Três poemas de Anna Akhmatova

Três poemas de Anna Akhmatova

Rafael Frate traduz direto do russo três poemas da escritora Anna Akhmatova. Exclusivo no Estado da Arte.

Estado da Arte

06 Maio 2018 | 08h00

Monumento em homenagem à escritora em São Petersburgo.

 

À noite.

 

A música tocava no quintal

com aquela impronunciável agonia.

Frescas, cheiravam forte a maresia,

as ostras sobre o gelo vesperal.

Ele disse: “Sou só um amigo fiel.”

e então tocou-me as dobras do vestido.

Quão longe de um abraço tinha sido

o toque dessas mãos assim ao léu.

Assim olham-se os pássaros ou gatos,

Assim veem-se as esbeltas amazonas…

O riso de seus olhos vinha à tona,

sob o ouro de suas pálpebras pacato.

E dos violinos tristes vem a voz

cantando pela névoa que se adensa:

“Dá graças aos céus pela recompensa –

finalmente com o amado estás a sós.”

(1913)

***

 Não sou mais dos sorrisos uma escrava.

O vento congelante aos lábios pune. 

Uma esperança a menos me restava,

uma canção a mais virá a lume.

  E esta breve canção sem que eu queira

entrego a todo riso e humilhação,

em nome dessa dor não passageira

do silêncio do amor no coração. 

(Abril, 1915 Tsarskoe Selo)

***

Vinte e um, fim de noite, segunda,

traços tênues na bruma em torpor.

Mais uma alma qualquer vagabunda

escreveu que no mundo há amor.

  E de tédio ou por indolência,

todos creram e vivem assim:

ansiosos, temendo a ausência,

canções cantam de amor até o fim.

  Mas para alguns se revela o segredo,

e o silêncio em seus peitos deitou…

Eu o toquei sem vontade nem medo,

desde então este mal me tomou.

 

Tradução de Rafael Frate, mestre em Língua e Literatura Russa pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é doutorando em Letras Clássicas na na mesma universidade.