Thomas Bernhard e a arte de matar o teatro (ou: Afinal, o que os atores querem do teatro?)

 Thomas Bernhard e a arte de matar o teatro (ou: Afinal, o que os atores querem do teatro?)

Apesar de seu aparente 'ódio ao teatro', a dramaturgia está intrinsecamente ligada à narrativa e à construção de personagens de Bernhard.

Estado da Arte

29 Março 2018 | 13h00

por Caetano Vilela

. . . e sei porque não vou mais ao teatro; desprezo o teatro, eu detesto os atores, o teatro é apenas uma imensa e enganosa inconveniência, uma pérfida inconveniência.
(Thomas Bernhard É uma Comédia? É uma Tragédia?)

Um autor que escreveu apenas uma peça de teatro, a qual só podia ser encenada uma única vez, e naquele que, em sua opinião, era o melhor teatro do mundo, dirigida pelo, também em sua opinião, melhor diretor do mundo e representada apenas e tão somente pelos, em sua opinião, melhores atores do mundo, acomodou-se, ainda antes de abertas as cortinas da noite de estreia, no local mais apropriado da galeria, invisível ao público, posicionou seu fuzil automático, construído especialmente para esse fim pela firma Vetterli, e, abertas as cortinas, pôs-se a disparar um tiro mortal na cabeça de todo espectador que, em sua opinião, risse no momento errado. No final da apresentação, só restavam no teatro espectadores por ele alvejados, ou seja, mortos. Durante toda a encenação, os atores e o administrador do teatro não se deixaram perturbar um só instante pelo autor obstinado e pelos acontecimentos por ele provocados.

O título do curto texto acima é Um Autor Obstinado. É o último de uma sequência com mais dois textos (Impossível e Sentimento) no ‘mesmo nível’ que compõe o livro O imitador de Vozes. Thomas Bernhard não se incomodaria com um subtítulo para essa pequena trilogia haicai como: ‘Ódio ao Teatro’, mas talvez se incomodasse com a pergunta: “Afinal, o que os atores querem do teatro?”

Quando eu comecei a escrever neste espaço me propus a investigar como o teatro é abordado nos livros de ficção, romances, ópera, cinema e outros estilos que não sejam teatrais. E assim escrevi sobre a obra de Goethe, Tom Stoppard e Sándor Márai, mas com Bernhard é diferente. O teatro está intrinsecamente ligado à sua narrativa e construção de personagens. Em uma entrevista declarou: “Tudo é artificial nos meus livros, isto é, todos os personagens, acontecimentos, eventos acontecem em um palco, e o palco é completamente escuro. Na escuridão tudo fica claro.”

Na verdade, em todos os seus livros tudo é um grande monólogo, seus personagens são introspectivos e raciocinam sobre o cotidiano ou a alta cultura em uma velocidade vertiginosa que entorpece o leitor com inúmeras referências paralelas.

Tenho uma teoria sobre a natureza do fascínio que escritores como Bernhard ou Márai exercem sobre atores e dramaturgos: é o caráter memorialístico de sua obra. Seus personagens são invariavelmente um alter-ego do próprio autor e essa investigação da memória se constrói através de longos monólogos interiores sobre a decadência de uma sociedade desunida que nunca soube lidar com as diferenças econômicas e sociais.

Praticamente todas as suas obras (O Náufrago é uma das poucas exceções) têm como contexto os conflitos culturais e sociais não resolvidos no pós-guerra pelas Potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e os países ocupados por essas forças. A Áustria, como a Alemanha, também foi separada depois da guerra, e esse trauma é um elemento indissociável da sua criação, seja nos diários autobiográficos de sua infância e adolescência, lançados separadamente em cinco partes e compilados nos anos 80 no livro Origem, ou no seu segundo romance Perturbação (1967), onde o narrador é o filho de um médico que peregrina por várias aldeias com o seu pai visitando pacientes até se deparar, em uma região montanhosa da Áustria, com um príncipe (alter-ego) mentalmente perturbado que destrói em um longo monólogo (quase dois terços da obra) todo o status quo da sociedade austríaca.

Assim como o Príncipe Saurau (Perturbação), Reger (Antigos Mestres), o narrador “sentado em sua ‘bergère’” (Árvores Abatidas) e Franz-Josef Murau (Extinção) são alguns dos personagens ‘bernhardianos’ que representam uma alegoria doente do seu próprio país.

Trilogia das Artes

Apenas no ano passado foi publicada uma peça de teatro de Thomas Bernhard no Brasil: a Editora Perspectiva editou O Fazedor de Teatro junto com textos analíticos sobre a obra do autor. Com essa ausência de publicações teatrais, resta aos atores e diretores cênicos, interessados em levar para o palco o ácido palavrório do austríaco, parte da sua obra de ficção, romances e autobiografia traduzidas, algumas já esgotadas e sem previsão de reedição.

Oito entre dez artistas de teatro sonham em adaptar para os palcos Árvores Abatidas, continuação de O Náufrago que faz parte de uma ‘Trilogia das Artes’ encerrando com Alte Meister, nunca lançado no Brasil mas que pode ser importado em edição lusa com o título Antigos Mestres.

Árvores Abatidas traz um narrador asperamente mal-humorado que expõe a estupidez e a decadência da classe artística austríaca em um ‘jantar artístico’ no qual paira o peso do suicídio de uma mulher. Recentemente, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo trouxe uma produção polonesa da obra que despertou uma romaria de artistas de todos os meios; os ingressos esgotaram em poucas horas. Não seria leviano afirmar que quem teve forças para suportar as 4 horas da montagem acabou aplaudindo seu próprio funeral.

Já foi divulgado que São Paulo, pelo menos, terá mais duas produções baseadas nos textos de Bernhard neste ano. Em processo de captação de verba, O Náufrago já tem adaptação pronta e será dirigida por William Pereira; Extinção, o romance que superou Joyce no quesito ‘maior parágrafo já escrito’ (são dois capítulos que dividem em dois longos parágrafos o monólogo interior do personagem Franz-Josef Murau), será encenado e interpretado pela ‘minimalista’ Denise Stoklos. Como ela vai lidar com a ferocidade hiperbólica de Thomas Bernhard já promete ser o desafio teatral do ano.

Eu desprezava aqueles que concediam os prêmios, mas não me recusava seriamente a receber os prêmios em si. Tudo aquilo era repugnante, mas o que me repugnava ao máximo era minha própria pessoa. Eu odiava as cerimônias, mas participava delas; odiava os outorgantes, mas aceitava suas somas em dinheiro. Hoje, não consigo mais fazer isso. Até os quarenta, penso comigo, vá lá, mas depois?

O texto acima é um trecho do livro Meus Prêmios, compilação de discursos e textos de (des)agradecimentos aos prêmios oferecidos a Thomas Bernhard. Ele não se incomodaria se algum artista de teatro se apropriasse deste trecho em um discurso de agradecimento em alguma festa de premiação da classe. Mas talvez se incomodasse com a pergunta: “Afinal, o que os atores querem do teatro?”

Caetano Vilela é encenador e iluminador.

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