Poesia em Casa – Os invisíveis alicerces

Poesia em Casa – Os invisíveis alicerces

Os poetas, e é possível averiguá-lo em depoimentos, entrevistas e discursos, determinaram, ao longo do tempo, certos pontos de partida reconhecíveis, que, também por experiência, trato de organizar.

Estado da Arte

13 Agosto 2017 | 11h00

Por Pedro Gonzaga

Tão velho quanto a própria arte é o lugar-comum de que o artista não oferece um comentário privilegiado sobre sua própria obra. Como todas as generalizações, há um quê de verdade, aqui, em especial, me parece no que diz respeito à interpretação do trabalho pronto, momento em que análises entram num plano de equivalência, mas há elementos de composição e de busca por certos efeitos textuais que a visão privilegiada do artista é capaz de revelar. Por isso, em nossa coluna de hoje, tomando um poema que escrevi recentemente, busco abrir a caixa de ferramentas para os que se interessam pelas dificuldades criativas, sem supor, em nenhum momento, que o resultado seja um exemplo de sucesso, mas apontando os desafios que qualquer poema precisa vencer para existir.
​Os poetas, e é possível averiguá-lo em depoimentos, entrevistas e discursos, determinaram, ao longo do tempo, certos pontos de partida reconhecíveis, que, também por experiência, trato de organizar. Para uns, no início há palavras soltas, talvez uma palavra que perdura até que receba um verso; para outros, ecoa na mente certo som, como se fosse uma melodia rarefeita a ser anotada; haverá também os que partem de uma imagem fixa, de uma cena que persiste, que às vezes atormenta, deleita e apavora por dias ou anos; e há, creio, os que começam a partir de sensações guardadas no corpo, sejam elas vívidas, remanentes na memória da pele e dos órgãos, sejam abstratas, naquilo a que chamamos pensamento. Que fique evidente, contudo, que são tão-somente maneiras de esclarecer o que os antigos chamavam de visita das musas, uma tentativa de eliminar as sombras dessa transcendental sombra que é a inspiração. Por fim, há que acrescentar que os pontos de partida logo se mesclam, levando à combinação de léxico, sonoridade, imagética, sensibilidade e razão que compõem um poema.
​No caso do poema que agora analiso, o ponto de partida foi a imagem do vazio deixado na rua por uma casa que não levou semana para desaparecer. Mais do que as caliças ou os escombros, sobreviveu-me o espaço deixado entre as duas construções vizinhas. Logo a impressão de que aquilo parecia uma banguela na boca se impôs. A imagem agora era a da ausência de um dente, e por algum tempo pensei na resistência de um dente, em tudo que nossos dentes enfrentam para chegar à maturidade, como aquela casa já velha, impiedosamente arrancada, para dar lugar a um estacionamento. Combinando as duas imagens, imaginei ter a primeira estrofe.

o dia da casa arrancada da rua
como um dente escuro
que doutos ortodontistas
decidiram ser velho demais
para compor a paisagem


​Mas descobri, um instante depois, que o poema não era sobre isso, que o que agora se impunha (novo ponto de partida) era o que eu tinha experimentado naquela casa, o início do amor, num quarto gélido, uma espécie de subsolo da construção.
​Assim, guardei a ideia do dente e da casa para depois e busquei um novo começo baseado nas sensações físicas, evocando a frieza das paredes em contraste com a plácida vitalidade do corpo amado, o que me parece nítido no desenho das duas primeiras estrofes e na inversão de tema proposta na terceira.

era ainda o começo
eu conhecia teu quarto
no fundo subterrâneo
da vermelha casa antiga

as paredes brancas
enterradas na terra
eram mais geladas
que a noite lá fora –
os dedos não esquecem

ali dentro havia teu corpo
esguio lento lasso –
os dedos não esquecem

​Acho interessante apontar o recurso de memória corporal usado para fazer a transição (os dedos não esquecem), pois nos dedos ainda há o frio úmido das paredes e depois a receptividade da carne em tudo o que é calor e maciez. Depois disso, o caminho sonoro se revelou, já nítido no verso sem vírgulas ou conjunções, “esguio lento lasso”, e mais que a imagem do teto para que os amantes olham, que logo me apareceu, foi o som o que permitiu a ponte com a primeira imagem da casa-dente. Se bem repararem no poema completo que ora segue, todas as engrenagens da casa, que levam ao final do poema, são antes efeito sonoro que imagético ou conceitual. No entanto, gostaria de supor que há nessas partes internas da construção, também imagens que lembram ossos e nervos, também as feridas reais e abstratas deixadas pela extração.

a casa

era ainda o começo
eu conhecia teu quarto
no fundo subterrâneo
da vermelha casa antiga

as paredes brancas
enterradas na terra
eram mais geladas
que a noite lá fora –
os dedos não esquecem

ali dentro havia teu corpo
esguio lento lasso –
os dedos não esquecem
e depois de tudo
nossos olhos submersos
buscando a superfície
fixos na matéria do teto
adivinhando para além
vigas e lajes
rebocos e fiações de pano
o sistema hidráulico
todos os azulejos
sem sequer adivinharmos
o dia da casa arrancada da rua
como um dente escuro
que doutos ortodontistas
decidiram ser velho demais
para compor a paisagem

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Acaba de lançar mais um livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra.