Poesia em Casa – a casa do poeta

Poesia em Casa – a casa do poeta

Na coluna Poesia em Casa de hoje, uma seleção de poemas do último livro de Pedro Gonzaga, 'Em outros tantos quartos da terra'.

Estado da Arte

20 Agosto 2017 | 00h05

Hoje nós do Estado da Arte propomos uma versão um pouco diferente da coluna “Poesia em Casa”, assinada pelo poeta e tradutor Pedro Gonzaga todos os domingos neste espaço. Queremos aproveitar para apresentar aos leitores da coluna um pouco do trabalho poético do próprio Pedro, que lançou neste primeiro semestre o livro Em outros tantos quartos da terra (Editora Ar do Tempo).

montanhas

esqueça os grandes gestos

as montanhas serão sempre selvagens

é no reino das pequenas coisas

que a cortesia surge e se apaga

a delicadeza do cascalho

contra a solidez da rocha

o silêncio da planta celibatária

contra a afetação das florestas

o amor do trajeto cotidiano

despercebido na viagem gloriosa

o carinho no corpo adormecido

gratuito demais para ser mensurado

suspeite do amor feito grandeza

o louvor ao tecido e não à trama

a conflagração da orquídea

contra o buquê de flores mortas

os banhos que o pijama arquiva

contra as vestes das festas longas

pois é no reino das pequenas coisas

que o amor governa senhor

de cada súdito seu diminuto

o amor sabe-se uma soma

de tantos desperdícios plenos

para que se concentre em gota

(o sal grudado no fundo do pote

o café perdido no inox da pia

a areia que a vassoura esquece

e o grão de amarelo ouro

deixado na espiga de milho)

para uns dentes que agora mordem

a parte carnuda da orelha

enquanto o dia dos amantes começa

 

meia-vida

a meia-vida de um isótopo do rutherfórdio

não chega a completar setenta segundos –

eis o quanto leva para se fazer mais leve

esse dissoluto elemento transurânico

agrada-me sua desconhecida serventia

algo admirável para uma coisa

semiliberta de sua massa

à leitura do último verso deste poema

nunca ser útil para além de setenta segundos

não ser a pedra da escada do hotel

o vermelho boquirroto do cobre

o metal em amante anel forjado

a transparência do oxigênio para os animais

não ficar mais pesado nunca

como coisa feito gente

coisas velhas

coisas densas

coisas em lenta

decomposição

os amantes

os amantes se recrutam em automóveis

separados ainda pelo freio de mão

em lojas de animais domésticos

diante do olhar estarrecido e estrábico

de algodoados lulus da pomerânia

os amantes se reconhecem em salas

recobertas de ferros e espelhos

sussurram enquanto grita a televisão

cegados para o mau-gosto ostensivo

das roupas que eles mesmos vestem

os amantes se declaram em supermercados

em frente aos pães morenos

em plena seção de hortifrutigranjeiros

ou por um momento refrigerados

diante de luminosos laticínios

os amantes se revelam amantes

mesmo quando não há testemunhas

ou no centro de estádios repletos

pois são flores que desde ancestrais primaveras

rasgam a aridez da superfície dos cactos

antilha

heróis não morreram em nossas praias

banha-nos apenas um caribe de publicitário azul

em nossas serras aves ornamentais gorjeiam

e não barbudos revolucionários chamejantes

ninguém virá cortar a doce cana nem traficará

os tomates esquecidos pelo plano quinquenal

cassinos aqui giram o tédio dos aposentados

não há jovens desembarcando em nossos portos

dispostos a morrer e matar e foder pelo sonho

nosso reino e coroas por um ministério do turismo

que tenha uma antilha a oferecer aos novos americanos

 

prêmio

quem poderá nos devolver a fé

frustrada a manhã do terceiro dia

que máquina de razão e vapor

será capaz de nos dar a cegueira

ao obsceno brilho do real

disseram – ter certezas é dogmatismo

mas queriam a fidelidade

disseram – a nova partícula explicará

o segredo do existirmos

entre as paredes de um moderno acelerador

quando o que queríamos era outra vez

a mesma fé esférica e integral

densa e veloz noite de negros sonhos

quando o que queríamos era acreditar

mais uma vez no amor perdido

sem os pactos frios e legais

de uma conferência de nações

sem a cortesia calculada do sexo

saudosos da antiga religião

reduzida a uma química eucaristia

pois como não perceber –

tudo escolhemos às escuras

como não considerar

a genuína alegria atrás do acerto

que operamos porque operamos

a vida não mais que um obscuro corredor

que agora desapiedados nos oferecem

como uma solução feita de luz

quando não fora isso o que pedíramos

quando desejávamos que ao nosso lado

a pessoa recém-desperta fosse feita

apenas uma última vez

de matéria carnal e etérea

que voltasse a ser a prova de um prêmio

que nada fizéramos para merecer

 

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