Revolução Russa: O marxismo chega à Rússia e Lenin faz a Revolução

Revolução Russa: O marxismo chega à Rússia e Lenin faz a Revolução

Abrindo o especial do Estado da Arte sobre o centenário da Revolução Russa, confira este trecho do clássico "Rumo à Estação Finlândia", de Edmund Wilson.

Estado da Arte

18 Outubro 2017 | 08h52

O Estado da Arte dá início ao Especial 100 anos da Revolução Russa. Serão publicados textos clássicos para a compreensão desse evento que determinou os caminhos políticos do século XX, análises de especialistas e um podcast especial. Neste primeiro texto, Edmund Wilson, em seu clássico Rumo à Estação Finlândia, sintetiza a chegada das ideias marxistas na Rússia e o triunfo da revolução de Lenin. 

Por Edmund Wilson

O marxismo chegou à Rússia pela primeira vez ainda em 1868, quando foi publicada lá uma tradução de O capital, e começou a ganhar adeptos nos anos 1880, depois que o movimento terrorista culminou com o assassinato de Alexandre II. Porém, assim como os alemães haviam tornado o marxismo respeitável, acadêmico e parlamentar, na Rússia, tendo necessariamente que permanecer como um movimento clandestino, o marxismo tornou-se, em sua forma mais eficaz, estreito, concentrado, sombrio e cruel. Na Rússia, o primeiro problema dos radicais era livrar-se de uma aristocracia feudal que nem sequer queria ouvir falar de constituição e que excluía os liberais burgueses das instituições de ensino.

Vladimir Ulianov, cognominado Lenin, fazia parte de um setor das classes profissionais que havia sido duramente atingido nos anos 1880. Seu pai, diretor das escolas da província de Simbirsk, à margem do Volga, começara de baixo e, devido a sua carreira dedicada e honrada, ganhara um título de nobreza, durante o período das reformas educacionais inspiradas por Alexandre II; fora prematuramente removido de seu posto e vira todo o seu trabalho ser desfeito quando a reação de Alexandre III veio punir o assassinato de seu predecessor. O irmão mais velho de Lenin, que estudava na Universidade de São Petersburgo, envolveu-se numa conspiração que visava dar continuidade ao trabalho dos terroristas assassinando Alexandre III, porém foi preso pela polícia e enforcado. O velho Ulianov acabara de morrer de derrame, talvez em parte por desgosto, e Vladimir tornou-se o chefe da família. Tinha profunda admiração pela mãe, que caiu no ostracismo com a execução de seu filho; e esta sucessão de desastres na família fê-lo endurecer. Durante os primeiros anos de sua juventude, sua formação foi brutalmente interrompida. Por causa de uma manifestação estudantil na qual ele não tivera uma participação importante, foi expulso da Universidade de Kazan como suspeito, por ser irmão de um terrorista; e foi proibido de se formar, na Rússia ou no estrangeiro. Foi neste período de frustração que Vladimir leu Marx.

A brutalidade da autocracia czarista inevitavelmente desencadeava brutalidade por parte dos grupos que a combatiam; e o marxismo russo adquiriu algumas das características do movimento terrorista dos anos 1870. O grupo de revolucionários treinados e dedicados proposto por Lenin em Que fazer?, panfleto que publicou em 1902, que foi posteriormente concretizado por ele no Partido Bolchevique e no Partido Comunista, é um conceito que não se encontra em Marx, cujas atividades de organizador se limitaram à elaboração de programas e à presidência de assembleias da Liga de Comunistas e da Internacional de Trabalhadores. Lenin, tendo em vista a ignorância das massas russas analfabetas, foi obrigado a propor com franqueza que elas teriam de ser dirigidas por um núcleo de intelectuais revolucionários; e, tendo em vista a tendência normal da intelligentsia russa a falar muito e não fazer nada, teve que enfatizar que estes líderes burgueses do movimento proletário não deveriam ser pessoas capazes apenas de falar, nem mesmo de pensar, e sim pessoas que trabalhassem ativamente pelo Partido e que estivessem dispostas a assumir responsabilidades reais. As fontes da atividade de Lenin eram profundas, irresistíveis e instintivas. Sua motivação fundamental era provavelmente o ódio avassalador pelo sofrimento de que Gorki fala com tanta ênfase, combinado com uma paixão pelo combate que assumia uma forma curiosamente impessoal, fazendo-o considerar-se uma força histórica nua em conflito com outras forças do mesmo tipo. Disciplinou-se a tal ponto que sua emoção sempre alimentava sua convicção, e sua convicção sempre levava à ação. Este processo chegou ao clímax quando o regime czarista arrastou a Rússia para a prolongada devastação e matança que Lenin não chamava por outro nome que não o de Guerra Imperialista.

O fato de que o Governo Provisório de Kerenski desejava continuar a guerra e não parecia nem um pouco disposto a distribuir terras ou alimentos às massas famintas, portanto, por si só já teria sido quase o suficiente para fazer com que Lenin resolvesse derrubá-lo, mesmo sem a força impulsionadora messiânica do conceito marxista de história. Indivíduos como o menchevique Martov observavam, com razão, que Lenin estava deixando de lado o processo expressamente prescrito por Marx, e que antes era aceito pelo próprio Lenin, ao não esperar até que um estado “democrático” burguês fizesse a transição da autocracia czarista para o estado proletário socialista. Quando jovens russos perguntaram a Marx se seria possível passar, na Rússia das antigas comunas camponesas, diretamente para uma economia socialista sem atravessar todas as etapas da exploração capitalista em grande escala, Marx — embora tivesse antes aprovado a experiência da Comuna de Paris — afirmou que achava esta possibilidade muito duvidosa.

Mas Lenin, apesar de meter-se em tantas polêmicas infindáveis, não se preocupava muito com a teoria marxista: o que o interessava não eram as ideias, e sim os eventos de sua época, que ele observava atento para o surgimento de uma brecha, por menor que fosse, pela qual se tornasse possível a destruição do regime czarista. Quando, durante a guerra, surgiu o momento, Lenin viu como era frágil e impraticável, o Governo Provisório burguês, e substituiu-o por um novo tipo de governo baseado nos conselhos (sovietes) de trabalhadores, camponeses e soldados, os quais, assim que o czar perdeu o poder, haviam passado a assumir posições de autoridade, ainda que não oficiais, agora em 1917 tal como ocorrera em 1905. Mas embora Lenin não permanecesse fiel à letra de Marx, foi fiel a seu espírito apocalíptico; e sempre fora seu hábito primeiro agir e depois procurar em Marx e Engels os textos que legitimassem sua ação — coisa que, como já vimos, normalmente não é difícil.

Os objetivos finais de Lenin eram, naturalmente, de natureza humanitária, democrática e antiburocrática; mas a lógica da situação geral era forte demais para os objetivos de Lenin. Seu grupo treinado de revolucionários, o Partido, transformou-se numa máquina tirânica que perpetuou, na chefia do governo, a intolerância, a desonestidade, o sigilo, a implacabilidade para com os dissidentes políticos, que os bolcheviques haviam sido obrigados a aprender no tempo em que eram um “grupo clandestino perseguido. Ao invés de transformar a velha Rússia feudal numa sociedade sem classes, esse grupo estimulou a ascensão e o domínio de uma nova classe privilegiada dominante, que logo se pôs a explorar os trabalhadores de modo quase tão insensível quanto o faziam antes os industriais do regime czarista, e sujeitando-os a uma espionagem que provavelmente era pior do que a que havia nos tempos do czar. O que Lenin realizou, na verdade, foi uma espécie de revolução burguesa; de certo modo, a situação seguira o modelo previsto por Marx; só que não era esta, em absoluto, a intenção de Lenin. E Lenin morreu, depois de apenas seis anos no poder, na maior perplexidade e angústia, passado para trás por um de seus lugar-tenentes que sabia distribuir favores e não tinha quaisquer escrúpulos de enganar o público.

De início, sob a ditadura de Stalin, tentou-se seriamente elevar a economia soviética até o nível das nações capitalistas, para que o socialismo se tornasse uma realidade; mas quando, devido à inépcia mecânica e à incompetência administrativa dos russos, ficou claro que isso não estava dando certo, Stalin rapidamente enterrou os ideais leninistas, executou ou calou por outros meios todos aqueles que ainda estavam dispostos a defendê-los e consolidou a posição dos grupos de funcionários que estavam fazendo o possível no sentido de dar à Rússia a burguesia forte que lhe faltava, e que talvez tenha terminado dominando o próprio Stalin.

Enquanto isso, o curto-circuito do sistema capitalista que Karl Marx previra com tanta certeza havia de fato ocorrido na Alemanha, só que com resultados muito diferentes daqueles que ele esperava. Ao invés de os processos do capitalismo darem origem automaticamente a uma crise em que um proletariado reduzido à miséria se defrontasse com um pequeno grupo de capitalistas, nada mais tendo a fazer senão expropriar os expropriadores, um novo tipo de classe média, como na Rússia, emergiu da pequena burguesia, e não teve a menor dificuldade em recrutar membros ambiciosos do proletariado. Esse grupo conseguiu estabelecer um novo tipo de socialismo de Estado, no qual o governo planejava e liderava visando servir aos interesses da nova classe governante, sem chegar a assumir o controle das indústrias, porém eliminando os grandes capitalistas, se necessário, e fazendo com que a classe operária tivesse um padrão de vida mínimo para que não se tornasse seriamente recalcitrante.

(Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto)