Um equívoco sobre a psicanálise

Um equívoco sobre a psicanálise

Mais do que uma 'jornada pelo autoconhecimento' com a consequente imputação de nossas limitações aos traumas passados, a psicoterapia é o reconhecimento de que eu sou responsável pela minha história.

Estado da Arte

16 Abril 2018 | 08h00

por Felipe Pimentel

Há um equívoco que muitas pessoas cometem sobre a psicanálise e as psicoterapias orientadas por ela: trata-se de pensar que o objetivo de uma análise é descobrir uma verdade oculta no nosso inconsciente, que supostamente determina nosso modo de ser, e que, ao descobri-la, nos libertamos de nossos sintomas. Essa crença é equivocada por várias razões, sendo a primeira delas a de que essa “catarse” não acontece necessariamente, isto é, não é porque descobrimos alguma questão inconsciente que imediatamente estamos livres dos sintomas determinados por ela.

Por vezes, isso pode acontecer; noutras vezes, trata-se somente de um tipo de alívio que não afeta o sintoma em si, ainda que traga algum bem-estar egóico (“eu me conheço”); e, em muitas vezes, pode ser até mesmo mais angustiante desvendar alguma trama inconsciente nossa, sem nenhum efeito “benéfico” imediato. A segunda razão do equívoco é que essa crença rapidamente degenera numa visão boba sobre a análise, a de que se analisar é “se conhecer” e que tal fulano é “analisado”. O cenário pode ser ainda pior: crer que uma terapia implica somente essa espécie de autoconhecimento pode levar a algo bem comum, a crença prosaica de que o analisado é alguém que sabe a quem atribuir as suas mazelas, crença que se manifesta na expressão tola “descobri que ajo assim nos meus relacionamentos porque meu pai…”. Não é incomum encontrar pessoas que se trataram e utilizam os seus “insights” para se desresponsabilizar por suas próprias questões, fazendo do seu inconsciente um terreno terceirizado e tiranizado pelas más ações dos outros, que a pessoa usa como licença.

Limpemos o terreno. É evidente que uma psicoterapia analítica ou uma análise propriamente dita abrange algo de “autoconhecimento”; e, com isso, também é evidente que descobrimos que situações da vida (traumáticas ou não) determinam modos de funcionarmos – inconscientes ou não. Por certo, a análise ambiciona atingir esses insights. Porém façamos as devidas ressalvas. A primeira diz respeito à metodologia do tratamento, a saber, que essas descobertas são somente o primeiro passo de uma terapia e não o fim ou objetivo dela. Ninguém deve se levantar do divã e ir para casa, “analisado”, carregando somente uma espécie de raio-x mental da própria biografia, algum tipo de ciência das causas e forças motrizes que determinam este ou aquele comportamento. Descobrir algo que nos determinou e determina não é o ponto de chegada da análise, mas exatamente o contrário, isto é, o início da análise.

A segunda ressalva a ser feita abrange o modo como compreendemos esses insights – e parece importante que um analista explique, por ventura, a algum paciente que possa não (ou mal) compreendê-la: os eventos que ocorreram em nossa história não são determinantes de nada – mesmo os mais intensos e traumáticos. Não importa o que nos aconteceu, mas o modo como lidamos com aquilo que se passou conosco. Então, atestar que dado evento nos legou tal comportamento, consciente ou não, ou descobrir um trauma perdido no inconsciente que provoca tal reação é o primeiro passo de uma análise porque o segundo já é o modo como vamos lidar com tal herança. Não se trata do contrário, isto é, reconhecer aquela força motriz e daí em diante jogar a responsabilidade para ela. A análise, apesar de muitos “analisados” tratarem-na assim, não é uma tomada de consciência sobre forças inconscientes determinantes e indomáveis que se tornam licenças para nossas limitações, tampouco uma expiação de culpa de nossos aparentes pecados, agora imputados a nossos traumas. Mas, afinal, o que é uma análise?

 

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Por mais que tais ciências (a conscientização de forças inconscientes ou mesmo o que se chama hoje de autoconhecimento) façam parte de uma análise, elas não são a análise como um todo – especialmente, porque conhecer a si mesmo não serve para quase nada.

Conhecer a si mesmo, do ponto de vista psicanalítico, serve somente como uma antecipação de eventuais e típicos “erros” que cometemos, mas não tem, em si, nenhuma capacidade de transformação subjetiva. E aqui começamos a responder o que pode ser uma análise: ela não é uma tomada de consciência da própria biografia e a consequente imputação de nossas limitações aos traumas e pessoas que cruzaram nossa vida, ela é, em primeiro lugar, o reconhecimento de que eu sou responsável pela minha história (em sentido nietzschiano amor fati, aquilo que ocorreu comigo fez eu ser quem eu sou e cabe a mim lidar com isso). Em segundo lugar, a análise é o reconhecimento de que os nossos sintomas foram as respostas possíveis que demos ao longo do tempo à nossa biografia e de que eles são, provavelmente, os piores negócios que poderíamos ter feito (ainda que sejam aquilo que conseguimos). E, por fim, uma análise propõe o contrário do autoconhecimento e da familiaridade com a própria personalidade, uma análise propõe uma transformação subjetiva, isto é, o contrário de saber quem se é – um convite à experiência mais estranha que se pode ter, e que Lacan chamou de desser: ser capaz de pensar, sentir e viver de um jeito totalmente diferente que até agora se pensou, sentiu e viveu. Em termos semipoéticos (e isso explica porque muitas experiências possuem uma capacidade semelhante a uma análise) poderíamos dizer que uma análise é bem sucedida quando somos estrangeiros em nós mesmos.

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.