Périplo com Stanley Cavell, parte II: Ralph Waldo Emerson

Périplo com Stanley Cavell, parte II: Ralph Waldo Emerson

“Quem deseja ser um homem tem que ser um dissidente”.

Estado da Arte

09 Agosto 2017 | 10h00

Por Eduardo Vicentini de Medeiros

Em um misto de enfado e rala curiosidade, assisti entre bocejos a saga de Ray Kroc na ascensão da rede McDonald’s em The Founder. Gravei na memória tão somente uma cena do comecinho do filme. O protagonista, envolto em uma atmosfera de decepção e desalento, vestindo cuecas boxer e camiseta de física, sentado ao pé da cama em algum hotel barato de beira de estrada depois de um dia de fracasso nas vendas, coloca na sua vitrola portátil um vinil com o sugestivo título The Power of the POSITIVE, assim mesmo, com POSITIVO em caixa alta, narrado por um tal Doutor Clarence Floyd Nelson. Lá pelas tantas, o fictício doutor enuncia, dentre tantas baboseiras motivacionais, uma citação de Ralph Waldo Emerson: “A man is what he thinks about all day long”, que poderíamos verter rente ao chão da língua como “Um homem é o que ele fica pensando o tempo todo.” Ato seguinte, corta a cena e vemos o resoluto Ray Kroc pegando a estrada com seu carro para mais um dia de trabalho.

Ralph Waldo Emerson

O ato heroico de pegar novamente a estrada mesmo quando as coisas não vão lá muito bem, a força do pensamento positivo, a maior rede de fast food do mundo e hotéis baratos de beira de estrada, ou seja, temos aqui uma seleta dentre as invenções culturais mais caras aos nossos distantes amigos do Norte. Minha primeira reação à menção da frase de Emerson neste contexto foi perguntar sobre a relação de Emerson com o propalado american way of life.

Stanley Cavell

Antes de oferecer uma resposta, recordo outro momento de apropriação de Emerson, este um tanto mais perverso, desta feita em uma campanha da Reebok lançada em 1988 (irra! em pleno crepúsculo dos anos 80) com o slogan “Reeboks let U.B.U” (“Reebok deixa você ser você”). O comercial televisivo da campanha mostrava uma sequência de personagens exóticos enquanto passagens de Autoconfiança eram citadas pelo narrador em voice over. Autoconfiança é um dos ensaios mais ferozes de Emerson e contém frases como: “Quem deseja ser um homem tem que ser um dissidente”, “Uma coerência tola é o bicho-papão de mentes mesquinhas…” e “Ser grande é ser mal compreendido”. Esta apropriação é particularmente perversa, pois supõe uma promessa típica do american way of life, a saber, você pode ser um rebelde, pode bradar seus valores na contramão, pode galvanizar sua independência…basta calçar um tênis da Reebok, tragar um Camel ou sorver goles de uma Budweiser. A autoconfiança e o não conformismo estão ali, altaneiros e disponíveis, ao alcance da senha do cartão de crédito. Por mais que afirmasse essa peculiar promessa, a campanha foi um fiasco comercial e quase custou à agência Chiat/Day o seu contrato de publicidade com a Reebok.

A esta altura, outra pergunta me ocorre: como podemos salvar Emerson de fiascos ainda mais devastadores, a saber, ter seu nome lembrado tão somente por roteiristas de cinema blockbuster, ligado à subliteratura de autoajuda ou, ainda mais tragicômico, por algum redator publicitário bolando a próxima isca para fisgar clientes? Para esta pergunta várias respostas me ocorrem. A mais óbvia seria lembrar que poucos autores norte-americanos podem dar-se o luxo de colocar na sua conta ter influenciado decisivamente nomes da altura de Nietzsche e Thoreau. Emerson é um dos que podem. Talvez não seja exagero dizer que ele foi o primeiro american scholar, reconhecido em ambos os lados do Atlântico como uma voz tipicamente americana que teria algo a dizer para a velha Europa e para a nova América. É a partir da possibilidade desse reconhecimento que Cavell vislumbra em Emerson os ecos de uma filosofia americana, melhor dizendo, norte-americana. (Que os Estados Unidos da América se compreendam como ‘A América’, dando de ombros para tudo que também é ‘América’, de Tijuana na direção do Cabo Froward, é tema para outro momento).

A geração inaugurada por Emerson, o Transcendentalismo ou Renascença Americana, poderia ser melhor renomeada como ‘Nascença Americana’. Sua certidão de nascimento foi lavrada por dois gestos de Emerson. O primeiro, de abrir mão da autoridade do púlpito (ele foi pastor até a morte precoce de sua primeira esposa em 1831). O segundo, de substituir a autoridade perene, mas heterônoma, do sermão pela autoridade provisória e tentativa do ensaio, essa forma peculiar de expressão do pensamento que, pelo menos desde Montaigne, mantém filosofia e literatura de mãos dadas.

Uma medida do sucesso ou insucesso da empreitada de Emerson pode ser dada pela avaliação de quanto ele conseguiu abrir mão da retórica do sermão religioso que inicia invariavelmente com uma menção desabrida aos Evangelhos. Não sei até onde vai o êxito, mas suspeito que em determinados momentos de Autoconfiança ele é tangível. Vejamos se vocês concordam comigo: “Nada, enfim, é sagrado, a não ser a integridade de nossa própria mente. Absolvei-vos a vós mesmos e haveis de ter o sufrágio do mundo. Lembro-me de uma resposta que, quando bastante jovem, estava pronto para dar a um ilustre conselheiro, que estava habituado a importunar-me com as velhas doutrinas da igreja. Indaguei: ‘O que eu tenho a ver com a sacralidade das tradições, se vivo inteiramente de uma vida interior?’ ‘Mas esses impulsos’ – sugeriu meu amigo – ‘podem provir de baixo, não de cima.’ ‘Não me parecem ser assim’ – repliquei -;’mas se sou filho do Diabo, viverei então do Diabo.’”

Se algum evangelho ainda é reconhecível aqui, seu Gênesis não é dixitque Deus fiat lux et facta est lux, mas Cogito ergo sum. No entanto, não se trata de um ‘eu penso’ ‘tímido e apologético’ emprestado da boca de algum ‘santo ou sábio’ e sim a afirmação autônoma e intransferível do gênio individual. A marca de nascença do pensamento americano está no reconhecimento de quão frívolo é o ato de citar autoridades além-mar ou de repetir as palavras de outrem que sempre retornam para nós com ‘majestade alienada’. De algum modo que ainda não sabemos explicar totalmente desde 1787, também somos nós a dizer “We the people…”. E é fundamental que se possa dizê-lo em alto e bom som, supondo que o Novo Éden da América não é uma miragem ou uma promessa fadada a nunca ser cumprida. A imagem mítica de um Novo Éden abriga a esperança renovada por recomeço. Para seres finitos e irremediavelmente incompletos esta promessa é tudo que importa.

Conheço poucos filósofos que tiveram a habilidade e a imaginação indispensável para construir uma série potencialmente infinita de comentários a partir tão somente de uma frase. Cavell fez isso com a seguinte passagem do ensaio História de Emerson:

“Assim, tudo que é dito do homem sábio pelos estoicos ou pelos ensaístas orientais ou modernos descreve a cada leitor sua própria ideia, descreve seu inalcançado mas alcançável eu.”

Eu seria mais preciso ao fazer o elogio da eloquência de Cavell não ao comentar esta frase, mas antes a expressão que ela contém: ‘…seu inalcançado mas alcançável eu.’

O tour de force cavelliano consiste em conectar o que ele nomeia como perfeccionismo emersoniano à ideia de que ter um eu consiste exatamente no movimento na direção de algo que está continuamente além, que está no próximo estágio. Não se trata de mirar algum eu algures, esperando para ser atingido como um alvo, como um fim. Ter um eu é antes o movimento de buscá-lo, de constituí-lo. Alguns podem achar esta ideia de um movimento perpétuo do eu espantosa, até mesmo aterradora. Cavell a considera liberadora e educativa. Tão educativa que reaparece, não acidentalmente, em um texto de Nietzsche que vai com o título “Schopenhauer como Educador”, onde pouco se fala sobre Schopenhauer e muito sobre as esperanças depositadas na cultura para a emancipação na direção de um eu ‘inalcançado mas alcançável’.

Se alguém pode salvar Emerson da absorção pelo american way of life, que é vendido em sonsa diluição no cinema blockbuster e no marketing moderninho, se alguém pode salvá-lo para renovar a promessa da América, meu herói favorito para a tarefa é Stanley Cavell. E se as cartas ainda não foram todas colocadas na mesa, passemos ao river para que eu possa apostar todas as fichas.

Peço que vocês prestem atenção ao que nos escreve um dos primeiros observadores externos da experiência democrática do Novo Éden. Em duas passagens fabulosas De la démocratie em Amérique, Tocqueville dá a letra:

“[Os anglo-americanos] creem que, ao nascer, cada um recebe a faculdade de governar a si mesmo e que ninguém tem o direito de forçar o seu semelhante a ser feliz. Todos têm viva fé na perfectibilidade humana; julgam que a difusão das luzes deve necessariamente produzir resultados úteis e a ignorância, trazer efeitos funestos. Todos consideram a sociedade um corpo em progresso, a humanidade, um quadro mutável, em que nada é fixo para sempre, nem que deve sê-lo; e admitem que o que lhes parece bom hoje pode ser substituído amanhã pelo melhor que ainda se esconde.”

“Nações aristocráticas são naturalmente levadas a comprimir demasiadamente os limites da perfectibilidade humana, e as nações democráticas a estendê-los por vezes além da conta.”

A expressão original ‘perfectibilité’ que aparece nas duas passagens é um neologismo introduzido por Rousseau no Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi les hommes (1754) e que aqui Tocqueville toma de empréstimo, com um acréscimo que espantaria o próprio Rousseau, a saber, o ethos da democracia da América não só expressa um conceito para qual a Europa não tinha uma palavra para pensá-lo antes da metade do século XVIII, como ainda considera a possibilidade de uma ‘perfectibilité indéfinie de l’homme’. Há sempre algo bom na humanidade que ‘ainda se esconde’, que merece ser buscado. Você não pode forçar seu semelhante a ser feliz, ser feliz é um estado que deve ser ativamente buscado. The Pursuit of Happiness da Declaração de 1776 não é mesmo? Se possuir um eu é o perpétuo movimento de vir a ser, o mesmo vale para as sociedades que consentimos constituir. As sociedades são mutáveis e é esperado que assim devam sê-lo.

Pensar com Stanley Cavell é dizer, no melhor espírito de Emerson e contra Tocqueville, que a sorte da democracia está fadada a conviver com essa indefinição dos limites do humano demasiado humano e que estendê-los nunca configura algo além da conta. É antes sua razão de ser, ou melhor, sua vocação na direção do perfeccionismo que Emerson vislumbrou.

 

Eduardo Vicentini de Medeiros é doutor em filosofia pela UFRGS e pós-doutorando na Unisinos.
Para saber mais:
Alexis de Tocqueville