Por que não ambicionamos  novos ícones arquitetônicos?

Por que não ambicionamos novos ícones arquitetônicos?

Uma construção icônica não se dá unicamente pela arquitetura, que é “apenas” um dos componentes para isso. São vários os fatores que fazem com que uma edificação seja representativa de sua cidade.

Estado da Arte

19 Outubro 2017 | 21h28

Por Gabriel Rostey

Causou polêmica a afirmação de João Doria Jr., prefeito de São Paulo, sobre a maior cidade do país supostamente não ter edifícios icônicos além da Ponte Estaiada e do MASP. O meio dos arquitetos e dos amantes da Pauliceia Desvairada ficou em polvorosa com o que foi classificado como insensibilidade e falta de conhecimento do alcaide. A tônica geral foi de que a capital paulista é cheia de edifícios icônicos e o prefeito deveria ser apresentado a eles. Pessoas a quem respeito muito e com quem tenho grande afinidade faziam parte do coro.

Pois devo dizer que nesta questão eu compartilho do veredito de Doria. Embora tenha sido uma declaração um tanto quando desastrada, e seja um disparate nominar a Ponte Estaiada antes de símbolos como o Edifício Altino Arantes (o popular Banespão) e o Copan, realmente contam-se nos dedos de uma mão as construções icônicas paulistanas. E o mais grave: todas elas foram construídas já há algumas décadas.

Não se pode confundir boa arquitetura com um ícone. Um ícone é um símbolo que representa a cidade, ou, de acordo com o Dicionário Michaelis, “Signo que faz analogia com o objeto a ele relativo”.

Por mais pioneira que seja a Casa Modernista de Gregori Warchavchik, por mais exemplar que seja a multifuncionalidade e transição entre público e privado projetada por David Liebeskind no aconchegantíssimo Conjunto Nacional, por mais bem-sucedida a implantação pensada por Eurico Prado Lopes e Luiz Telles para o Centro Cultural São Paulo, ou por mais inspirador que seja o uso dos bambus de Kengo Kuma na Japan House, não, não são ícones (e isso em nada os diminui).

Duvida? Saia na rua e aleatoriamente pergunte aos transeuntes o que pensam sobre essas construções. A grande maioria sequer terá tido despertada alguma percepção sobre elas, e isso quando as distinguirem. Senão, pegue turistas e passe em frente a esses edifícios sem dizer nada, mantendo-se atento para identificar suspiros ou maiores inquietações provocadas por tais obras. Mas é bom estar realmente bem atento.

Uma construção icônica não se dá unicamente pela arquitetura, que é “apenas” um dos componentes para isso. São vários os fatores que fazem com que uma edificação seja representativa de sua cidade. Se o Altino Arantes não fosse o prédio mais alto de São Paulo quando lançado, teria marcado tanto? E se não fosse coroado pela bandeira do Estado? E se várias importantes vias, como São João, Brigadeiro Luís Antônio, Nove de Julho e Santos Dumont não fossem em direção a ele? E se não tivesse o Martinelli o emoldurando? O Copan seria tão marcante se não unisse a célebre e massiva forma em “s”, com a altura destacável e em meio a tão privilegiada localização, tendo o Edifício Itália como escudeiro?

O fato de São Paulo ter deixado de “fazer cidade” também fez com que não tivesse novos símbolos. Todo o impressionante conjunto de torres corporativas “Triple A” da Marginal Pinheiros, mesmo coroado pela visualmente impactante Ponte Estaiada (um desastre em termos urbanísticos), é como se não existisse. Não é um espaço de todos os paulistanos, não existe sentimento de pertencimento. Ninguém vai passear lá. Ou as pessoas são obrigadas a irem trabalhar lá, ou não passa de um cenário impessoal em vistas aéreas.

Um exemplo de como a inserção urbana é determinante para a consolidação de um edifício espetacular como algo marcante de uma cidade se dá no Rio. Ali, mais de R$ 500 milhões foram investidos em uma fabulosa Cidade das Artes, projetada pelo badalado arquiteto francês Christian de Portzamparc -vencedor do Prêmio Pritzker de 1994- na “não urbana” Barra da Tijuca. É uma das construções mais monumentais que já vi, mas ela simplesmente não faz parte do imaginário carioca. E o fato de estar em uma zona distante dos maiores símbolos do Rio, na qual não se caminha e que não é usada como ponto de encontro, é decisivo para isso. Como contraste, é só comparar com o caso do novo Museu do Amanhã, do starchitect (termo cunhado por Nicolai Ouroussoff, ex-crítico de arquitetura do The New York Times, para designer arquitetos contratados para projetar milionários marcos urbanos ao redor do mundo) espanhol Santiago Calatrava, que custou menos da metade (aproximadamente R$ 215 milhões) e se tornou o rosto desse verdadeiro marco na história da Cidade Maravilhosa que foi a devolução da orla da região portuária ao espaço público.

Entre os acadêmicos e a intelligentsia arquitetônica, muito se critica a chamada “arquitetura do espetáculo” -que supostamente gera marcos impessoais, sem relação com o entorno e com significado meramente “comercial”- mas ela cumpre um papel fundamental. É ela a grande responsável por despertar o interesse e a paixão das pessoas pela arquitetura, por transformar edifícios mundo afora em objetos de desejo, por manifestar concretamente tudo o que o engenho humano é capaz de fazer no espaço urbano e nos levar além: são a representação do Estado da Arte (com o perdão do trocadilho) de seu tempo. E é bom frisar que isso não é dado pelo marketing: um Empire State Building ou uma Torre Eiffel não precisam de nenhuma campanha para que um desavisado qualquer que os aviste seja arrebatado. Eles simplesmente são marcantes e especiais, e assim se impõem.

Nos últimos tempos, são muitas as iniciativas brilhantes, da Caminhada Noturna à série Prédios de São Paulo, passando pelo Esquina e o Arq.Futuro, que revelam, promovem e fazem o paulistano conhecer, entender e se orgulhar de sua cidade e seus edifícios. Mas não adianta dourar a pílula: com a possível exceção (o tempo dirá) da Zona Portuária do Rio – em um excepcional contexto olímpico – toda a sociedade brasileira não tem revelado mais a capacidade de criar novas maravilhas como o MASP ou a Pampulha. Como contraposição à mediocridade tupiniquim hegemônica nas últimas décadas, basta comparar o impacto e a proeminência que trouxeram para suas cidades locais como Puerto Madero em Buenos Aires, Costanera Center em Santiago, a London Eye e o 30 St Mary Axe (“Gherkin”) em Londres, Millennium Park em Chicago, Burj El Arab e Burj Al Khalifa em Dubai, Petronas Towers em Kuala Lumpur, Marina Bay Sands em Singapura, a revitalização do córrego Cheonggyecheon em Seul, a sede da CCTV em Pequim e todo o Pudong em Shanghai.

Nossa sociedade já foi capaz de sonhar alto e realizar coisas grandiosas para a humanidade. Como exemplo, tanto o Martinelli quanto o Altino Arantes foram os mais altos edifícios do mundo fora dos Estados Unidos quando inaugurados, e Brasília foi um modelo inovador e paradigmático -embora fracassado- para o urbanismo mundial. Hoje, a reação à declaração de Dória só comprova como esse tempo infelizmente passou.

Gabriel Rostey é consultor em política urbana.