Poesia em Casa: O País Visível

Poesia em Casa: O País Visível

Estado da Arte

09 Outubro 2016 | 15h21

por Pedro Gonzaga

O que vou dizer não haverá de ser novidade aos leitores de poesia: certos versos, certas estrofes, certos poemas permanecem em nós ao longo dos anos, naquela parte indelével da memória, que apenas os acidentes e a morte podem apagar. Resistem ali feito canções, feito certas palavras ou ditos que ouvimos de nossos avós, de amigos que já se foram ou que se perderam na estrada do mais além. E mesmo que passemos uma década longe desses versos, eles voltam com uma precisão que dispensa consultas. Hoje, enquanto pensava neste nosso terceiro encontro do Poesia em Casa, acordou-se-me o poema de um poeta italiano que conheci no início do milênio graças a uma belíssima edição da Ateliê Editorial: Giuseppe Ungaretti. (Tempos depois descobri que ele havia lecionado no Brasil, no fim de 1930. Desculpem-me, sou daqueles que primeiro, e durante algum tempo, olha apenas para as obras dos autores.)

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O escritor italiano Giuseppe Ungaretti.

Bem, a verdade é que eu pensava no assunto de que trataria aqui, ajudado pelas ideias do grande estilista Amado Alonso: as coisas que um poeta elenca trazem materialidade e visibilidade a um poema, em outras palavras, ao selecionar determinados objetos, um poeta nos oferece, por esta própria seleção, e por sua ordem, um caminho para o estado de espírito que o dominava à hora da composição, esta espécie de mapa para o sentir, quando se impôs feito a melhor forma de exemplo o poema do Ungaretti. Sei-o em italiano, mas o transcrevo abaixo traduzido, para que a curiosidade os leve ao original.

San Martino del Carso

 

Destas casas

não restou

mais que um

pedacinho qualquer de muro

 

Dos tantos

que me correspondiam

não restou

sequer tanto

 

Mas no coração

Cruz nenhuma falta

 

É meu coração

O país mais destroçado.

Algumas informações básicas para a ampliação da leitura dizem respeito ao engajamento do poeta na primeira guerra, a destruição lançada sobre a região de San Martino del Carso, sua terra natal, um dos tantos palcos do terrível conflito. Como paráfrase, eu diria que se pode fazer a correspondência entre o que restou das casas – esses escombros de muro -, e o que não restou de seus companheiros, feitos de mera carne. Também é nítida a anteposição entre as cruzes não erigidas aos mortos em combate, consumidos pela guerra, e as cruzes erguidas no coração do poeta, como memórias incontornáveis, sempre presentes monumentos sentimentais. Como detalhe linguístico, por fim, há a ambivalência da palavra “paese” (traduzida por país), no último verso, que tanto é país no sentido de nação, como também província, o contrário de cidade, que tão bem cabe à imagem do que é um coração: ocorrência universal e particular.

Mas o que eu queria que vocês vissem, voltando à ideia das coisas, é o que há de matéria no poema: os pedaços de muro, as cruzes no coração. O que é visível por fora e que faz visível o que vai por dentro, que reparassem no aspecto tantas vezes metonímico das coisas. A destruição das casas pelos fragmentos de muro, a destruição das vidas pelas cruzes do coração. Fechem os olhos e notem o quão nítidas são essas imagens: a ruína dos muros, a brancura concreta das cruzes. Ambas táteis, em sua aspereza mineral, ambas ocorrências da própria morte: os tijolos expostos, feito os ossos das casas, as cruzes no campo íntimo, para os ossos que a guerra levou. Casas, muros, tijolos, cruzes. As coisas que o poeta aponta não revelam o dedo, mas sim a mente e – por que não? – o coração da criatura humana atrás do gesto.

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada Falso Começo (Editora Ar do Tempo). Acaba de lançar O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica.