Poesia em casa – Os extremos do mundo

Poesia em casa – Os extremos do mundo

O esboço de poética de Einar Már Guðmundsson.

Estado da Arte

03 Dezembro 2017 | 08h00

por Pedro Gonzaga

Diversas coisas na esfera da poesia, tal como em outras esferas inclusive mais gigantes (embora delas descreia), dependem desta peculiar forma de paciência a que chamamos hábito,  que faz de uma casa, uma casa, e conforma experiências em conceitos reconhecíveis. Para habitar a esfera da poesia como um nativo, é preciso adesão, interesse e, sobretudo, paciência. Porque se os poemas parecerem curtos, é o olhar que ainda usa as medidas de outro reino, se as palavras parecerem soltas, falta compreender o que é a fala e o que é o canto ritualístico, e isso só se descobre a partir da leitura pacienciosa dos poetas mais exigentes, dos versos mais cerrados, das imagens mais raras. Por paradoxal que pareça, é só então que se alcançará a beleza da lira mais simples, daquele que com muito pouco chega ao coração do instante, lá onde pulsará também o coração do leitor.


Daí a dupla paciência daqueles que se fazem tradutores de poesia, a de reconhecer as sutilezas no idioma poético de partida, depois no de chegada, aceitando os erros incontornáveis que são parte do ofício, tentando mesmo assim recompor, ousando, apesar disso, construir as pontes que unem os extremos do mundo.

“Mar tempestuoso com golfinhos” de Joseph Mallord William Turner (c.1835-40, Tate Gallery).

Semanas atrás, em Porto Alegre, ao fim da Feira do Livro, tive a alegria de participar de um desses momentos, feito de pontes, ao lado do tradutor Luciano Dutra (brasileiro radicado na Islândia) e da excelente poeta ítalo-brasileira Francesca Cricelli, que apresentavam a obra lírica do islandês Einar Már Guðmundsson, que tem um romance já traduzido para o português (pelo próprio Luciano), de extrema delicadeza, chamado Anjos do Universo.

Ouvindo o fluido idioma das antigas sagas que tanto encantaram Borges, que depois era lido em nossa língua, era como estar num lugar quase fantástico entre passado e presente, completado por um conteúdo que muito me agrada como escolha poética: temas diretos, cotidianos, expressos com economia, mas sem nunca perder de vista os gatilhos líricos, que se fazem disparar somente pelos dedos da paciência.

Na página de Facebook comandada por Dutra, chamada Um poema nórdico por dia, é possível conhecer a tradução de um poema do Einar Már, assim como as de tantas outras vozes do outro polo. Para os leitores de nossa coluna, deixo aqui o poema que pude ouvir no original, no meio de uma tarde novembrina em Porto Alegre.

ESBOÇO DE POÉTICA

Talvez as palavras emerjam
do oceano
como salva-vidas.

Peixes e pássaros,
asas e caudas:
entre isso, o homem.

Quanto mais fundo mergulho
mais alto eu voo.

[DRÖG AÐ SKÁLDSKAPARFRÆÐUM]

Kannski koma orðin
upp úr hafinu
einsog lífsbjörgin.

Fiskar og fuglar,
vængir og sporðar:
þar á milli er maðurinn.

Því dýpra sem ég kafa
því hærra flýg ég.

(Einar Már Guðmundsson)

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Acaba de lançar mais um livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra.