Podcast – Realismo Mágico

Podcast – Realismo Mágico

Entrevista com Ana Cecilia Olmos (USP), João Cezar de Castro Rocha (UERJ) e Sergius Gonzaga (UFRGS) para a série Café Filosófico - CPFL.

Estado da Arte

14 Fevereiro 2018 | 09h00

Em mais uma entrevista em parceria com o Café Filosófico – CPFL, o Estado da Arte discute o gênero literário conhecido como “Realismo Mágico” com Ana Cecilia Olmos, professora de literatura latino-americana da Universidade de São Paulo; João Cezar de Castro Rocha, professor de literatura comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Cultures latino-américaines et poétique de l’émulation; Sergius Gonzaga, editor e professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

No ano de 2017 o Café Filosófico dedicou suas atividades a explorar e celebrar as facetas da “Responsabilidade”. Embora a literatura não tenha sido tema específico de nenhum dos ciclos, ela se fez presente todo o tempo, em menções, digressões e ilustrações nas palestras, dada a sua capacidade singular de exprimir os dramas sociais em dramas pessoais.

É exatamente por esse poder que ela foi abordada diversas vezes ao longo dos anos de atividade do Café Filosófico — a tal ponto que não seria inexato dizer que um outro nome para o Café poderia ser “Café Literário”. De fato, filosofia e literatura se complementam, a primeira buscando a verdade sobre o mundo humano através do pensamento especulativo, a segunda manifestando a beleza desse mundo através da criatividade. Por isso a atividade literária se integra de maneira tão orgânica a este Café “Filosófico”.

Por isso também, foi natural que o Café tenha intitulado a sua entrevista com o grande crítico literário Tzvetan Todorov de “A democracia e a beleza”. Nesse mesmo diapasão, o Café recebeu no ano passado, em parceria o Fronteiras do Pensamento, o escritor cubano Leonardo Padura. O próprio João Cezar de Castro Rocha já participou do Café, respondendo a uma questão capital: “Literatura Brasileira: Missão ou entretenimento?” E no ano de 2015, todo um longo ciclo se dedicou especificamente ao tema “Os clássicos da literatura e o cotidiano” , com palestra sobre autores como Clarice Lispector, Mário de Andrade, Gustave Flaubert, Miguel de Cervantes e Shakespeare.    

Mas um exemplo dos mais notáveis e particularmente pertinente por ocasião da presente entrevista sobre “Realismo Mágico”, foi o ciclo de 2016 “Emblemas literários do presente”. Não por mera coincidência, nada menos do que três das quatro palestras foram dedicadas a temas intimamente relacionados com o “Realismo Mágico”, a saber: “Da ficção futurista ao realismo científico”, com Nelson de Oliveira, editor e romancista sob o pseudônimo de Luiz Bras; “Utopias e Distopias do presente”, com o crítico Manuel da Costa Pinto, e “Autoficção, no limiar da autobiografia e da invenção”, com o romancista Michel Laub.   

Como, então, essa corrente literária conhecida como “Realismo Mágico” pode nos ajudar a experimentar e concretizar nossa responsabilidade sobre o mundo à nossa volta? De um ponto de vista histórico, não são poucos os estudiosos que associam esse tipo de literatura (que, embora universal, frutificou na América hispânica mais do que em qualquer outro lugar) com os movimentos de descolonização característicos da segunda metade do século XX. Wendy Faris, uma das mais reputadas pesquisadores do tema, chega a dizer que:

O Realismo mágico. . . . ‘re-plenifica’ o modo dominante do realismo no Ocidente, desafiando sua base de representação a partir de dentro. Esta desestabilização. . . . significa que ele serviu como um agente descolonizador. . . . O Realismo mágico combina o realismo e o fantástico de modo que o maravilhoso parece agora crescer organicamente do ordinário, borrando a distinção entre eles. Além disso, a combinação da narrativa fantástica e realista, junto com a inclusão de diferentes tradições culturais, significa que o realismo mágico reflete. . . . a natureza híbrida de muitas sociedades pós-coloniais.

 Mas além dessa conjuntura histórica, numa camada mais profunda e puramente literária, o “Realismo Mágico” tem um papel fundamental na reinvenção desse gênero imemorial que é a literatura fantástica. Numa palestra, Jorge Luis Borges, um dos mestres do gênero, já em idade avançada, avaliava o valor perene da narrativa fantástica:   

Em que reside o encanto dos contos fantásticos? Reside, creio, no fato de que não são invenções arbitrárias, porque se fossem invenções arbitrárias seu número seria infinito; reside no fato de que, sendo fantásticos, são símbolos de nós mesmos, de nossa vida, do universo, do instável e misterioso de nossa vida e tudo isso nos leva da literatura à filosofia. Pensemos nas hipóteses da filosofia, de longe mais estranhas que a literatura fantástica.

E assim ele chega à pergunta crucial,

a terrível pergunta, a pergunta que não é meramente literária, mas que todos alguma vez sentimos ou sentiremos. O universo, nossa vida, pertence ao gênero real ou ao gênero fantástico?

 Confira: 

No acervo do Café Filosófico