Poesia em Casa – Aquilo que sobra

Poesia em Casa – Aquilo que sobra

Estado da Arte

07 Maio 2017 | 11h06

Por Pedro Gonzaga

Lancei ontem, em Porto Alegre, meu terceiro livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra. O anterior, Falso começo, publicado em 2013, já leva quase quatro anos de distância, o que pode dar uma ideia aos leitores da quantidade de material bruto que eu tinha para selecionar. A escrita da poesia, em circunstâncias normais, e para uma boa parte de poetas, é um trabalho episódico, mais ou menos frequente, o poema se insinua, cabendo a quem o compõe prendê-lo, dar-lhe forma, para depois, a pior parte, ao menos para mim, esperar que ele cresça, quando só então se lhe pode aparar os excessos, como em qualquer arte de miniaturização. Esta luta, entre a criatura rebelde em seu confinamento e o burocrata catalogador, ocupado em conferir sentido e unidade ao seu bestiário, é a essência da atividade poética.

“Natureza Morta com Livros”, Jan Davidszoon de Heem, 1628

Passando solene por entre cerca de 200 seres expectantes, eu sei que pouco mais de cinquenta podem ser salvos. Alguns sucumbirão por serem perturbadoramemte parecidos, outros porque o poeta mudou, porque o mundo mudou, porque intenções antes claras se apagaram sem alarde durante a espera da publicação. Mas há sempre uns vinte ou trinta poemas que chegaram bem perto, que, na última hora foram vítimas de alguma implicância por carregar um verso insolúvel, uma palavra aftosa, uma ou outra imagem inconveniente aos caprichos de meu gosto. E haverá também as vítimas do esquecimento em algum arquivo não coletado, em alguma publicação nas redes e que não foi devidamente arquivada. São os injustiçados, mas disso todos nós entendemos bem. Aquilo que sobra, talvez fosse um bom nome para uma coletânea. Por ora, deixo vocês com este que sobrou. Não me perguntem por quê.

os lados da quadra

 

há muitos anos trabalho numa rua sem saída

cujo fundo é o portão dos fundos de um hospital

e ninguém demora a descobrir o que sai por ali

 

não poucas vezes vi aqueles carros sem janelas

agourentos e mudos como gordas aves de rapina

a manobrar sem pressa em nossa garagem

tornando o ar mais frio e úmido ao partirem

 

na outro lado da enorme quadra

abre-se vaticana a fachada do sistema hospitalar

cafeterias e farmácias prometem a ressurreição

há caixas eletrônicos porque o mundo segue em revoada

médicos e médicas ostentam plumagens brancas

enfermeiros e enfermeiras passam barulhentos e azuis

 

pouca coisa se move na rua onde trabalho

e o que se move na morgue viaja em silêncio

entre árvores verdes que tudo limpam

um tipo límpido de silêncio

que se alastrar como somente em certos enterros

no instante antes da terra receber o baque do caixão

 Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Acaba de lançar mais um livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra.

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