Todo paraíso precisa de um inferno

Todo paraíso precisa de um inferno

Estado da Arte

14 Abril 2017 | 08h00

Por Willian Silveira

Em tempos de Donald Trump e Nigel Farage, a identidade nacional retoma um protagonismo que há muito parecia superado. Na visão de boa parte dos ingleses e norte-americanos, o último esteio para a segurança e para a prosperidade passa longe dos projetos de integração e das políticas públicas dos últimos tempos. Para o  pragmatismo anglo-saxão, a falência de uma ideia já é uma resposta. Isso explica o motivo de tantas fichas apostadas em um mesmo páreo essencialmente e excessivamente Romântico. Exatamente por conta dessa tendência, Paraíso prontamente desperta a atenção.


Vencedor de um Leão de Ouro no Festival de Veneza mas ignorado pelo Oscar, Paraíso é o mais recente trabalho do diretor soviético Andrey Konchalovskiy. Companheiro de outro Andrei, Tarkovsky, durante os primeiros filmes, Konchalovskiy tratou de borrar suas orígens aristocráticas ao optar pelo sobrenome materno. A ruptura com a linhagem comunista o auxiliaria, anos mais tarde, a conseguir passagem em Hollywood, durante a década de 80. Em território americano, os produtores buscavam por um novo Roman Polanski, de cenas fortes, arrojadas e originais, mas o filho da revolução entregava obras ora irregulares, como Os Amantes de Maria (1984), ora aleatórias, como Tango e Cash (1989). Após realizar o sonho de filmar O Quebra-Nozes (2010), o fracasso da adaptação de um dos mais famosos balés de Tchaikovsky parecia decretar o fim da carreira comercial do diretor. Contudo um hiato de quatro anos e um título que divide opiniões, O Carteiro das Noites Brancas (2014), serviram para colocar Konchalovskiy na mira dos cinemas alternativos.

Cena de Paraíso.

Cena de Paraíso.

Paraíso segue na esteira dessa reinvenção autoral. O filme se passa durante a ocupação nazista na França, em 1942, e trata de articular a aristocrata russa Olga (Julia Vysotskaya), o pai de família Jules (Philippe Duquesne) e o funcionário da SS Helmut (Christian Clauss). Acusada de esconder crianças judias, Olga cai nas mãos do francês Jules, com quem mantém tratativas escusas. Posteriormente, levada a um campo de concentração, ela se depara com Helmut, um conhecido que alimentara um affair jamais retribuído pela jovem russa. A História, em sua ironia infinita, trata de os colocar em novas posições. Por trás disso, o projeto de superioridade da raça ariana dá sinais de desgaste e Helmut, não por acaso admirador silencioso de Tchekhov, rompe aos poucos com o véu de convicção adotado pelos entusiastas do Terceiro Reich.

Intercalado à trama principal, Konchalovskiy monta uma espécie de juízo final dissimulado de confissão para os protagonistas. Normalmente, criticado pelos rompantes religiosos, o soviético desarma o espectador viciado na realidade simples e crua. Por meio dessas inserções, Olga, Jules e Helmut não apenas dão tom íntimo à narrativa fria da História, como demonstram a natureza complexa das decisões tomadas em momentos de medo e dúvida. Olga protegia crianças; Jules era um pai carinhoso; Helmut queria o melhor para o seu país. O que deu errado? O que nos mantém desejosos desse espaço de harmonia plena especulado desde a crença de Abraão? Independente da resposta, algo parece claro: todo paraíso precisa de um inferno – e essa barganha não podemos aceitar.

Sentado de costas à janela que se estilhaça com o bombardeio dos Aliados, Helmut não sofre senão com os estrondos da própria consciência. Percebe ter  estado errado ainda quando fez o certo, pois a moralidade não é uma obra racional, como gostaria Kant, e nós somos seres especialmente imperfeitos. Em um mundo desestruturado, a moral confunde-se com o próprio mundo. Figuras como Hitler, Himmler e Eichmann não surpreenderam por serem personalidades extraordinárias, nos lembra Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém (1963), mas pelo resultado alcançado por homens ordinários quando empenhados em disseminar ideias equivocadas.

Filmado em preto e branco, combinando 35 e 16 milímetros em rara projeção 4:3, Paraíso é o diálogo de Konchalovksy com uma tradição que remonta ao compatriota Ivan Karamazov, personagem de Dostoiévski, em Irmão Karamazov. Esteticamente impactante, o filme perpassa a origem do mal com a sinceridade de quem não tem uma resposta pronta, mas conta com a serenidade para apontar que a desesperança não é uma solução. Mesmo em tempos confusos e sombrios, é possível enxergar através das fendas. Basta olhar. É preciso não desistir de olhar. Basta olhar com atenção.

Willian Silveira é editor da Revista Sétima e membro da Associação Brasileira de Críticas de Cinema.