosamente – o período totalmente desestabilizado, na mão dos filisteus.

O coletivo se expressa na fala de Manué e sua esposa, sugerindo a ignorância e a futilidade na confusão da anunciação: o espectro metonímico se evidencia em relação ao coletivo: o problema da fé alucinante e o não saber o que fazer diante da anunciação e como preparar o filho à consagração do nazireato, conforme revelado pelo anjo.

Unir dois extremos temáticos na mesma história é um estratagema por parte do narrador bíblico justamente para enfatizar o caráter burlesco desse caso de concepção e dessa anunciação heroica: o filho seria um nazireu, algo que requeria extrema responsabilidade não só dele mesmo, mas de seus pais. Eis a questão: a família se mostra despreparada, e a narrativa ganha ares satíricos, ambientando a emergência do nascimento do herói, concretizada na narrativa de Ana.

A mãe de Sansão parece incerta quanto à identidade do anjo e diz ao marido apenas que o mesmo se assemelhava a alguém, não que era alguém:

ומראהו במראה מלאן האלהים

[a aparência era semelhante à de um anjo de Deus]

Nesse trecho do versículo 6, temos a clara noção do despreparo da personagem frente à aparição e à consequente anunciação do nascimento do filho. Ao dialogar com o marido, ela não só revela o desvario de sua fé, como também o torna cúmplice da mesma visão, que apenas se assemelhava e não era.

Interessante restabelecer o contato que se dá nas duas camadas linguísticas do texto: uma, a camada do narrador bíblico, que mantém uma linha de linguagem minuciosa e precisa, cheia de conteúdo até legislativo, até pelas prescrições de um filho nazireu; já a outra camada, definida no diálogo de marido e esposa, permeia uma certa confusão semântica, uma espécie de alucinação, calcada em um vocabulário pobre e baixo.

Uma mãe judia recebe três sábios do oriente que vieram prestigiar seu bebê recém nascido: Brian Cohen (no filme Monty Python’s Life of Brian, 1979).

Vemos isso nas referências ao nome de Deus: enquanto o termo אלהים [Elohim] ganha uma significação pluriforme nas palavras de marido e esposa, uma vez que o artigo antecedente e a estrutura sintática permite essa leitura plural do termo, o narrador bíblico e o anjo cuidam de manter o nome de Deus em uma posição absoluta, não gerando ambiguidades. Tanto que, com o passar da narrativa, notamos uma explicitação maior na escolha do tetagramatom, alinhada ao vão desenvolvimento das duas personagens (marido e mulher) até chegar ao ponto em que é descoberta, no versículo 21, a identidade e a divindade daquele anjo.

A partícula temporal אז [“então”] nesse versículo reforça o caráter burlesco, não só de Manué, como da narrativa em si, antecipando, de certa maneira, a tragédia da história de Sansão. Ou seja, só depois do anjo subindo na chama do altar, só então os dois confirmaram sua identidade.

Meyers nota na história da mãe de Sansão uma analogia reversa quanto aos papéis masculino e feminino. A personagem aqui é inicialmente munida de uma independência e até de um privilégio que não são comuns à estrutura social e narrativa bíblica israelita. Como dissemos, é ela quem recebe pessoalmente a anunciação, ponto esse já discutido. Mas há mais. No versículo 11, diz-se que o esposo seguiu a mulher ao campo; em uma sociedade de forte estrato patriarcal, tal fato não é de fácil aceitação, porém Manué se revela como um personagem submisso; não apenas isso, mas como um personagem inerte, cuja participação, quando não atrapalhar a anunciação, será inútil.

Comparando também essa narrativa com a base fundante em Sara (Genesis 18:10), esta estava à porta da tenda, atrás de Abraão e dos anjos que anunciavam. A mãe de Sansão, por sua vez, estava em campo aberto e entra pela porta da casa (versículo 6) para desdobrar a seu modo a anunciação há pouco recebida. O paralelo é aqui arquitetado de modo perspicaz pelo narrador. Dá-se a falsa impressão de uma certa notoriedade da mãe de Sansão, em uma relação metonímica espacial (tenda – campo / confinamento – independência), notoriedade essa destroçada com o desenrolar narrativo, na contraposição entre as duas camadas da história: o narrado e o que está sendo narrado. Desse modo, a história é múltipla em desdobramentos: há uma notoriedade inicial da personagem, mas essa não corresponde; há um narrador e uma linguagem formal, mas há a linguagem das personagens, vulgar e ignorante; há a urgência do herói, mas há o despreparo da sociedade em tê-lo.

O que temos nessa narrativa é um percurso satírico que, no início, parece valorizar a mãe de Sansão, mas, por fim, inverte e dessacraliza a anunciação da concepção divina diante do despreparo social e religioso israelita. Quando Sansão posteriormente falha em viver segundo as expectativas do nazireu, “a alusão à teofania é reconhecida como paródia”[2] e assim se dá o anti-herói, o que seria “a união divino-mortal que resulta no nascimento de um super-herói. A narradora hebraica enfatiza que não há nenhuma sacanagem divino-mortal.”[3]

Quebra-se inclusive o paradigma nazireu, no ato do corte de cabelo executado por Dalila, confirmando e ilustrando o desvario da fé israelita naquele período.

Essa narrativa possui os traços de astúcia que são particulares ao narrador de Juízes, que projeta uma luz sobre um ângulo da história e desenvolve a trama sorrateiramente na parte sombreada. E com isso desvela todo um quadro panorâmico, mas precisamente concebido e focado, da sociedade pré-monárquica israelita que daria seus primeiros passos com a proeminência de Ana, aqui nesse trabalho lançada em contraponto complementar.

Ana e Sansão – Dois modelos

Inicialmente, temos que montar as duas narrativas dentro de um mesmo quadro social: a sociedade pré-monárquica israelita. Anterior à história de Ana, a mãe de Sansão vive em um meio social completamente desestabilizado, na mão dos filisteus. A responsabilidade que lhe é outorgada não corresponde aos desígnios narrativos, nem divinos, tampouco aos do leitor, que cai na armadilha narrativa, tomando-a por proeminente não só dentro da estrutura fechada e patriarcal, mas dentro do que é narrado e das circunstâncias ali expostas.

Porém, a história da mãe de Sansão começa a nos revelar o período de emergência vivido ali naquela sociedade: a necessidade do nascimento do herói. O que parece ser sugerido aqui é a tensa relação entre a intervenção divina e a iniciativa humana: enquanto na mãe de Sansão, temos apenas um lado operando, Ana age, e só há interferência divina após o ato sexual entre ela e o marido, algo único descrito e explicitado em uma história de motivos estéreis. Justamente a esterilidade em ambas adquire conotações e importâncias diferentes, como pudemos ver.

Com o nascimento de Samuel, se dá a transição para a reforma sacerdotal, também desestabilizada, e para a monarquia israelita. Sansão não corresponde à expectativa heroica dele esperada, mas Samuel é o ponto de referência que complementa o pivô iniciado pela mãe.

Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42 e doutorando em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • [1] Berlinerblau, J. The Vow and the ‘Popular Religious Groups’ of Ancient Israel, Sheffield: Sheffield Academic Press, 1996.
  • [2] Klein, Lillian R. “Um estudo preliminar das personagens femininas do livro de Juízes” IN Juízes – A partir de uma leitura de gênero. (organizado por Athalya Brenner / tradução de Fátima Regina Durães Marques). São Paulo: Paulinas, 2001. pp. 35
  • [3] Idem. pp. 62

Bibliografia

  • תורה נביאים כתובים, Jerusalém: Koren Publishers Jerusalém Ltd, 2004.
  • Berlinerblau, J. The Vow and the ‘Popular Religious Groups’ of Ancient Israel, Sheffield: Sheffield Academic Press, 1996.
  • Brenner, Athalya (org). Juízes – A partir de uma leitura de gênero. (tradução de Fátima Regina Durães Marques). São Paulo: Paulinas, 2001.
  • Cook, J. Hannah’s Desire, God’s Design – Early Interpretations of the Story of Hannah, Sheffield: Sheffield Academic Press, 1999.

Para saber mais: