Shepard, o pastor da América

Shepard, o pastor da América

A primeira vista pode parecer oportunismo ou fora de contexto, dentro da sua trajetória, que Sam Shepard tenha escolhido a tragédia de Sófocles para escrever uma peça, mas é exatamente o caráter judicial do teatro grego que está em jogo.

Estado da Arte

02 Agosto 2017 | 15h03

Sam Shepard em “Cinzas do Paraíso” (1978), de Terrence Malick.

Por Caetano Vilela

O que você está fazendo com Sam Shepard?, indagou.

“Sam Shepard?”, eu disse. “Oh, não, o nome desse cara é Slim.”

‘Querida, você não sabe quem ele é?” (…) “Ele é o maior dramaturgo off-Broadway. Já foi encenado no Lincoln Center. Já ganhou cinco Obies!”

“(…) Bem isso para mim não quer dizer nada.”

Voltei para a mesa e olhei bem para ele. “O seu nome é Sam?”, perguntei.

“Oh, pois é, é sim”, disse lentamente como W.C.Fields. Mas nisso chegou a sobremesa, um sundae de baunilha com calda de chocolate.

“É um bom nome, Sam”, falei. “Serve.”

Ele disse: “Tome o seu sorvete, Patti Lee”.

Só GarotosPatti Smith 

 

Sam Shepard foi um ator assombrosamente lindo, uma beleza máscula e nada vulgar se comparada ao apolíneo Paul Newman, que já encantava homens e mulheres com uma carreira cinematográfica lançada dez anos antes com um, às vezes dois filmes por ano. Não fez muitos filmes, tampouco grandes filmes como ator, se levarmos em conta toda a sua carreira. Na grande maioria deles era coadjuvante, mas é impossível esquecer aquele rosto. Obviamente, Cinzas do Paraíso, dirigido por Terrence Malick (quando ainda não era um pastiche dele mesmo), é um grande filme e abriu muitas portas para Shepard.

Mas é no teatro que ele consolida sua carreira como dramaturgo, ganhando respeito no cinema como roteirista. E roteirista cult! Ou alguém acha que Michelangelo Antonioni (em Zabriskie Point) e Win Wenders (em Paris, Texas e Estrela Solitária) o chamaram por ser ‘apenas um rosto bonitinho’?

O mais surpreendente da carreira de Shepard é que ele desponta como co-autor em uma produção off-Broadway de uma peça onde todos os atores interpretavam esquetes sobre sexo (nus!) em pleno anos 60 (para ser mais exato em 1969; fiquem à vontade para as piadas), trata-se de Oh! Calcutta, aliás primeira peça dele que assisti em produção nacional nos anos 80, uma peça fora da curva da sua extensa lista de textos que dissecaram – literalmente – a tradição, família e propriedade de uma América desprezada e esquecida.

Foram peças como Criança Enterrada, Oeste Verdadeiro, Louco de Amor, Icarus’s Mother, Cowboys (não confundir com a fraca Cowboy Mouth, escrita em parceria com Patti Smith, sua namorada da época) e mais 50 textos escritos de 1964 até 2013 que marcaram Sam Shepard definitivamente como um homem de teatro. Seu último texto é A Particle of Dread, um thriller moderno sobre a tragédia de Édipo.

O crítico literário e ensaísta Edward Said filtrou uma tese de Adorno e teve publicado postumamente Estilo Tardio, uma série de artigos, anotações e estudos sobre gênios do quilate de Beethoven, Beckett, Jean Genet, Strauss, Thomas Mann, etc… que na maturidade artística, em vez de se acomodarem, radicalizam suas obras criando uma fratura para despir a arte de sua aparência artística. A primeira vista pode parecer oportunismo ou fora de contexto, dentro da sua trajetória, que Sam Shepard tenha escolhido a tragédia de Sófocles para escrever uma peça, mas é exatamente o caráter judicial do teatro grego que está em jogo.

Para Shepard não interessava mais simplesmente expor as cicatrizes das relações humanas, ele estava interessado em que a arte e a cultura de uma sociedade passassem por uma “transformação”, segundo suas notas no texto para montagem. Talvez A Particle of Dread fosse a primeira de uma série de peças do seu estilo tardio não fosse ele sofrer ironicamente de uma doença neurodegenerativa que o impedia, dentre outras coisas, de raciocinar.

Shepard não costuma ser esquecido em São Paulo. A companhia teatral Cemitério de Automóveis encenou com sucesso no ano passado Criança Enterrada, com uma elogiada atuação de Paulo César Pereio, e de abril a junho deste ano montou Oeste Verdadeiro (em que tive o prazer de trabalhar como iluminador), ambos sob a direção de Mário Bortolotto — que acertou a mão novamente — e que tem na dupla explosiva formada por Carcarah e Sergio Guizé (indicado como melhor ator ao prêmio Shell do primeiro semestre) os irmãos losers, filhos de um sistema falido que tanto pode ser no deserto americano ou no cerrado brasileiro. Torçam para que volte ao cartaz, Sam Shepard não merece ser esquecido.

Caetano Vilela é encenador e iluminador