O Mecanismo, Fake News e confusões pós-modernas

O Mecanismo, Fake News e confusões pós-modernas

As reações dos adeptos da "guerra de narrativas" à série 'O Mecanismo', de José Padilha, mostram que os conceitos de ficção e verdade, representação e prova, estão a nos exigir reflexão mais profunda e séria.

Estado da Arte

02 Abril 2018 | 18h29

“Série original do Netflix”: nem mesmo todas as sinalizações da ficção são capazes de conter a fúria dos seguidores de “narrativas”.

por Rodrigo Cássio Oliveira

Nas últimas semanas, o lançamento da série O Mecanismo, uma ficção em que José Padilha narra os primeiros anos da Operação Lava Jato, causou celeuma em meios ligados ao Partido dos Trabalhadores, chegando ao ponto de provocar declarações alarmadas em Dilma Rousseff e uma ameaça de processo à Netflix por parte de Lula, feita durante passagem da caravana do ex-presidente em Curitiba.

Há algo a respeito dessas reações políticas contra uma narrativa de ficção que merece ser comentado, para além do pesado burburinho que ela suscitou de imediato. Não me refiro a discursos como o do crítico de cinema Pablo Villaça, que protestou incentivando seus leitores a cancelarem suas contas da Netflix – uma atitude tão infantil que fica abaixo da crítica. O que causa alguma surpresa foi ver pessoas inteligentes usando o termo “Fake Fiction” para questionar o teor político de O Mecanismo. Fernando Haddad, por exemplo, repercutiu essa ideia seriamente em seu Twitter.

O que Haddad e outros comentadores pretenderam dizer com esse neologismo anglófono de sotaque tupiniquim? Seriam as “Fake Fictions” uma variação das Fake News? Que o leitor não me entenda mal, pois essas perguntas têm um fundo de ironia. Enquanto as Fake News são motivo de real preocupação para o jornalismo na era digital, a ideia de uma falsa ficção é tão estranha que apenas nos obriga a falar do óbvio.

Então falemos, rapidamente, do óbvio. Nenhum juiz da Lava Jato poderia tomar decisões com base em narrativas mostradas na Netflix. Em delações premiadas de criminosos que esclarecem os acontecimentos, sim. Acrescentar a palavra fake como um adjetivo da palavra fiction é o mesmo que acusar uma ficção de faltar com a verdade, de não ter compromisso com os fatos, o que é um contrassenso. O rompimento com a necessidade de fazer referências objetivas ao real já está na própria condição de existência da ficção.

Mas essa é a parte fácil de criticar no post de Fernando Haddad e dos simpatizantes que o endossaram. Um pouco mais difíceis são outras perguntas. Por que se tornou possível que uma ideia tão ruim como a de “Fake Fiction” fosse defendida seriamente? Por que se tornou tão fácil, como parece ter se tornado, passar por cima da diferença entre realidade e ficção?

Influência do pensamento pós-moderno

Os autores pós-modernos ficaram estigmatizados por conta dos seus excessos teóricos, e isso não ocorreu sem razões. Mesmo assim, eles nos ajudam a pensar sobre esse assunto.

Por coincidência, eu estava comentando Edgar Morin em uma disciplina na universidade, ao mesmo tempo que as conexões da série de José Padilha com a realidade eram discutidas nas redes. Em sala de aula, falávamos sobre uma das ideias do sociólogo francês que se tornaram comuns depois da ascensão do pós-modernismo, muito embora ela tivesse sido elaborada ainda na década de 1960, no livro A Cultura de Massas do Século XX: a de que a fronteira que separa ficção e realidade passaria a ser cada vez mais borrada no decorrer daquele século.

Morin não queria dizer, é claro, que as pessoas perderiam a capacidade básica de entender que uma narrativa de ficção não é um discurso objetivo sobre o real. Ele queria dizer, porém, que boa parte daquilo que chamamos de realidade, desde o século passado, passaria a ser definida, cada vez mais, pelas representações que os produtos simbólicos criam e difundem junto ao grande público. O lugar que os deuses gregos ocupavam na cultura antiga caberia agora às personalidades que habitam o imaginário social e estão sempre presentes na mídia, não importando se elas são atores ou apresentadores de TV, políticos ou juízes de Direito. A morada dessas novas divindades já não é o pico do Monte Olimpo, inacessível aos mortais da Grécia clássica, mas sim aqui, entre nós.

Por razões antropológicas, ficção e realidade estariam convergindo desde as primeiras décadas do século passado. Eu me lembrei das aulas sobre Edgar Morin tão logo vi alguém alegar, na internet, que a série de José Padilha deveria ser contestada porque o Brasil é um país tão atrasado que muitas pessoas pensam que os atores de novelas são, fora das telas, exatamente iguais aos personagens que eles interpretam na televisão. Nessa lógica, qualquer fato que ganhasse tratamento ficcional em O Mecanismo confundiria a audiência, causando prejuízos políticos indevidos.

Pode ter vindo daqui a bizarra noção de “Fake Fiction” que Haddad tuitou. O raciocínio dos seus defensores é simples e muito curioso: ora, se a ficção e a realidade se confundem, é preciso controlar o ficcionalista!

Narrativa, um conceito inchado

Podemos colocar a premissa do raciocínio acima na conta dos pensadores pós-modernos, mas a conclusão é por conta e risco dos seus intérpretes. Ninguém encontrará em nenhum escrito de Mario Perniola ou Jean Baudrillard, para lembrar de dois autores fundamentais da filosofia pós-moderna, a proposta de que a ficção deveria ser “corrigida” por patrulhas políticas que reivindicam a verdade dos fatos.

Essa assimilação, digamos, permissiva dos pós-modernos também reflete no inchaço recente do conceito de narrativa, que há muito se descolou de trabalhos precursores como o de François Lyotard. Para se ter uma ideia de como o conceito foi modificado nas últimas décadas, pode-se lembrar que Christian Metz, no final dos anos 1960, ainda acreditava que não é preciso definir o que são as narrativas para começar a estudá-las. Todos saberiam o que elas são, na medida em que todos poderiam diferenciá-las, intuitivamente, daquilo que elas não são.

Essa postura de Metz soa tremendamente ingênua nos dias de hoje. Na “guerra das narrativas” (há quem fale disso o tempo todo na universidade), qualquer forma de discurso tem sido tomada como uma narrativa. Nas piores versões desse clichê acadêmico, narrativa é uma palavra usada corriqueiramente para substituir a noção de verdade. Se você acredita em algo, não é porque é verdadeiro, mas sim porque adotou, como sua, essa ou aquela narrativa.

Por tudo isso, o legado da filosofia pós-moderna deve ser avaliado com rigor e cautela, pois nem tudo que se produziu naquele momento pode ser igualado à sombra do famoso Caso Sokal, provavelmente a maior pegadinha acadêmica da história. Descartar todas as teorias e os insights pós-modernos é uma imprudência que não se justifica. A recepção da série O Mecanismo dá evidências de que alguns dos seus temas ainda são atuais. Outro exemplo é o próprio conceito de Fake News, que, ao contrário do pastiche “Fake Fiction”, merece ser refletido.

O ponto chave é que não precisamos nos prender a um vocabulário duvidoso para constatar que o imaginário social se constrói, hoje, a partir de relatos que não dependem de uma ancoragem na realidade. Para dizer com mais clareza: o que vivemos é uma situação em que o poder persuasivo de um discurso não é maior nem menor por causa da verdade ou da falsidade do seu conteúdo. É certo que as Fake News espalham mentiras, mas não é propriamente a mentira que faz com que elas sejam tão poderosas e compartilhadas em massa nas redes. O fator decisivo é a emoção injetada nos falsos conteúdos.

Fake News e o discurso do golpe

Dificilmente entenderíamos o sentido e a importância das Fake News se não levássemos em conta esse aspecto da sua ocorrência no presente. Para quem luta uma “guerra de narrativas”, o desejo de acreditar no conteúdo de um texto é sempre mais importante que a possibilidade de que ele não seja verdadeiro.

Essa dimensão emotiva, que está na base das Fake News, pode ser vista em ação, também, na chamada “narrativa do golpe”, sem que precisemos batizar assim o discurso que o PT e seus simpatizantes divulgam sobre o impeachment de 2016. Como discutir a sério esse assunto sem passar por uma reflexão densa sobre o conceito de democracia? Como discuti-lo sem aprofundar a pesquisa sobre a legitimidade dos processos que tiraram Dilma Rousseff da presidência do país? Para ser eficaz como propaganda política, o discurso do golpe não poderia depender da simples organização dos elementos de uma narrativa (quem disse o quê, para quem, quando, com qual efeito etc.). Essa eficácia vem da atribuição de um valor isolado a cada um desses elementos. É ao coração, mais que à razão, que se dirige o discurso do golpe.

“É preciso estancar a sangria”. Frase do personagem João Higino, que interpreta o Lula ficcional da série de Padilha. A frase foi dita originalmente por Romero Jucá (MDB), ex-líder dos governos Lula e Dilma.

“É preciso estancar a sangria.” José Padilha colocou na boca do personagem que representa Lula essa frase de Romero Jucá, que conhecíamos da gravação do seu diálogo com Sérgio Machado pela polícia. As celebrizadas falas de Jucá neste áudio são um exemplo perfeito do que estamos discutindo aqui. Dependendo da preferência ideológica de quem recorre ao conteúdo delas para demonstrar alguma coisa sobre a Lava Jato, certas partes da fala de Jucá são lembradas, e outras são omitidas. “Tem que botar o Michel num grande acordo nacional”, citam os convencidos pelo discurso do golpe, omitindo que Jucá acrescenta, segundos depois, que este acordo “protege o Lula, protege todo mundo”.

Assim como o cineasta José Padilha, o conteúdo da Lava Jato é manipulado por políticos e militantes em suas redes sociais, utilizando uma forma de persuasão típica das Fake News. A diferença é que não cabe esperar de uma série de ficção que ela demonstre coisa alguma, pelo menos não no sentido de que verdades possíveis são demonstradas pela combinação de delações premiadas, pela documentação dos fatos em um livro de história ou pela argumentação jurídica embasada em evidências. Os políticos e militantes nas redes sociais, contudo, costumam acreditar que os seus posts são capazes de fazer isso.

 

Rodrigo Cássio Oliveira é doutor em Filosofia pela UFMG e professor da Universidade Federal de Goiás, atuando na Pós-Graduação em Performances Culturais (Mestrado e Doutorado). Coordenador do Grupo de Estudos Forma, Arte e Tecnologia do Media Lab/BR. Mais textos e contato no site: www.rodrigocassio.com