Perdas e Ganhos da Psicanálise

Perdas e Ganhos da Psicanálise

Estado da Arte

10 Outubro 2016 | 16h00

por Felipe Pimentel

A Psicanálise venceu

Os conceitos freudianos se disseminaram na cultura: supergo, ego, id, inconsciente, complexo de Édipo, pulsão, castração, repressão, recalcamento, negação, narcisismo, psicose, fetichismo – a maioria das pessoas não só os conhece, como também os utiliza (com ou sem maiores estudos). Não há quem não intua a noção de inconsciente, ou quem não lance mão da ideia de mecanismo de defesa para compreender alguma situação cotidiana. Na saúde mental, a Psicanálise não só promoveu um salto incrível, formulando uma das teorias mais complexas e abrangentes sobre a psicologia, como também seus conceitos povoaram a própria terminologia psiquiátrica. Nas suas discussões internas, a Psicanálise demonstra majoritariamente abertura e habilidade para pensar o que chama de “elasticidade” da clínica, isto é, sua capacidade de alargar seus horizontes teóricos e práticos para dar conta das novas configurações subjetivas.

Sigmund Freud, o pai da psicanálise.

A sua permanência mesmo diante das inúmeras transformações que o mundo passou desde a descoberta de Freud – as guerras, a ascensão de novos impérios e queda de antigos; as utopias, robustas ou não, bem-sucedidas ou catastróficas; a emergência de tecnologias benéficas ou ameaçadoras e a impensável informatização global – não deixa de atestar a força de suas ideias. Nos debates culturais, o arsenal freudiano coloriu a crítica literária, as biografias, até mesmo a história. A literatura, permeável a todo aprofundamento da compreensão da condição humana, incorporou suas noções, dialogando não só com seus conceitos, mas também com sua prática. Mais: a Psicanálise criou uma compreensão no senso comum de que, se sofremos por alguma coisa, há um espaço adequado para nos tratarmos – ou, no mínimo, para ampliar o que vulgarmente se chama de “autoconhecimento”, fazendo-nos mais artífices e menos joguetes da história que nos cabe.

Por outro lado, a Psicanálise perdeu.

De um lado, a disseminação de seus conceitos vulgarizou a profundidade do pensamento de Freud. A acessibilidade de seus insights ocultou a complexidade de seus conceitos. De outro, os debates acadêmicos ou esterilizaram-no, ou distanciaram-no da prática clínica. Uma má compreensão dos seus efeitos e do que a Psicanálise supõe como a “cura” a expôs, muitas vezes, ao ridículo. Até mesmo os revolucionários políticos  interpretaram muito mal a Psicanálise e atacaram-na como um dispositivo adaptativo pequeno-burguês. O esoterismo de muitos teóricos e psicanalistas também dificultou as coisas. A crença cega de alguns na Psicanálise como uma visão de mundo e a consequente rigidez diante da obra de Freud (rigidez incompatível com a própria postura deste fundador que tantas vezes reviu e reconstruiu todo seu pensamento) muitas vezes levaram-na a impasses, à adoção de uma postura defensiva, inviabilizando seu diálogo com a neurobiologia e outras áreas inovadoras da ciência. A Psiquiatria, por seu lado, na sua lenta investigação na detecção de marcadores físicos e biológicos para os transtornos mentais, busca, de modo mais ou menos ingrato e deliberado, se afastar dos seus termos. Por fim, o óbvio: a sociedade que une a cultura da performance à da imediatez e aposta na solução medicamentosa tende a menosprezar os princípios do “poder” da psicanálise e seu modo de atuação, lento e suficientemente incontrolável.

Qual o saldo de tudo isso? Como escrever sobre Psicanálise – e a partir dela – publicamente, de modo a respeitar não só sua complexidade e sua prática, mas também sua ética, diante de uma realidade repleta de dilemas de toda sorte, morais e políticos? Como tomar as ferramentas de Freud para, naquilo que chamamos de Psicanálise extensiva, formular algumas questões sobre a cultura e a sociedade, não apenas a respeitando, mas também percebendo suas limitações históricas e suas evoluções teóricas? Qual o papel da Psicanálise diante da cultura da performance? Ela está a serviço dela ou na sua contramão? Ela tem algo a oferecer, ainda, diante das aparentes (às vezes, verdadeiras) soluções farmacológicas? Como ela responde às acusações (ainda existentes) de adaptabilidade?  Qual a política da Psicanálise? Ela tem algo a dizer sobre isso? Mais ainda: como ela lida com as novas configurações clínicas, que surgem nos consultórios, e que parecem escapar ao cerne daquilo que intrigava Freud?

Essas são as perguntas para as quais essa coluna tentará indicar indicar caminhos possíveis de respostas, de novos questionamentos e de variados diálogos, sempre partindo da sensibilidade da Psicanálise para lidar com os eventos da cultura e da sociedade, nos quais nossos afetos se mostram de modo mais genuíno. Não falará exclusivamente aos analistas, que possuem seus espaços de debate, mas a todos que são permeáveis ao que se passa em nossa sensibilidade, seja num filme em cartaz que tocou ao público, seja nos difíceis impasses políticos deste país, que tanto refletem em nossas emoções. Na imprensa brasileira, somos privilegiados. Em poucas línguas e países, temos e tivemos tantos psicanalistas precisos, profundos e éticos diante deste saber, teóricos e pensadores que souberam sustentar o legado freudiano em sua capacidade de não só compreender, mas também transformar nosso modo de enxergar a sociedade difícil e maravilhosa que é a sociedade ocidental e, especificamente, a brasileira. O que fica claro como postura ética de um psicanalista diante disso é a força, a energia dessa teoria e dessa prática para buscar ampliar nossa condição humana, em vez de minimizá-la, restringi-la, simplifica-la ou reduzi-la. Ampliá-la não como falsa profundidade, mas como um modo de enriquecer as suas capacidades de libertação.