Trama das sutilezas: figurinos e história da moda em ‘Trama Fantasma’

Trama das sutilezas: figurinos e história da moda em ‘Trama Fantasma’

Laura Ferrazza analisa 'Trama Fantasma', de Paul Thomas Anderson, e as conexões do filme com o mundo da moda e da alta-costura da Inglaterra dos anos 1950.

Estado da Arte

24 Março 2018 | 18h52

por Laura Ferrazza

Trama Fantasma é um filme sem alarde, que no entanto merece ser alardeado. Vencedor do Oscar e do BAFTA 2018 de melhor figurino, a trama ambientada em Londres de meados da década de 1950 oferece ao espectador uma experiência de imersão num universo ficcional com ambiência histórica e constrói uma simbiose entre roteiro e visualidade com elegância e maestria dignas de uma fina renda holandesa. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um estilista inglês fictício que produz alta moda para a sociedade aristocrática inglesa e de outros países europeus. Inspirado livremente em alguns estilistas reais, o diretor Paul Thomas Anderson, juntamente com toda equipe de produção e o elenco, conseguem criar um retrato bastante verossímil da produção de moda de luxo da época.

O objetivo de meu texto hoje é refletir como essa história de tensões veladas é urdida pelos aspectos visuais da produção, principalmente os figurinos. O mundo da alta moda em sua era de ouro é o pano de fundo perfeito para uma trama de dissimuladas e potentes emoções. Esse universo de artes manuais e complexas, de que hoje restam poucos vestígios, é perfeitamente consonante com a personalidade de Reynolds Woodcock e com o mundo que cria em torno de si: um cosmos de aparências polidas escondendo sentimentos conflitivos e perigosos. Sua dedicação extrema ao trabalho implica em uma certa ordem de coisas e em manias precisas. Não tolera ser interrompido quando está trabalhando, detesta ruídos no café da manhã; em seus mínimos aspectos, sua vida parece seguir uma cadência rígida. Esse mundo rigorosamente ordenado perturba-se com a chegada da personagem feminina principal, a garçonete cujo nome é, significativamente, Alma (Vicky Krieps). As escolhas do diretor estabelecem uma distância fascinante entre a atmosfera de luxo e de sonho da Casa Woodcock e nossa contemporaneidade, em que domina uma relação muito mais mundana com o vestir.

Afinal, porque a produção de alta moda na década de 50 presta-se tão plenamente para retratar o comportamento de uma mente obsessiva e perfeccionista? Como era a moda desse período e que subsídios ela forneceu para a construção do impressionante personagem de Day-Lewis? A moda dessa época era feita para provocar os sentidos e fazer sonhar. O mundo acabara de sair de uma guerra devastadora; logo uma das funções sociais da moda nesse era levantar os ânimos e estimular o consumo, para que a indústria têxtil e as casas de moda voltassem a ser lucrativas.

Na metade da década de 1950 a silhueta criada por Christian Dior em 1947, o famoso “New Look”, reinou absoluta, dominando a produção de vestimentas. Essa silhueta feminina era composta por ombros delicados e pequenos, cinturas minúsculas conseguidas com a ajuda de roupas de baixo especiais e saias volumosas que iam até a metade da barriga da perna. Uma variação substituía a saia rodada por outra justíssima, com uma fenda atrás para possibilitar o movimento. As casas de moda ganharam impulso e visibilidade, funcionando em regime de atelier, como bem mostra o filme. Os estilistas apresentavam, em geral, duas coleções anuais (outono/inverno e primavera/verão) e os desfiles não eram superproduções como hoje: aconteciam muitas vezes dentro da própria casa, com a presença das clientes preferenciais e da imprensa especializada. A confecção de peças de roupa de alta moda acontecia sob encomenda e sob medida, utilizando técnicas manuais de modelagem, costura e bordado. Ela servia de inspiração para a nascente produção industrial de roupas em grande escala, mas era justamente sua exclusividade e sua forma particular de consecução que garantiam seu status.

Para construir o personagem de um estilista de alta moda dos anos 50, seu temperamento e seu estilo, tanto o diretor como o ator Daniel Day-Lewis tiveram de voltar-se em alguma medida para os estilistas que existiram nesse contexto histórico. A ideia, é claro, não era emular nenhum costureiro em especial, mas buscar subsídios que também servissem ao figurinista Mark Bridges – que teve o grande desafio de dar forma ao universo estético de Reynolds Woodcock. Uma das referências parece ter sido o designer britânico Charles James. Ele ficou famoso nos EUA, onde se estabeleceu e vestiu algumas das mais famosas estrelas do cinema americano da época. Sua dedicação completa ao trabalho originou roupas que, por sua complexidade de execução, ajudaram a elevar a moda à categoria de arte. Sua genialidade no design era combinada com um temperamento difícil, com traços perfeccionistas; talvez exatamente pelo excesso de zelo artístico, mostrou-se pouco prático na gestão de seu negócio, que acabou falindo.

Outra fonte de inspiração referida tanto por Thomas Anderson como por Lewis foi Cristóbal Balenciaga. Era dono de uma personalidade esquiva e silenciosa, mais próxima à de Woodcock.  Ele levou uma vida bastante reclusa, completamente consumido pelo seu trabalho. Uma silhueta específica foi pensada por ele para a mulher: ombros mais largos, peças descoladas do corpo e formas arquiteturais. Essas características fizeram com que ficasse conhecido como o mestre dos volumes. Seu comportamento pode ser descrito como metódico, perfeccionista e inflexível – outro ponto em comum com o personagem de Trama Fantasma. Tal como Balenciaga, o personagem do filme também se rodeia de patronos aristocratas e trabalha para famílias europeias endinheiradas. Em 1960, Balenciaga desenhou o vestido de noiva de Fabiola de Mora y Aragón, futura rainha consorte da Bélgica. No filme, também Woodcock faz um vestido de noiva para a família real belga. Balenciaga foi um mestre dos trajes de alfaiataria refinados que delineavam os contornos do corpo. Ele dominava bem todas as facetas da alta-costura; para ele, tecido, cor, corte, construção e acabamento tinham de fundir-se perfeitamente. Desenhou roupas elegantes, muitas vezes dramáticas, nas quais uma construção complicada produzia uma aparência de simplicidade. Nesse ponto, Daniel Day-Lewis, que é conhecido por mergulhar profundamente no universo de seus personagens, fez uma interessante experiência. Para construir seu Reynolds Woodcock, passou meses como assistente do figurinista Marc Happel do New York City Ballet. Também pesquisou imagens de trajes criados por Balenciaga. Eis como o ator descreve seu estudo sobre certo traje criado pelo estilista: “Era muito simples. Ou pelo menos parecia muito simples até eu tentar copiá-lo e depois ter percebido, meu Deus, isto é inacreditavelmente difícil. Não há nada mais belo em todas as artes do que uma coisa que parece simples.” (Esse trecho foi retirado de uma entrevista concedida pelo ator à W Magazine).

Imaginem o desafio enfrentado pelo figurinista Mark Bridges: além de produzir um figurino de época para um filme cujo pano de fundo é o ambiente da alta moda inglesa da década de 50, teve de dar vida às criações de um estilista imaginário, mas com uma personalidade única, cujos arroubos excêntricos são a alma da trama. Na construção do figurino, podemos perceber o intenso estudo e a dedicação aos detalhes na tarefa de conceber uma casa de moda que, embora fictícia, poderia perfeitamente ter existido naquele contexto. Segundo declarações de Bridges: “Muito da nossa pesquisa implicou conhecer a fundo o que acontecia a nível cultural em Londres, nessa altura, saber quem eram os designers, o que é que faziam, quem eram os seus clientes e, nesse mundo, onde se encaixaria Reynolds”. O resultado foi a criação de mais de cinquenta peças originais pelo departamento de figurino de Trama Fantasma, realizadas em menos de seis meses e em sua maioria feitas à mão.

Alguns detalhes da produção saltam aos olhos. Eles obtiveram um corte legítimo de uma renda de Flandres do século XVI. Relevante do ponto de visto histórico, esse fato ganhou uma dimensão dramática dentro do filme: uma menção à idade da renda foi incluída no roteiro, e o tecido foi realmente utilizado em um dos vestidos, exatamente como mostra o filme. Diz Bridges: “Quando se corta um pedaço de tecido como esse, nosso coração para, pois não há como voltar atrás.” Outro detalhe interessante é que duas das costureiras da equipe de Woodcock, as senhoras mais velhas, são interpretadas por costureiras reais que trabalharam em ateliers de alta moda nos anos 50. Elas forneceram vários detalhes sobre o funcionamento dos ateliers e de como as cenas deveriam ocorrer quando envolvessem o manuseio e a confecção das peças.

A escolha da modelagem das peças criadas por Reynolds, bem como suas cores e tecidos, não se basearam apenas no estudo histórico, mas eram discutidas com o diretor e o ator – pois deviam representar o gosto estético do personagem e as intensões dramáticas do enredo. O figurino conversa assim perfeitamente com a trama, não a ofusca, mas se mescla com ela. Em vários momentos tensos e importantes da narrativa, acompanhamos a feitura de um vestido, sua prova por uma cliente, o desfile dos modelos criados pelo protagonista; todos esses fatos dialogam com características psicológicas dos personagens e com as tensões do relacionamento humano tão bem exploradas pelo diretor.

Contudo, é preciso ressaltar que Trama Fantasma não é um filme sobre moda. É difícil encaixar o filme num único rótulo: alguns dirão que é sobre obsessão, relacionamentos abusivos, hipocrisia cotidiana. A multiplicidade de sentidos é alimentada pelo cuidadoso ambiente visual e sonoro, e pelas interpretações que vemos desfilar na tela. O diretor não escolheu ao acaso a época, nem o ambiente; dedicou muito da produção em deixá-los em consonância com a história e as características de seus personagens. Anderson usou também alguns recursos técnicos interessantes e hoje raros. Fez um filme como não se vê mais no cinema americano, com espaço para os silêncios, lacunas em que germinam a ambiguidade e a reflexão. A estética do filme dialoga com a história e o ar antigo é reforçado pela fotografia em 35 mm, e não digital, que provoca um prazer estético nostálgico.

Enfim, Trama Fantasma não é apenas um filme sobre um costureiro genial de temperamento difícil, mas também sobre sua relação com as mulheres, sendo que está cercado por elas. Em certa medida as mulheres dão sentido a sua vida. Ele escolhe vesti-las, e decide como fará isso, mas, ainda assim, suas personalidades não são completamente domadas pelo traje. Na forma um tanto ácida como a trama nos apresenta os comportamentos humanos, cujas arestas ferozes são dissolvidas pela beleza da moda, podemos notar um certo cinismo adorável. Talvez esse seja um filme para poucos, como a alta moda era nos anos 50. Quem sabe tudo nele soe um pouco fora de moda, mas de alguma maneira isso o torna atemporal. No mundo dos alardes, das histórias de moral evidente e às vezes maçantes, Trama Fantasma é contido e discreto. Tudo nele acontece sem estrondo, sem o tempero de algum humor forçado. Pesado e clássico, ele nos presenteia com o sonho pungente da nostalgia.

Laura Ferrazza é doutora doutora em História da Arte pela Sorbonne/PUCRS e pesquisadora do PPG de História da UFRGS