Poesia em Casa – A prosa poética de Leonard Cohen

Poesia em Casa – A prosa poética de Leonard Cohen

Em nossa coluna de hoje, voltamos ao poeta e compositor Leonard Cohen, como motor para uma rápida discussão sobre a poesia que existe para além de sua forma convencional, ou seja, a forma versificada.

Estado da Arte

06 Agosto 2017 | 08h00

Por Pedro Gonzaga

Em nossa coluna de hoje, voltamos ao poeta e compositor Leonard Cohen, como motor para uma rápida discussão sobre a poesia que existe para além de sua forma convencional, ou seja, a forma versificada. Reparem que aplicada a outras artes, a ausência de forma significaria a própria extinção de boa parte dos objetos, de sua organização mínima. Imaginem a música sem a organização sonora do tempo no espaço, ou a escultura a que não se desse forma à pedra. Este próprio contínuo lógico de palavras a que me dedico e chamamos prosa não tem lá uma série de características que lhe dão forma distinta de um poema? Em um sentido bastante básico, o olho já percebe na página a diferença formal entre a disposição das palavras. Haveria, no entanto, como garantir que a mera disposição em versos de sentenças garantiria uma obra lírica?

Soluções definitivas não as há, mas pelo menos duas visões nos ajudam a entender um pouco este estranho objeto, porque, no limite, é claro que há poema em prosa ou prosa poética: basta ver a quantidade de exemplos primorosos, de Baudelaire a Cortazar, de Alencar a Cohen.

A primeira visão a que me referia vem de uma obra monumental sobre a compreensão do fenômeno lírico de um estruturalista francês chamado Jean Cohen, na qual ele estabelece a principal diferença entre prosa e poesia num desvio do uso do idioma. Ou seja, dado o uso majoritariamente lógico da língua, o uso prosaico (documentos, reportagens, tratados, romances), o uso poético nos lembraria das relações inusitadas, imagéticas, metafóricas. Deste modo, mesmo sem a disposição em versos, a intenção subversiva do texto manteria seu caráter poético.

A segunda visão vem do clássico livro de Octavio Paz, O arco e a lira. Para o poeta mexicano, a poesia tem por fim libertar a palavra de seu contexto lógico e útil, retirando-a de seu cativeiro de sentido, de sua essência de tijolo num texto prosaico. Deste modo, na prosa poética, a palavra teria, ao mesmo tempo, força de elo na cadeia lógica, mas ao mesmo tempo faria ver o seu brilho de joia singular, dentro da cadeia.

Desvio do sentido prosaico e busca de atenção para si mesma contra um todo quase amorfo. Não seria está uma razoável síntese para o poema que perdeu seus versos?

Deixo para vocês o exemplo de Leonard Cohen que motivou estas linhas dominicais, que é, além disso, uma soberba reflexão sobre a criação poética.

 

Como dizer um poema

Pegue a palavra borboleta. Para usar esta palavra não é necessário fazer com que a voz pese menos que algumas gramas ou equipá-la com pequenas e poeirentas asas. Não é necessário inventar um dia de sol ou um campo de narcisos. Não se trata necessariamente de estar apaixonado, ou apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta de verdade. Há a palavra e há a borboleta. Se você confundir esses dois itens as pessoas têm o direito de rir da sua cara. Não tente explorar tanto assim a palavra. Você quer sugerir que ama as borboletas de modo mais perfeito do que todo mundo, ou que é de fato capaz de compreender sua natureza? A palavra borboleta é apenas um dado. Não se trata de uma oportunidade para você pairar, voltar a voar, e adorar as flores, simbolizar a beleza e a fragilidade, ou de algum modo encarnar a borboleta. Não se deixe levar pela palavra. Nunca tente deixar o solo enquanto fala sobre voar. Nunca feche os olhos e jogue a cabeça para um dos lados quando falar sobre morte. Nunca crave seus olhos chamejantes em mim quando falar sobre amor. Se quiser me impressionar falando de amor, ponha sua mão no bolso ou debaixo do vestido e se toque. Se a ambição e a sede de aplausos são a razão para falar de amor, será bom você aprender a fazê-lo sem se desgraçar ou arruinar seu material.

Qual é a forma de expressão que o nosso tempo exige? O tempo não exige qualquer forma de expressão. Nós vimos as fotos de luto das mães asiáticas. Não estamos interessados na agonia de seus desastrados órgãos. Não há nada que seu rosto possa revelar que seja páreo ao horror de nossos tempos. Nem tente. Você será apenas vítima do escárnio daqueles que já sentiram as coisas profundamente. Já vimos telejornais em que humanos chegavam ao extremo da dor e do deslocamento. Todos sabem que você está bem alimentado e recebendo uma grana para estar aí de pé. Você está se apresentado para pessoas que experimentaram uma catástrofe. Isso deveria fazer com que você mergulhasse em silêncio. Diga as palavras. Transmita os dados, saia de cena. Todos sabem que você está sofrendo. Você não pode dizer para a audiência tudo o que você sabe sobre o amor em cada verso de amor que você fala. Saia de cena e eles saberão o que você sabe porque você já sabe isso. Você não tem nada para lhes ensinar. Você não é mais bonito do que eles. Não é mais sábio. Não grite com eles. Não tente forçar a coisa a seco. Isso é sexo da pior qualidade. Se você mostrar o vulto de seus genitais, então entregue o que está prometendo. E se lembre de que as pessoas na verdade não querem um acrobata na cama. Do que precisamos? De estar perto do homem natural, da mulher natural. Não finja que você é um cantor das multidões com uma imensa e fiel audiência que o acompanhou em seus altos e baixos até este momento. As bombas, os lança-chamas, e toda essa merda destruíram mais do que apenas árvores e vilarejos. Eles também destruíram o palco. Você achava mesmo que sua profissão escaparia à destruição geral? Não há mais palco. Não há mais refletores. Você está entre as pessoas. Então seja modesto. Diga as palavras, transmita os dados, saia de cena. Aguente sozinho. Aguente sozinho em seu quarto. Não se engaje.

Trata-se de uma paisagem interior. Está dentro. É privado. Respeite a privacidade do material. Essas peças foram escritas em silêncio. A coragem do número é pronunciá-las. A disciplina do número é não violá-las. Deixe que a audiência sinta seu amor pela privacidade mesmo que não haja privacidade. Seja como as boas prostitutas. O poema não é um slogan. Não serve para fazer autopropaganda. Não pode promover sua reputação de criatura sensível. Você não é um garanhão. Você não é uma mulher fatal. Toda essa tralha sobre bandidos do amor. Vocês são estudantes de disciplina. Não se deixem levar pelas palavras. As palavras morrem quando se as encarnam, elas murcham, e o que nos resta não é nada além de sua ambição.

Diga as palavras com a exata precisão com que checaria a lista da lavanderia. Não se emocione por causa da blusa de lacinho. Não tenha uma ereção ao dizer calcinha. Não tenha calafrios apenas por causa da toalha. Os lençóis não devem provocar uma expressão sonhadora em seus olhos. Não é necessário chorar no lenço. As meias não estão ali para lembrá-lo de estranhas e longínquas viagens. É apenas sua roupa para lavar. São apenas suas roupas. Não fique a se excitar com elas. Apenas as vista.

O poema não é nada além de informação. É a constituição de um território interior. Se você declamá-lo e carregá-lo de nobres intenções então você não ser melhor do que os políticos que você despreza. Você será apenas alguém a agitar uma bandeira, apelando de maneira barata a um tipo de patriotismo emocional. Pense nas palavras como se fossem uma ciência, não uma arte. Elas são como um relatório. Você está falando diante do Clube de Exploradores da National Geographic Society. Essas pessoas conhecem todos os riscos de se escalar montanhas. Eles o honram dando isso como assentado. Se você esfregar isso em seus rostos será um insulto à sua hospitalidade. Fale a eles sobre a altura das montanhas, o equipamento que você usou, seja específico sobre as superfícies e o tempo que lhe custou a escalada. Não tente levar a plateia a se afligir e suspirar. Se você for digno dessas aflições e suspiros isto será fruto não da sua apreciação dos eventos, mas da deles. Isto virá das estatísticas e não do tremor da sua voz ou do modo como você corta o ar com suas mãos. Estará nos dados e na organização tranquila de sua presença.

Evite floreios. Não tenha medo de ser fraco. Não tenha medo de estar cansado. Você fica bem quando está cansado. Você parece ser capaz de resistir para sempre. Agora venha até meus braços. Você é a imagem da beleza.

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das
Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Acaba de lançar mais um
livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra.