Sexo, perversão e Donald Trump

Sexo, perversão e Donald Trump

Estado da Arte

31 Outubro 2016 | 10h30

por Felipe Massao Kuzuhara

Se você tirasse uma foto da corrida eleitoral americana hoje, veria o óbvio: Hillary Rodham Clinton deve se tornar a primeira mulher presidente do Estado Unidos em novembro deste ano. Dependendo das previsões, ela tem perto de 90% de chances de suceder Barack Obama na Casa Branca. Mas se essa mesma foto fosse tirada há um mês, você veria um cenário completamente diferente. Donald Trump parecia irresistível: sua popularidade estava em alta, tinha equilibrado a disputa eleitoral, e irritava aqueles que já conseguiam projetá-lo à frente de Clinton numa reta final – um cenário pavoroso para muitos, de consequências imprevisíveis. Como entender esse mês de reviravolta?

O candidato republicano Donald Trump: escândalos sexuais e ameaça às instituições americanas Foto: Reprodução

O candidato republicano Donald Trump: escândalos sexuais e ameaça às instituições americanas
Foto: Reprodução

A primeira razão foi o debate televisionado ao fim de setembro, quando Clinton finalmente conseguiu contrastar sua imagem de candidata segura e sóbria com a de seu oponente. Donald Trump mostrou claro despreparo sobre temas-chave como emprego, impostos, e relações internacionais. Uma segunda razão foi o vídeo divulgado pelo jornal The Washington Post, poucos dias após o debate, com uma gravação de Trump e um conhecido em conversa “para homens”.

Com a disputa presidencial nos Estados Unidos, Hillary e Trump parecem representar e amplificar o choque contemporâneo de valores e ideias: Hillary é a insider,  parte do establishment com longa carreira política,  representante da diversidade (por ser mulher) e da consciência sobre graves questões como o aquecimento global; Trump é o outsider, o não-político empresário (tendência verificada no Brasil, também), o cético ambiental e o porta-voz do trabalhador-operário branco, que se vê ignorado e excluído dos benefícios de um mundo mais globalizado e aberto.

É verdade que essa tensão talvez expresse uma tendência global – veja-se o caso do Brexit aqui na Inglaterra. Mas o fato é que algo específico aconteceu com Donald Trump no momento em que o vídeo com suas palavras obscenas e ofensivas às mulheres foi ao ar. Vale a pena, penso, visitar a Psicanálise e buscar uma contribuição sua para esclarecer o quadro que temos diante de nós.

Ao falarem sobre sexualidade, os psicanalistas franceses desenvolvem, desde Lacan, o conceito de après-coup. Essa noção tenta captar a ideia de que nosso desenvolvimento sexual não é linear, e sim marcado por momentos de ruptura, passado, presente e futuro passando a ter um significado radicalmente novo. A vida sexual de Donald Trump não mudou a partir do vídeo viralizado com seus comentários sobre mulheres nos quais dizia que “você sendo um celebridade… você faz aquilo que você tiver vontade (com as mulheres)” . Sem ruptura para ele, é verdade, mas acredito que todos nós que assistimos ao vídeo passamos por uma transformação. O meu ponto aqui é que o vídeo de Trump não mudou o que ele é. Mas alterou profundamente a maneira como o vemos.

Ao falar sobre fetichismo, Freud concebe uma divisão horizontal na mente, onde duas partes da personalidade coexistem sem aparentemente se comunicarem. Uma ficaria mais visível por ser aparentemente normal, a outra ficaria escondida atrás das aparências justamente por ser perversa. É na continuidade do nosso olhar ao assistirmos o vídeo que temos a chance de juntarmos o que seriam as duas partes divididas de Trump. No começo, sem perceber que estava sendo gravado, escutamos toda a sua capacidade predatória, e o que ele acha sobre mulheres e sexo. Ato contínuo, ao sair de um ônibus, vemos um outro Trump, de aparência bem-comportada em frente a uma mulher que o esperava.

Seu comitê de campanha tentou colar a mensagem de que o vídeo do ônibus nada mais é que aquilo que ele mostra literalmente: uma conversa inconsequente, gravada há anos, com um papo sexista típico de vestiário masculino após uma partida de futebol entre amigos. De fato, ao olharmos para o conteúdo em si, esse papo de banheiro seria relativamente inconsequente perto da periculosidade de algumas propostas de campanha que Trump tem anunciado, tais como construir um muro na fronteira entre México e Estados Unidos, incitar hostilidade contra muçulmanos americanos, e ignorar a ciência. No entanto o vídeo pode ser visto como um momento de ruptura, de quebra emblemática num contexto eleitoral. Seu conteúdo não muda; mas, na leitura psicanalítica do après coup, mudamos nós: muda o modo como reagimos a Trump.

O ponto central é que o vídeo sugere de maneira contudente que Trump age como um perverso. Além do que já escreveu Freud, há varias maneiras de se caracterizar perversão. Uma delas seria pelo prisma do sujeito que, sempre por detrás dos panos, é um especialista em achar pontos fracos no sistema, para depois burlar regras e explorar de maneira voraz e inescrupulosa toda uma situação. Mais que isso, o impulso para se tirar proveito seria algo clandestinamente irresistível, cheio de gozo, a qualquer momento em que uma brecha se oferece.

Para ser mais efetivo, o lado peverso de um sujeito tem de permanecer obscuro e longe do alcance de olhos atentos. Neste caso, o problema para a imagem de Trump é que o vídeo revela, conecta e alarma o espectador-eleitor. O resultado é que, desde o vídeo, fica extremamente difícil de se confiar nele como candidato à presidência, ou de se sentir seguro ao seu lado como pessoa, mesmo para muitos daqueles que o apoiavam até então. Mais que isso, a lógica hostil do “nós” (trabalhadores, excluídos, outsiders) contra “eles” (políticos, imigrantes, muçulmanos, globalização) acaba substituída em boa medida por uma questão de foro muito mais íntimo, e por isso mesmo mais prejudicial a Trump.

Com um perverso ao seu lado, você simplesmente entra em pânico por não saber quando e como uma brecha será achada e explorada. Bastar ver a reação de vários membros do Partido Republicano, que poderiam continuar a apoiar Trump ou permanecer calados se ele apenas se mostrasse incompetente e despreparado, mas que reagem de maneira pessoal – e por isso mesmo mais exaltada e sincera – contra a perspectiva de terem de lidar com quem não podem confiar. Seu vice-presidente responde ao vídeo como pai e marido. Várias figuras republicanas importantes falam publicamente em nojo, em comportamento doentio e na importância de protegerem esposas e filhas de tal predador. Sinal de que o debate sobre barreiras ao sonho americano foi substituído pela questão sobre uma falta de limites ou consciência moral.

Até então Trump podia se apresentar de maneira crível para muitos como o outsider bem-sucedido. Mas desde o vídeo, Trump perdeu fomalmente apoio político significante. Mais que isso, desde o vídeo, eventos presentes e passados ganham nova significação como se em après-coup: o que antes parecia ser uma acusação inócua por parte de uma ex-Miss Universo, Alicia Machado, toma ares de verdade vindo agora do que seria uma vítima e testemunha de um crime. Outras mulheres se juntam a esse coro contra abusos de cunho sexual. Nessa toada, não parece ser coincidência que Trump se vê ameaçado eleitoralmente até mesmo em estados que tradicionalmente apóiam o seu partido, como nos casos do Arizona ou do Texas.

Um caso recente de pedofilia tomou conta do debate na Inglaterra há alguns anos atrás. Jimmy Savile, famoso apresentador da BBC, dono de título honorífico concedido por sua rainha, e com um aparentemente respeitável trabalho de caridade voltado para crianças, foi de repente descoberto e acusado por várias vítimas de ser um molestador serial. Recém-falecido no momento em que esses abusos aparecem ao público, pouco se pode fazer efetivamente. Eis porque o foco passa a se voltar a uma série de questões: como Saville conseguiu fazer isso por tanto tempo sem ser descoberto? Alguém o acobertou? Seria a BBC conivente como organização e, por conta disso, co-responsável moral por esses casos de pedofilia?

Guardadas as proporções, algo semelhante pode ser levantado em relação ao Partido Republicano americano. Como explicar que tenha optado por lançar Trump, em vez de barrá-lo como seu candidato? Foram lenientes com Trump? Valeria a pena vencer com ele? O partido corre o risco de não só perder as eleições presidenciais como também seu atual controle majoritário sobre o Congresso. Certamente as eleições envolvem mais complexidade e outros fatores. Há ainda bastante incertezas também. No entanto, seja lá qual for o resultado, tanto Trump como o seu partido deverão sair menores do que quando eles entraram nesta disputa. Parodiando o que já se foi dito sobre o Brasil, “Triste Estados Unidos! Ó quão dessemelhante, estás e estou do nosso antigo estado!”

 

Felipe Massao Kuzuhara é economista, mestre em teoria psicanalítica e doutorando pelo Birkbeck College (Londres) em Psicologia Social.