O Nobel para Bob Dylan

O Nobel para Bob Dylan

Estado da Arte

13 Outubro 2016 | 14h40

por Pedro Sette-Câmara

Até os fãs de Bob Dylan provavelmente ficariam confusos se o Nobel tivesse sido dado a Leonard Cohen e, em vez de correr para as livrarias, o público estivesse abrindo seus serviços de streaming para ouvir o último disco do ganhador. Entre a alegria daqueles que julgam ter seu próprio bom gosto finalmente reconhecido pela Academia Sueca e a indignação de quem crê ver mais um templo ser profanado, vale fazer algumas considerações para que se entenda como, para aquém e além dos méritos de Bob Dylan como artista, um cantor e compositor recebe um prêmio até então dado a quem costuma fazer música apenas com as palavras (e com as ideias, lembrando a definição de Fernando Pessoa).

O cantor e prêmio Nobel de Literatura Bob Dylan caminha pelas ruas de São Paulo. Foto: Acervo Estadão.

O cantor e prêmio Nobel de Literatura Bob Dylan caminha pelas ruas de São Paulo.
Foto: Acervo Estadão.

Uma ressalva serve de gancho para o raciocínio. É verdade que, se pensarmos numa escala de séculos, aquilo que hoje chamamos de poesia – literatura, portanto – surgiu da letra de música. O dolce stil novo de Dante Alighieri inspirou-se nas canções de trovadores catalães. O Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, publicado em Lisboa em 1516, tinha esse nome por trazer letras de canções compiladas junto com poemas que não foram musicados. Foi pouco depois do Cancioneiro que se estabeleceu, no português e em outros idiomas, uma ideia de poesia muito semelhante à que se tem hoje. Um texto não-musicado feito para ser lido, um texto que almeja ter música própria. A prosa de ficção desenvolveu-se pouco depois e tanto ela quanto a poesia acompanharam a disseminação da imprensa.

Por outro lado, tirando a imprensa, esse desenvolvimento já não era novo no Ocidente. A poesia cantada de rapsodos como Homero deu lugar à poesia lida de Calímaco, funcionário da Biblioteca de Alexandria. Em vez de recuar apenas séculos, poderíamos recuar milênios.

Assim, a concessão de um prêmio de literatura a um cantor e compositor poderia ser vista como um retrocesso não exatamente à origem da literatura como a entendemos, mas àquilo que foi sua base.

Porém, até que ponto faria sentido premiar um compositor popular e fenômeno da indústria?

Hoje o prestígio do que se entende pelo nome de “literatura” depende sobretudo das universidades. Uma pessoa preocupada com sua sensação de segurança intelectual poderia dizer que o número de trabalhos universitários nos diz o quanto ele está canonizado. Sem dúvida, esse critério valeria tanto na cultura publish or perish das universidades anglo-saxônicas quanto nas muitas gradações da nossa brasileira CAPES. E, de fato, a produção intelectual precisa de padrões de qualidade, nem que seja porque os administradores precisam saber para onde destinar verbas.

As universidades conheceram uma enorme expansão nas últimas décadas. Nos EUA, por exemplo, há quem diga que a bolha do crédito universitário é maior do que a bolha imobiliária. Os cursos de humanidades estão repletos. A democratização acaba sendo não apenas a democratização do acesso: o cliente sempre tem razão. Certas sutilezas ficam cercadas por acusações de elitismo. Tanto que o leitor hoje perplexo com o Nobel de Bob Dylan está se perguntando se ele próprio não é elitista.

Um lugar tradicionalmente considerado elitista é a Universidade de Oxford. Nela, existe um cargo de extremo prestígio: o de Professor de Poesia, que chegou a ser ocupado no século XIX por Matthew Arnold, no XX por W.H. Auden, e no XXI por Geoffrey Hill, que venceu a disputa pelo cargo contra o caribenho Derek Walcott, ganhador do Nobel de 1992 (Walcott estava sendo acusado de dar uma de Clinton – ou de Trump – com as alunas). O leitor talvez não saiba, mas, quando Hill faleceu este ano, toda a imprensa inglesa, que não influi na concessão do Nobel, já dizia que ele era o maior poeta da Inglaterra. Mas o detalhe importante para nós aqui é que um dos antecessores de Hill no cargo de Professor de Poesia foi Christopher Ricks, um dos mais celebrados críticos literários da língua inglesa.

Ricks já deve estar dando as primeiras de dezenas de entrevistas, pois foi eleito para o cargo de Professor de Poesia em Oxford no mesmo ano (2004) em que saiu seu livro Dylan’s Visions of Sin. As “visões do pecado” do título não são as de Dylan Thomas.

É porque o leitor comum está afastado do meio acadêmico internacional que ele supõe que um prêmio de literatura deve ser dado a um escritor que produz algo parecido com o que, desde o século XVI, se entende por literatura. A fim de acomodar as preferências da multidão de clientes, a literatura é estudada segundo vários vieses, e o establishment universitário, prestador do serviço, já foi capaz de absorver essa demanda.

Aliás, à medida que grande parte dos estudos realizados em departamentos de Letras caem sob a égide dos amplos “estudos culturais”, que o estudo de literatura se torna cada vez mais o de sociologia da literatura, ou de antropologia da literatura, não seria de admirar que, daqui a poucos anos, o Nobel de literatura seja dado a um artista que usa a palavra como mais um elemento entre outros da sua performance do que, como no caso de Dylan, um elemento ao menos importante. Como antiguidade é posto, poderemos estar vivos para ver Madonna ou Beyoncé em Estocolmo. O leitor só ficará indignado como um elitista se ignorar uma parte influente da produção acadêmica – que, por uma questão de sobrevivência econômica, não pode se dar ao luxo de ser elitista.

Ou então podemos dizer que estamos voltando a uma ideia ao mesmo tempo pré- e pós-moderna de literatura. O leitor sabe como concluir.

Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando e Letras pela UERJ.