Poesia em Casa – A arte do menor exemplo

Poesia em Casa – A arte do menor exemplo

O trabalho do poeta é encontrar na fração o todo, no detalhe uma fonte infinita de amplificação.

Estado da Arte

14 Maio 2017 | 10h50

Por Pedro Gonzaga

Padre António Vieira, seguindo os modelos clássicos, acreditava no poder do exemplo para convencer o ouvinte, muitas vezes até mais, como fica claro no Sermão da Sexagésima, do que na própria estrutura das ideias e dos movimentos retóricos por ele utilizados. Sua infinita capacidade de esmiuçar exemplos tem muito em comum com o trabalho do poeta, qual seja, encontrar na fração o todo, no detalhe uma fonte infinita de amplificação. Em verdade, me parece difícil crer num poeta que não seja antes de tudo um exegeta. A arte da exemplificação não é a arte das correspondências? Não são os exemplos formas práticas de metáfora, simbologia e metonímia?  Eu diria que a diferença entre um poeta e um puro exegeta como Vieira reside apenas na escolha do poeta pela economia, ao passo que o feroz padre precisava da ebulição, de superposição caudalosa do verbo que só os sermões podem ter. Isso não significa negar o lirismo barroco de um trecho como este do Sermão da Quarta-feira de Cinzas: 

“Ah! pó, se aquietaras e pararas aí! Mas pó assoprado, e com vento, como havia de aquietar? Ei-lo abaixo, ei-lo acima, e tanto acima, e tanto abaixo, dando uma tão grande volta, e tantas voltas. Já senhor do universo, já escravo de si mesmo; já só, já acompanhado; já nu, já vestido; já coberto de folhas; já de peles; já tentado, já vencido; já homiziado, já desterrado; já pecador, já penitente, e para maior penitência, pai, chorando os filhos, lavrando a terra, recolhendo espinhos por frutos, suando, trabalhando, lidando, fatigando, com tantos vaivéns do gosto e da fortuna, sempre em uma roda viva.”

Quero apenas, em contraposição, apontar o que é fundamental para um evento poético: num poema lírico, mesmo se narrativo, cada elemento deve estar destacado ao máximo, como imagens que compõem uma sequência congelada e ao mesmo tempo móvel, restrita e ao mesmo tempo total. Para a ideia do pó, do trecho acima, não todos os desdobramentos, mas um só, o mais significativo. Com o perdão da heresia de fraturar um Vieira, eu ficaria, modestamente, com a imagem bíblica da colheita de espinhos por frutos. Na verdade, escreveria um poema sobre as mãos de Adão, calejadas pelos tantos cortes, e como essas mãos revelariam à noite seu desejo humano por uma Eva finalmente envelhecente. 

Pó que deseja. Não me parece uma má definição do que somos. E lamento, leitores, se não consegui deixar o ponto do texto mais claro. Quem sabe o exemplo a seguir consiga dizer mais. É um poema de um dos mestres da Dinastia Tang, Du Fu, que viveu no século VIII de nossa era. Reparem como cada evento do reencontro de dois amigos está marcado por um só e ótimo exemplo que nos permite ver o que vai por dentro do eu-lírico. A proximidade do tempo do pó não pode ser mais bela do que isso.

Du Fu, poeta da Dinastia Tang

A Wei Ba, letrado em retiro – Du Fu

Na vida é muito difícil

dois antigos amigos voltarem a se encontrar.

Tanto como a conjunção das estrelas

da manhã e da tarde.

Bendita a noite de hoje em que nos reunimos

à luz de um mesmo candeeiro.

Passou depressa

nossa idade venturosa.

Agora nos cobrem as cãs.

Ao visitar os velhos companheiros,

descubro que muitos já são espectros.

A surpresa me enregela,

e a dor em minhas entranhas me queima.

Quem teria imaginado

que eu viria à tua casa vinte anos depois.

Ao nos separarmos eras solteiro,

e agora nos rodeiam teus filhos e tuas filhas.

Me acolhem com carinho e respeito,

e me perguntam de onde venho,

que caminhos tomei, como foi a viagem.

Antes de poder lhes responder,

pedes que busquem vinhos e manjares.

Recolhem na chuva verduras frescas,

e me servem uma comida deliciosa.

Ficas tão contente com o encontro,

que bebes de uma vez dez taças.

Me emociona o calor de teu afeto,

mas sofro com o que virá amanhã:

Hão de nos separar novos rios e montanhas,

e nos espera um futuro incerto.

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Acaba de lançar mais um livro de poesia, Em outros tantos quartos da Terra.