Se é que existe literatura “nacional”

Se é que existe literatura “nacional”

É forte a tentação de pensar que, como algo está na origem, sua presença afetaria tudo o que veio depois, como um traço congênito. Sem avaliar essa presunção, é fácil observar que, em programas literários subsequentes, o argumento de José de Alencar foi repetido: a literatura que se atacava não estaria à altura do Brasil. Os modernistas queriam “deseuropeizar” o português brasileiro e criar uma literatura “realmente brasileira”. Os concretistas queriam ir ainda mais longe num projeto modernizador. E cada ruptura, é claro, se pretendia uma nova origem.

Estado da Arte

17 Julho 2017 | 11h14

Por Pedro Sette-Câmara 

Na coluna anterior, mencionei a polêmica da Confederação dos Tamoios, tão conhecida entre os estudiosos quanto desconhecida do grande público, num dos contrastes mais interessantes da cultura literária brasileira. Ainda mais interessante porque, no caso do Brasil, essa polêmica está na origem do que se convenciona chamar de “literatura nacional”, e em dois sentidos da palavra: político, heroico, até ufanista, e no sentido mais sociológico dado por Antonio Candido na sua Formação da Literatura Brasileira. Isto é, a polêmica surgiu quando finalmente havia no Brasil um conjunto de autores e de leitores expressivo o suficiente para que se pudesse pensar em alguma autonomia. A partir daquele momento, os brasileiros estavam falando entre os brasileiros.

A Confederação dos Tamoios

Se hoje o Ministério da Cultura não está interessado em apoiar obras com pretensões nacionalistas, o patronato do imperador Pedro II estava repleto delas. O monarca apostara alto no poema épico A Confederação dos Tamoios, hoje lido apenas pelos estudiosos da polêmica. Aliás, é difícil encontrar o texto isolado, fora do contexto dessa polêmica.

O épico foi escrito por Gonçalves de Magalhães, que, ainda segundo o mesmo Candido na Formação da Literatura Brasileira, foi em sua época a figura mais célebre da literatura brasileira. A expectativa do poema era enorme; a chegada do poeta (e diplomata) da Europa, com o poema, foi noticiada nos jornais. O imperador mandou fazer uma bela edição, e ficou como que decretado que, naquele ano de 1856, a literatura nacional do jovem Brasil independente estava fundada.

Ou não exatamente. José de Alencar, com 26 anos, aquele José de Alencar cujos romances lemos na escola, era diretor de redação do Diário do Rio de Janeiro. Também era filho do senador Alencar, em cuja casa foi tramado o golpe da maioridade, que levou Pedro II ao trono, o que dá à polêmica da fundação da literatura nacional os ares de mexericos de uma elite.

Prenunciando os pseudônimos da internet, José de Alencar, que até então tinha publicado apenas crônicas e o breve folhetim Cinco Minutos, começou a publicar uma série de cartas anônimas, escritas por ele mesmo, enumerando os vários defeitos do poema A Confederação dos Tamoios. O maior desses defeitos seria não estar à altura da beleza do território, da nossa Lua, do nosso Sol — ou talvez fosse a metrificação frouxa. Fato é que um anônimo, que assinava apenas como Ig., estava dizendo que o poema laureado pelo imperador era amadorístico e sem inspiração.

Primeiro veio a resposta de Manuel de Araújo Porto Alegre, com o pseudônimo de “Um Amigo do Poeta”, e, depois, do próprio Pedro II, “Outro Amigo do Poeta”. Pedro II, aliás, ao ler os argumentos de Ig., pediu o socorro de pessoas como Gonçalves Dias — este, por exemplo, corroborou inequivocamente o julgamento fulminante do anônimo que publicava no Diário do Rio de Janeiro.

Produtos da Polêmica

Para a posteridade, este é o momento em que termina a nota de rodapé sobre Gonçalves de Magalhães, e sua figura literária desponta para o vácuo. Por outro lado, nas histórias literárias, a de José de Alencar domina as duas décadas seguintes.

Um dos objetos da polêmica da Confederação dos Tamoios tinha sido a representação heroica dos índios do passado. Ora, em 1 de janeiro de 1857, Alencar inicia a publicação, em folhetim, daquele que viria a ser o grande romance indianista do Brasil: O Guarani, que viraria a ópera de Carlos Gomes, que tem um trechinho tocado na abertura de A Voz do Brasil; e também, entre outras adaptações, uma série da TV Manchete de 1991 em que Angélica fazia a loura Ceci, e, em 1996, um filme em que Márcio Garcia, devidamente pintado de laranja, fazia o índio Peri.

Terá sido O Guarani a “resposta” definitiva a Gonçalves de Magalhães? Em certos sentidos não; em outros, talvez. Não porque Alencar escreveu (mas não publicou) um poema épico, inconcluso, chamado Filhos de Tupã, que permitiria colocar poema contra poema. Talvez porque, se a polêmica interessou apenas pela polêmica, O Guarani foi um dos primeiros grandes sucessos comerciais do Brasil. Publicado entre 1 de janeiro e fins de maio de 1857 no Diário do Rio de Janeiro, cada novo capítulo era aguardado como se fosse o novo episódio de Game of Thrones, e lido em voz alta nas ruas para as pequenas multidões que se acercavam para ouvir. (Aliás, o hábito da leitura em voz alta ajuda a explicar o estilo declamatório de Alencar.)

De minha parte, digo: quando li O Guarani pela primeira vez, cheguei a perder a estação do metrô em que ia saltar, de tão absorvido que estava pelo suspense.

Peculiaridades de O Guarani

Se O Guarani está posicionado na origem e na “origem” da literatura brasileira, o romance, talvez muito brasileiramente, não deixa de ter muitas peculiaridades para um texto de fundação nacional.

Primeira: a ação se passa em 1614, quando o Brasil, oficialmente, era território espanhol, por causa da União Ibérica. A maior parte da trama acontece na casa de D. Antônio de Mariz, fidalgo português que rejeita a União e considera estar defendendo seu feudo português na América, embora não haja espanhol nenhum a questionar-lhe. O índio Peri idolatra Ceci, a loura filha de D. Antônio, e a associa à Virgem Maria. No final (spoiler alert), na famosa cena do dilúvio, em que só restariam os dois, não há qualquer sugestão de que um casal tenha se formado, ou mesmo sobrevivido: fica tudo em aberto. A única mistura de raças que poderia dar origem a um povo heroico está em Isabel, filha ilegítima de D. Antônio. (Iracema, o segundo romance indianista de Alencar, não confirma nenhuma visão positiva, sobretudo para os índios, da união entre índios e brancos.)

Em suma: o romance que ficou no lugar da fundação da literatura nacional a rigor se passa num território que sequer era português, e no qual um homem índio e uma mulher europeia têm uma relação não-sexual.

Voltemos à polêmica

É forte a tentação de pensar que, como algo está na origem, sua presença afetaria tudo o que veio depois, como um traço congênito. Sem avaliar essa presunção, é fácil observar que, em programas literários subsequentes, o argumento de José de Alencar foi repetido: a literatura que se atacava não estaria à altura do Brasil. Os modernistas queriam “deseuropeizar” o português brasileiro e criar uma literatura “realmente brasileira”. Os concretistas queriam ir ainda mais longe num projeto modernizador. E cada ruptura, é claro, se pretendia uma nova origem.

Alencar, modernistas, concretistas, eram todos forasteiros que atacavam o establishment literário em nome de algo que eles ainda iriam trazer. O futuro era sempre jogado contra o presente.

Daí, remetendo à coluna anterior, a “estranha originalidade” de Bruno Tolentino, que consistia em reconhecer que a origem já tinha sido dada; que não era necessário apelar para modernizações, mas sim reconhecer um desenvolvimento orgânico de uma literatura de língua portuguesa. Uma presunção que também apresenta seus problemas, claro, mas que muda completamente o quadro dos problemas a discutir.

Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ

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