Poesia em Casa

Poesia em Casa

Estado da Arte

02 Outubro 2016 | 12h26

Duas Poetas

por Pedro Gonzaga

Em um show gravado em Minas, no ano de 1981, Tom Jobim, logo à primeira música, anuncia as razões para se apresentar sozinho, sem seus tradicionais e muitos acompanhantes de banda e coro. Diz ele que há uma hora em que o artista precisa se entregar mais, “sem aquela armadura toda”.  De certo modo, sempre me pareceu que a poesia era a arte de fazer descer a armadura, mesmo quando certa formalidade do verso parece solidificar o poema. Reparei, há muito, que me interessavam os poetas que podiam chegar neste lugar humano que começa quando o temor se evola, quando o senso de preservação se apaga, quando se revela o ser que nos diz, eis as coisas que perdemos, eis as coisas que amamos, eis as coisas que somos.

maria cvetaeva

A poeta russa Marina Tsvetaeva. (Foto: arquivo/divulgação)

Aqui no Estado da Arte, essa será a poesia que pretendo trazer para vocês. E um desses poemas, que explicitam o que rudemente eu quis dizer, é de uma poeta russa chamada Marina Tsvetaeva, pouco traduzida para nosso idioma, que me foi apresentada pelo escritor português, Paulo José Miranda, vencedor do Prêmio José Saramago e autor de uma dezena de livros, infelizmente pouco conhecidos por aqui, mas entre os quais destacaria O tabaco de deus (Cotovia, 2002), de poesia, e A máquina do mundo (Abysmo, 2014), um romance entre os mais criativos e contundentes que li nos últimos anos. Além disso, o Paulo José é tradutor de mão cheia, e uma vez em Curitiba, reunidos para o Litercultura, enquanto bebíamos um vinho alentejano e dividíamos nossa admiração pelos versos da Mariana Ianelli, ele me disse, “falando em poetas, conheces a Tsvetaeva?” Eu tinha em casa uma antologia em espanhol, mas nunca a lera devidamente, este mal dos que compram mais livros do que os olhos podem abarcar. “Não conheces Tentativa de ciúme? Espera que vou buscar minha tradução.” E então ele me leu isto:

 

Como é a tua vida com outra mulher?

Mais simples, não? Uma simples braçada!

Minha memória recua,

alcança no horizonte

uma ilha flutuante

(mas no céu e não nas águas).

Alma e alma! Vós sereis irmãs

mas não amantes!

Como é a tua vida com uma mulher

vulgar, sem divino?

Agora que destronaste a tua rainha

e tu mesmo renunciaste ao trono,

como é a tua vida? Que fazes?

Não sabes? E como te levantas?

Pagando o preço da banalidade imortal,

e ficando mais pobre?

“Basta de sustos e de suspeitas!

Hei-de arranjar um lar!”

E como vai a tua vida com essa mulher,

tu que foste escolhido para mim?

A comida é mais apetitosa?

Não te queixas se enjoares?

Como é a tua vida com uma pobre coitada –

tu, que pisaste o monte Sinai?

Como é a tua vida com uma qualquer,

uma mulher deste mundo? Diz-me – agradável?

A vergonha, como as rédeas de Zeus,

não te fustiga a testa?

Como é a tua vida? A tua saúde?

Vai indo, não? Como cantas?

Como enfrentas a consciência imortal

que te assalta, pobre homem?

Como é a tua vida com um acessório

de plástico? O preço é caro, não?

Depois do mármore de Carrara,

como é a tua vida com um bocado

de gesso partido? (Deus talhou-a

de um bloco e estilhaçou-o?)

Como é a tua vida com uma qualquer,

tu, que conheceste Lilith?

O teu apetite satisfez-se? E agora que a lascívia

não exerce mais poder sobre ti,

como é a tua vida

com uma mulher deste mundo,

sem um sexto sentido? És feliz?

Não? Nesse poço sem fundo do mundo

como é a tua vida, meu amor?

Pior do que a minha vida com um outro homem?

 

Eu queria dizer ainda muitas coisas, mas talvez o melhor fosse o silêncio com que recebi o baque desses últimos versos naquela tarde em Curitiba. Sei que devia também dar algumas informações biográficas da poeta, mas para isso está o Wikipedia. Me interessa aqui dividir com vocês o impacto inextinguível de um grande poema. E completar o impacto deste domingo com uma outra poeta que eu viria a conhecer na semana seguinte, ainda lá em 2014, uma poeta polonesa (essa terra de gigantes da lírica do século XX), chamada Anna Swir, que o nobel polonês Czeslaw Miolsz tinha como uma das grandes vozes de nosso tempo. O poema que segue foi traduzido por mim, e me parece significativo de sua obra, voltada para a feminilidade e o erotismo, mas em especial para esta verdade sem amarras, para este desvelar do ser que era, afinal, o nosso tema de hoje.

 

Diga-me

 

Diga-me, meu adorado

agora enquanto ouço

teu coração bater,

enquanto bebo da pequena fonte de calor

em teu pescoço,

enquanto te olho

como se fosses transparente,

e vejo cada um de teus pensamentos

e sei

que morrerias por mim

se necessário fosse,

diga-me agora

se somos entre todas as pessoas

as mais felizes

ou as mais tristes.

 

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada Falso Começo (Editora Ar do Tempo). Escreveu com Jane Tutikian o guia de escrita criativa Escreva!