O problema é a corrupção. E a desigualdade.

O problema é a corrupção. E a desigualdade.

Ao contrário do que pensa o sociólogo Jessé de Sousa, não há uma oposição e muito menos uma separação entre corrupção e desigualdade no Brasil. A corrupção é uma expressão da desigualdade. Separá-las parece oportunismo.

Estado da Arte

10 Outubro 2017 | 10h38

Corrupção e desigualdade andam juntas. Foto: Renan Calheiros e Lula da Silva (AFP)

Por Vinícius Müller

O problema do Brasil é a desigualdade, não a corrupção. Essa é a frase que resume a retomada do debate sobre a desigualdade que ganhou força nas últimas semanas. Dita como chamariz para seu novo livro, o sociólogo Jessé de Souza engata o que, para alguns, é a essência da trajetória que une, em longo prazo, a escravidão e a operação Lava Jato. Aliás, o próprio título do livro já aponta para essa relação (A elite do atraso: da escravidão à Lava-Jato, ed. Leya), tornando quase caricata a possibilidade se fazer história de longa duração com alguma seriedade.

Para os adeptos da tese, Jessé de Souza apenas confirma o que parece óbvio, ou seja, que a Lava Jato é apenas um mecanismo da elite para punir aqueles que, de algum modo, governaram em nome do e para o povo. Mesmo que para isso tenham cometidos alguns pequenos deslizes que os moralistas de plantão usam para criticar. Não o deslize – que eles também cometem – mas sim o próprio governo do povo. Redundante dizer que essa mesma elite moralista, para os adeptos à tese do sociólogo, descendem dos senhores de escravos. Por outro lado, os que não coadunam com a tese, denunciam uma tentativa de minimizar a questão da corrupção. Dizem que essa é uma estratégia para diminuir o impacto dos escândalos revelados pela Lava Jato diante da possibilidade de um dos envolvidos ser eleitoralmente viável em 2018. Justamente aquele que atacou com relativo sucesso a desigualdade. Em suma, um pouco de corrupção não é problema frente à queda da desigualdade. Se para alguns isso é verdade, para outros é uma cortina de fumaça.


Pode ser que o livro tenha sido escrito para tornar ainda mais nebuloso o debate relativo aos últimos e aos próximos anos ou com alguma intenção eleitoreira de curto prazo.  Mas também pode revelar que há um modo de pensar que mais atrapalha do que ajuda no entendimento sobre a trajetória do país. Três itens parecem ganhar, nesse caso, relevância.

O primeiro é o vício de entender a história a partir da definição de pares antitéticos ou excludentes. A velha e boa (mais velha do que boa, já diria o admirável e excelente professor Júlio Pimentel) definição dos lados. Senhor e escravo, burguês e operário, explorador e explorado, metrópole e colônia, centro e periferia, rico e pobre, etc. No caso em pauta, corrupção e desigualdade e, pior, críticos da corrupção, moralistas, pouco preocupados com a desigualdade e descendentes de senhores de escravos, de um lado. E homens do povo que lutam pela igualdade, mas que cometeram pequenos deslizes relacionados à corrupção para alcançarem o objetivo superior, de outro. O roteiro já deixa claro, na contracapa, quem é o protagonista e quem é o antagonista. E, certamente, o autor está do lado do herói, não do vilão.

O segundo, mais complexo, refere-se à possibilidade de reconstrução da trajetória histórica a partir de questionamentos do presente. Por exemplo, será que de fato o motivo do relativo atraso brasileiro era a fragilidade industrial? Ou, hoje, podemos reconstruir tal trajetória identificando que o problema era o atraso educacional? Tal possibilidade torna mais dinâmico o modo como reconstruímos e contamos a história, pois pressupõe que aquilo que, até agora, parecia responder às nossas  dúvidas pode estar ao menos parcialmente errado. Ou seja, o problema não era a corrupção, como muitos pensavam até agora, mas sim a desigualdade? Boa questão.

Contudo, o terceiro vício sintetiza o problema. Ao reconstruímos a história, assim fazemos para achar novos pares antitéticos? E, nesse caso, relacionamos o antigo par ao novo que encontramos? Desse modo, se antes entendíamos a partir do par senhor e escravo, agora entendemos a partir da separação entre corrupção e desigualdade. E, além disso, associamos uns aos outros. Então, o senhor é o que condena a corrupção e, em última instância, apoia a Lava Jato. Já os escravos são os que lutam pela diminuição da desigualdade, por isso acham que a Lava Jato é uma artimanha da elite para punir os que representam o povo.

O problema dessa maneira de reconstruir a história é que, ao longo da trajetória, já não mais somos capazes de identificar com tanta clareza quais são os pares que a movimentam e como eles se relacionam. Embora no caso da relação senhor e escravo essa definição seja mais nítida, na separação entre corrupção e desigualdade não é.

Se a corrupção e os mecanismos que a incentiva e a sustenta são frutos de uma relação promíscua entre o que define o interesse particular (seja individual, seja do grupo) com aquilo que é público, então a corrupção é uma maneira de expressar nosso entendimento acerca do acesso que temos àquilo que a sociedade produz e oferece. E se, por ter acesso privilegiado, eu satisfaço um interesse pessoal em prejuízo do acesso de outros, isso significa que o acesso é desigual. Nesse caso, a corrupção é uma das maneiras de expressar a desigualdade. O raciocínio vale para outros exemplos. Se a escravidão era um modo de expressar a desigualdade, acabar com a escravidão não significa acabar com a própria desigualdade. E sim, com uma expressão dela. A desigualdade continuará se reproduzindo mesmo que por outras formas que não a escravidão. Assim, a corrupção é uma das expressões da desigualdade. Combater uma é combater a outra. Sem separação.

O risco então de fazer história de longa duração é que, ao não abandonar o vício de separar a história em pares, associar elementos de períodos muito distantes (escravidão e Lava-Jato) pode refletir mais o interesse ideológico de quem assim o faz do que um legítimo interesse pelo entendimento da história. Mais do que isso, não dá conta de perceber as nuances escondidas não na oposição entre elementos, mas na intersecção entre eles. E essa intersecção não é tão objetiva. No longo prazo, não são as coisas concretas que se reproduzem, e sim as subjetivas.

Portanto, não há uma oposição e muito menos uma separação entre corrupção e desigualdade no Brasil. A corrupção é uma expressão da desigualdade. Essa já assumiu a forma da escravidão, de desigualdade de renda, de posição no mercado de trabalho e de privilégios distribuídos pelo Estado. Acabar com a corrupção não vai acabar com a desigualdade, mas diminuir a desigualdade passa pela diminuição da corrupção.

Portanto, aqueles que usam de táticas corruptas em nome de uma suposta diminuição da desigualdade estão contribuindo, ao fim e ao cabo, com a manutenção e ampliação da própria desigualdade.

Corrupção e desigualdade andam juntas. Separá-las parece oportunismo.

Vinícius Müller  é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.