Reinaldo, a Copa de 1982 e a ditadura militar

Reinaldo, a Copa de 1982 e a ditadura militar

Como uma mistura de moralismo, homofobia e a política da ditadura militar deixou o centroavante Reinaldo fora da Copa do Mundo de 1982.

Estado da Arte

13 Maio 2018 | 12h10

por Idelber Avelar

 

A história dos atritos entre o Atlético-MG e a ditadura militar começou em 1969, quando o ditador Emílio Garrastazu Médici exigiu a convocação de Dadá Maravilha, que na época atuava no Galo, para a Seleção Brasileira. João Saldanha, o João sem Medo, então técnico da Seleção e homem de conhecidas ligações com o Partido Comunista, retrucou com a célebre frase “o Presidente escala o ministério dele que eu escalo o meu time”. Essa declaração foi um dos estopins de sua demissão e substituição por Zagallo, figura bem mais dócil, obediente e antenada com o poder. Levando a equipe que Saldanha já havia armado, acrescida de mínimas modificações, como o recuo de Piazza para a zaga, Zagallo conquistou o tricampeonato de 1970 no México com Dadá no banco, sem atuar um minuto sequer. A vontade do ditador havia sido satisfeita.

Antes disso, no dia 03 de setembro de 1969, ainda dirigida por Saldanha, a Seleção Brasileira visitou Belo Horizonte e, completa, com Pelé, Tostão, Jaizinho, Gérson, Carlos Alberto e cia., enfrentou o Galo de Dadá, que atuou com a camisa da Seleção Mineira. O Galo vivia vacas magras e amargava o pentacampeonato estadual do Cruzeiro, que acabara de igualar o recorde atleticano de 1956 (depois, em 1983, o Galo estabeleceria outro recorde, o hexa, ainda não igualado na era profissional). A presença de Zé Carlos, Piazza e Tostão com a camisa canarinho reforçava o clima de guerra. Cheio de brios, o Galo venceu por 2 x 1, com gols de Amauri e Dario. Pelé descontou em escandaloso impedimento. Depois da comemoração do segundo gol, Dadá levantou a camisa da Seleção Mineira, deixando a multidão entrever o uniforme do Galo por baixo. A massa atleticana foi ao delírio e os militares não gostaram, nem do gesto, nem do resultado.

Nos anos 1970, antes da Democracia Corinthiana, os jogadores de futebol que ousavam se pronunciar sobre política ou mesmo demonstrar uma mínima consciência de classe eram perseguidos de forma implacável. Atenuada, essa proibição tácita se mantém até hoje. Na época, ela chegou a determinar o destino de carreiras inteiras. O craque Afonsinho, do Botafogo, homenageado numa canção de Gilberto Gil, foi um gênio da bola que não deixava nada a dever a Dirceu Lopes, Rivellino ou Gérson, mas teve sua participação na Seleção bloqueada como consequência de sua militância em favor dos direitos dos atletas. Reinaldo, o gênio da camisa 9 que encantou os atleticanos durante a década que vai de 1975 a 1985, também teve sua carreira marcada pela ditadura militar, além dos problemas com contusões, mais conhecidos.

Na atmosfera de intimidação e terror que caracterizou a ditadura, as corajosas declarações políticas de Reinaldo, e sua famosa comemoração com o punho direito erguido, em alusão aos Black Panthers, não demoraram a chamar a atenção dos poderosos. Para quem não o viu jogar, cabe a palavra de Romário, que não só idolatrou Reinaldo como ídolo, mas também chegou a dizer que o Rei foi um centroavante superior a ele, apesar de ser menos conhecido no exterior e ter menos conquistas. Eram características de Reinaldo a inteligência genial para antever a jogada, o absurdo talento para driblar de forma seca, dentro do espaço de um guardanapo, a batida fulminante com qualquer uma das pernas, o cabeceio certeiro, apesar da baixa estatura, o impressionante senso de colocação, a arrancada implacável e a concisão na genialidade. Reinaldo não era jogador de encadear cinco ou seis dribles em sequência. Era muito mais comum que driblasse dois ou três defensores com um único toque. Essa capacidade de entender o espaço do campo e a projeção dos corpos chegou ao paroxismo no famoso gol de placa contra o América-RN pelo Brasileirão de 1977, em que o Rei dribla toda a defesa do time potiguar com um giro do tronco, sem encostar na bola.

A partir do segundo semestre de 1977, Reinaldo passou a defender publicamente eleições diretas, a anistia e o fim da ditadura militar. Sob o título “Reinaldo, bom de bola e bom de cuca”, o jornal Movimento, ligado à oposição de esquerda à ditadura, estampava Reinaldo na capa da edição de 06 de março de 1978. Foi o suficiente para que o Almirante Heleno Nunes, Presidente da Confederação Brasileira de Desportos, que em janeiro de 1978 havia saudado Reinaldo como a grande revelação da Seleção,[i]declarasse que “Reinaldo não possui as condições físicas exigidas por uma competição de alto nível”.[ii]Ficou clara a manobra de Heleno Nunes, que tentava excluir Reinaldo da Seleção Brasileira na Copa de 1978, num momento em que um dos maiores centroavantes da história estava em seu auge.

Pela primeira vez desde Afonsinho, um craque de projeção nacional instalava na esfera pública o debate sobre os direitos de os jogadores se posicionarem sobre política. Reinaldo passou a receber centenas de cartas de solidariedade, o próprio jornal Movimento fez outra matéria denunciando a manobra e o técnico Cláudio Coutinho não teve como não bancar a ida do Rei à Copa da Argentina. Entre os militares, o grande medo era que, se Reinaldo marcasse um gol, ele repetisse o gesto Black Panther já conhecido nos gramados brasileiros. A Argentina vivia naquele momento uma ditadura militar sanguinária, que terminaria em 1983 com o saldo de mais de 20.000 mortos e desaparecidos. A Copa do Mundo era seu grande instrumento de propaganda naquele ano.

Quando ficou claro que não seria possível excluir da Seleção o jogador que havia chegado à absurda marca de 1,55 gol por jogo no Campeonato Brasileiro de 1977 (que se estendeu até março de 1978), o próprio Almirante Heleno Nunes e o diretor da CBD na época, André Richer, chefe da delegação brasileira na Copa, aconselharam-no a evitar o gesto político na comemoração dos gols. Ninguém menos que o ditador Ernesto Geisel se dirigiu a Reinaldo no Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul, com a frase “Vai jogar bola. Deixa que a política a gente faz”.

Na estreia, Reinaldo marcou o gol do Brasil no empate em 1 x 1 contra a Suécia e não se acovardou. Comemorou o tento com o seu gesto Black Panther, provocando enorme mal estar entre a chefia da delegação. Depois do jogo, Reinaldo recebeu um envelope em espanhol, vindo da Venezuela, com supostas informações sobre a Operação Condor, a colaboração entre as ditaduras sul-americanas para o assassinato e desaparecimento de ativistas de esquerda ou pró-democracia. Depois do empate em 0 x 0 com a Espanha, em que toda a equipe atuou mal, Reinaldo foi substituído por Roberto Dinamite. No auge da carreira, reconhecido em todo o país como um gênio da camisa 9, Reinaldo era tirado do time e nunca mais voltaria a iniciar uma partida de Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. Na decisão do terceiro lugar, em que o Brasil derrotou a Itália por 1 x 0, Reinaldo entrou no decorrer da partida, substituindo o ponta-direita Gil, e essa seria sua última participação em Copas do Mundo. Haveria outra chance em 1982, quando a Seleção Brasileira de Telê Santana encantou o mundo com uma equipe quase perfeita, na qual—muitos concordam—só faltava o Rei. Sua ausência naquela Copa, aliás, seria depois objeto de uma série de mistificações.

Reinaldo no jogo contra a Suécia na Copa do Mundo de 1978.

A não convocação de Reinaldo para a Copa de 1982 é um caso clássico de como certas  inverdades se firmam até serem repetidas como se fatos fossem. A ausência do Rei naquela Copa foi gritantemente sentida, dado o contraste entre o trombador Serginho Chulapa e o cintilante escrete de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Júnior, Éder e Luisinho. Se perguntados pela ausência de Reinaldo na Copa de 1982, nove entre dez espectadores de futebol daquela época responderiam hoje que Telê Santana não o levou porque ele estava contundido. A inverdade torna-se verossímil devido às frequentes contusões que o Rei, sim, sofreu ao longo da carreira. Mas é relevante desmontar esta inverdade, porque a ausência de Reinaldo na Copa da Espanha está relacionada com a política , mais especificamente com a homofobia, apesar de que Reinaldo é heterossexual.

É lamentável que o filho de Telê Santana, Renê, tenha se dedicado a disseminar a inverdade de que o Rei não foi convocado para a Copa de 1982 porque estava contundido. Numa entrevista dada a Jorge Kajuru no programa Esporte Interativo, em que diz coisas bem confusas como “se é que tinha [homossexual naquela época]”[iii], Renê Santana atribui a Reinaldo uma “vida boêmia”, o que é falso e, incrivelmente, afirma que o Rei não foi a Copa porque “estava contundido, estava há [sic] seis meses sem encostar numa bola”. Não sei o que ele terá ouvido de seu pai, mas a história não é bem essa.

A Seleção se despediu do Brasil no dia 27 de maio, goleando a Irlanda por 7 x 0 em Uberlândia. A última competição entre clubes antes da Copa foi o Campeonato Brasileiro de 1982, em que Reinaldo atuou em todas as partidas decisivas da segunda fase, na qual o Galo foi eliminado no chamado Grupo da Morte (ou Grupo do Povo), que incluía Corinthians, Flamengo e Internacional. Reinaldo jogou contra o Internacional no Beira-Rio em 28/02, o Flamengo no Maracanã em 07/03, o Corinthians no Mineirão em 10/03, o Flamengo no Mineirão em 14/03 e o Corinthians no Morumbi em 17/03. Renê Santana diz que seu pai não levou Reinaldo porque ele “estava há seis meses sem encostar numa bola”, mas a convocação para a Copa aconteceu em abril e o Rei participou de todas as partidas decisivas realizadas no mês de março.

A exclusão de Reinaldo, por motivos que nada têm a ver com contusões, havia começado a ser decidida antes. O ano de 1981 foi marcado pela polêmica acerca de quem seria o camisa 9 na Copa e ninguém discutia que o Rei era infinitamente superior aos outros cinco jogadores que estavam no páreo: Careca, Roberto Dinamite, Serginho Chulapa e, correndo por fora, Baltasar, do Grêmio, e o outro Roberto, do Sport Recife. Em 04 de setembro de 1981, Placar mostrava que todos os principais jogadores defendiam a presença de Reinaldo. Sócrates: “no meu time joga o Rei”. Júnior: “Reinaldo é o mais inteligente, o mais técnico e o mais perigoso”. Zico, com toda a sua autoridade, afirmou: “é lógico que eu me entroso mais com o Reinaldo”. Éder concordava: “todos têm suas virtudes. A diferença é que o Reinaldo é o Reinaldo”. Segundo a mesma matéria, Telê resistira às pressões para convocar Reinaldo por “restrições ao seu comportamento fora do campo”.

Qual seria esse “comportamento” de Reinaldo ao qual Telê tinha restrições? Em matéria de 22 de janeiro de 1982, Placar notava: “a partir dali [o segundo semestre de 1981], Telê passou a censurá-lo, ora pela amizade do jogador com homossexuais, ora por suas brigas com a namorada, ora por suas ligações com o Partido dos Trabalhadores”. Em suas próprias palavras, Telê Santana afirmou, em 13 de novembro de 1981: “a única coisa que Reinaldo sabe fazer é jogar futebol. Mas andaram botando na cabeça dele que ele é intelectual, que precisa ajudar os índios, o Lula, o Frei Beto”.

Muitas coisas prejudicaram a carreira de Reinaldo. A perseguição da ditadura militar, uma desastrosa e desnecessária operação no joelho aos 16 anos de idade, a violência carniceira dos zagueiros e a cumplicidade criminosa das arbitragens talvez tenham sido as quatro principais. De qualquer forma, entre os fatores que prejudicaram Reinaldo não se encontram os índios, Lula ou Frei Beto. A declaração de Telê Santana, um gênio do futebol de extremo conservadorismo político e comportamental, dá testemunho de uma concepção então bem arraigada, e ainda muito presente, do que deveria ser a vida dos jogadores. Pelo simples fato de serem jogadores de futebol, esperava-se que eles renunciassem a seus direitos de cidadão.  Ainda estamos bem longe de ter superado essa restrição aos direitos civis mais elementares dos profissionais do esporte.

Naquele ano, a grande polêmica em torno a Reinaldo girava ao redor de três termos: comunista, maconheiro e veado. Vasculhando os arquivos da época, é impressionante notar a continuidade que se pressupunha entre esses termos, como se todo homossexual fosse comunista, todo comunista, maconheiro, e todo maconheiro, gay. Reinaldo não tinha problemas com drogas (ele os teve, com cocaína, muito depois de encerrada a carreira) e não é homossexual. Foi, sim, socialista com coragem e lucidez, numa época em que o Brasil vivia sob ditadura militar.

Reinaldo tinha, no entanto, forte amizade com Tutti Maravilha, conhecido radialista de Belo Horizonte e, ele sim, gay assumido. Essa amizade foi fonte de escândalo ao longo de 1981 e as referências constantes de Telê ao “comportamento” de Reinaldo devem ser entendidas nesse contexto. Os hábitos sociais de Reinaldo nada tinham de desregrados, mesmo para os padrões da época. Em uma das longas conversas que tivemos em Londres sobre a Copa de 1982, Sócrates zombou da desculpa dos supostos hábitos desregrados de Reinaldo com sua inesquecível gargalhada: “Cerveja, Idelber? Como é que eu fui para a Copa? Eu bebia numa noite o que o Rei bebia em um ano. Não tinha nada de boemia”.

Boas pistas para se entender o papel da homofobia na não convocação de Reinaldo encontram-se na Placar de 31 de julho de 1981. O escândalo em torno à amizade entre Reinaldo e Tutti Maravilha incomodou o próprio radialista que afirmou, em seu programa na Rádio Capital, com a coragem que lhe é peculiar e em plena ditadura: “Esse papo com o Reinaldo é coisa careta, de um país careta e de uma sociedade infestada de falsos moralistas. Eu sou homossexual e amigo do Reinaldo como sou amigo de uma porção de outras pessoas. Tudo limpo, tudo às claras. A cabeça das pessoas é que é suja”. No momento em que foi perguntado pelo caso, Reinaldo respondeu  com bom humor: “Transar com o Tutti, minha gente, seria o mesmo que cometer um incesto”. O estranho pânico de que a homossexualidade seja contagiosa e de que alguém não possa ser o melhor amigo de um gay sem tornar-se gay subjaz a toda a patética polêmica provocada pela homofobia de Telê Santana, em particular, e do ambiente do futebol, em geral. Já farto da história, Reinaldo desabafou, ainda em junho de 1981: “se saio à noite com mulheres, sou boêmio. Se não saio, sou viado. O que fazer?”

Telê Santana foi um dos maiores gênios da história do futebol e é amado, com todos os méritos, pela torcida do Galo. Ele deu ao alvi-negro um dos títulos mais importantes de sua história, o Brasileirão de 1971. Mas seu veto à participação do maior centroavante de sua época na Copa que poderia tê-lo consagrado mundialmente traz as marcas de uma sociedade preconceituosa, hipócrita e homofóbica.

Um mês e meio depois da Copa da Espanha, o Galo excursionou à Europa e massacrou por 3 x 0 o Paris Saint Germain, a melhor equipe francesa do momento. O terceiro gol, de Reinaldo, foi uma pintura inesquecível que o público aplaudiu de pé durante longos minutos. Depois do jogo, estupefatos, os jornalistas franceses cercaram o Rei e perguntaram-lhe o óbvio: “Por que você não foi à Copa?” Mal sabiam os franceses que, no próprio Brasil, trinta anos depois, a resposta ainda seria desconhecida da maioria, e ilustraria mais um capítulo de nossa desmemória.

Idelber Avelar é ensaísta e professor de literatura na Universidade Tulane (Nova Orleans). Seus livros mais recentes são Transculturación en suspenso: Los orígenes de los cánones narrativos colombianos (Caro y cuervo, 2016) e Crônicas do estado de exceção (Azougue, 2015).  

[i] O homem da camisa 9. Placar404 (janeiro de 1978): pp. 12-14.

[ii] Citado em Couto, Euclides de Freitas. A esquerda contra-ataca: Rebeldia e contestação política no futebol brasileiro (1970-1978). Recorde: Revista de História do Esporte3.1 (junho de 2010).

[iii] A entrevista com Renê Santana está disponível no YouTube: http://youtu.be/qJUPPntLzA0