O mal-estar no feminismo

O mal-estar no feminismo

Estado da Arte

25 Abril 2017 | 08h00

Por Juliana de Albuquerque

Fora do Brasil há alguns anos, eu nunca deixo de me surpreender com a recente valorização do feminismo pelas internautas brasileiras. Pois, quando eu deixei o país em dois mil e nove, pouco se ouvia falar sobre tema.

Da conclusão do meu bacharelado, por exemplo, quando apresentei monografia sobre a influência do pensamento de Hegel na obra de Simone de Beauvoir, muita gente revelou-se surpresa com a minha escolha. Na época, em conversa com uma colega, ouvi o seguinte comentário: “mas você acha mesmo que ainda vale a pena discutir aquela escritora?”

Na Europa o clima era outro. No Brasil, Simone de Beauvoir só virou polêmica em 2015, por conta de uma questão do ENEM. Aqui, já desde muito tempo se comentava sobre um renascimento do interesse acadêmico em Simone de Beauvoir, ressaltava-se a importância das suas contribuições para a fenomenologia, para a moral existencialista e para a literatura.

Discutia-se não apenas a sua contribuição para o feminismo e o seu envolvimento político com movimentos da esquerda francesa. Mas, acima de tudo, o seu lugar na tradição filosófica ocidental.

Em outra ocasião mais recente, durante uma viagem ao Nordeste do Brasil, participei de um jantar na casa de um professor universitário. À mesa, homens e mulheres conversavam sobre planejamento familiar. Indagada sobre filhos, respondi que, se possível, gostaria de ter uma filha. Causei espanto, nem tanto entre os homens da mesa, mas, principalmente, entre as mulheres. Como se todas à mesa se sentissem obrigadas a defender o ideal de primogenitura masculina.

Hoje, nas redes sociais, essas mesmas mulheres compartilham fotos e citações sobre luta feminista e empoderamento. Mas até que ponto este interesse pelo feminismo expressa uma preocupação legítima com o bem-estar da mulher na sociedade, e a partir de que momento ele se transforma num sintoma de ansiedade coletiva?

Na década de setenta, a escritora Anaïs Nin concedeu uma série de entrevistas e palestras sobre o processo criativo em relação ao sexo feminino, fazendo questão de destacar a importância da saúde emocional do indivíduo na implementação de mudanças dos costumes sociais.

Considerada uma das criadoras do romance memorialista feminino, Nin explica aos seus leitores como transformou a ideia do diário íntimo numa forma de arte através da qual ela acredita ter sido capaz de encontrar a sua própria voz. Não apenas como escritora, sobretudo como indivíduo e como mulher.

Havendo atuado como psicanalista e tradutora de Otto Rank para língua inglesa, Nin descreve em ensaios e palestras, da última década da sua vida, os seus diários como uma peça-chave no processo da sua formação pessoal.

Longe de acreditar na infalibilidade de soluções políticas e ideológicas, ou na ideia de que é possível mudar tanto o mundo quanto a natureza humana, desenvolveu, através dos seus diários, um feminismo de viés psicológico que resgataria o impulso criativo da mulher para esta passar a exercer a sua vontade sem necessariamente sentir-se dilacerada pela culpa: “eu peço que a mulher assuma responsabilidade pelo seu desenvolvimento. Eu não exonero os agentes que impediram essa evolução, mas eu quero que cada mulher perceba que ela pode ser senhora do seu próprio destino.”

Assim, antes de agir em grupo e reproduzir bordões políticos, cada mulher deveria conhecer a si mesma e aprender a identificar os seus problemas e obstáculos individuais. Ora, refrões não são suficientes para nos fortalecer enquanto mulheres e indivíduos.

Dito isto, já na década de setenta, Anaïs Nin percebeu que o movimento feminista correria o risco de entrar em pane. Caso as mulheres insistissem em encontrar soluções para problemas íntimos e pessoais unicamente através da mobilização coletiva e do ativismo político; disso gerando nova dependência.

Pois, de acordo com a autora, as influências negativas das lealdades de classe, raça e religião, atuariam como obstáculos emocionais para o desenvolvimento da mulher enquanto indivíduo e jamais conseguiriam ser exclusivamente resolvidas através da politização.

Capa da revista Spectator:

Capa da revista Spectator: “Votos para as mulheres” X “Todos os homens são escória!”

Em um ensaio chamado Notas sobre o Feminismo, ela ressalta que, enquanto generalização, todo bordão comunica apenas uma inverdade e que, por isso mesmo: “muitas mulheres inteligentes e muitos homens potencialmente colaborativos, sentem-se alienados por generalizações (sic) … a coletividade nem sempre nos empresta força porque ela apenas funciona através de um mínimo denominador comum.”

Assim, apesar de todos os compartilhamentos on-line de bordões e mensagens feministas, parece-me inacreditável que em menos de uma década as mulheres da classe média brasileira tenham superado preconceitos ancestrais.

Certamente, algumas dirão que ainda não os superaram, que estão buscando se conhecer melhor e reconhecer os próprios limites. Mas a maioria das mulheres que eu conheço, quando indagadas sobre o feminismo, sentem-se agredidas; como se o exercício do debate ameaçasse a legitimidade das suas crenças.

Ora, em um país como o nosso – em que a cultura do machismo ainda prevalece e, em que o feminismo se tornou uma ferramenta importante para questionar os valores e costumes que ameaçam a segurança física e a integridade emocional da mulher–, faz-se cada vez mais necessário questionar a adesão repentina ao feminismo como profissão de fé.

Afinal, mudanças drásticas de comportamento, sejam individuais ou coletivas, nem sempre indicam saúde e progresso. Pelo contrário, tais mudanças, exatamente por serem repentinas, escondem motivações ainda desconhecidas. Carecem de fundamentação e correm o risco de serem revertidas com maior facilidade.

Se, por um lado, iniciativas como os projetos “Deixe Ela em Paz”, “Futuras Líderes” (UP[W]IT) e “Leia Mulheres”, são fundamentais para desfazer mitos e afirmar o protagonismo de mulheres na nossa sociedade, por outro lado, o entrincheiramento político-ideológico da militância feminista ameaça comprometer o alcance e a estabilidade das conquistas do próprio movimento.

Assim, Anaïs Nin explica que o entrincheiramento ideológico do movimento feminista seria caracterizado por uma maneira obsessiva de pensar  problemas que poderiam ser resolvidos individualmente; caso as suas integrantes fossem capazes de enfrentar e adotar uma postura inteligente e responsável sobre as suas próprias hostilidades e fracassos pessoais.

Assim, ao invés de focar em aspectos práticos, econômicos e sociais relativos à situação da mulher, Nin escolheu, durante as suas palestras, dar ênfase à dinâmica dos conflitos interiores e à ideia de que a robustez de todo e qualquer indivíduo reside no exercício da confrontação de si próprio.

Acreditando ser possível libertar-se independente das circunstancias, Nin escreve que a sua principal contribuição ao movimento de libertação da mulher teria sido fazer notar, em seu diário, que nenhuma outra opção surtiria mais prolongado efeito do que uma reforma íntima das atitudes e das crenças pessoais de cada de nós.

A raiva e o ressentimento que permeiam a linguagem do feminismo cibernético, com as suas acusações gratuitas e transferências de responsabilidade pessoal, devem ser combatidas pelo bem das conquistas do próprio movimento. Pois, como assevera Anaïs Nin, a raiva faz com que nós exageremos os nossos problemas e impede que alcancemos o apoio e o reconhecimento necessários para evoluir e seguir adiante.

Ao contrário do feminismo acadêmico convencional que é baseado em formulações intelectuais sobre as circunstancias da mulher na sociedade, Os Diários de Anaïs Nin nos oferecem uma versão do feminismo guiado tanto pela sua sensibilidade estética quanto pela sua sensibilidade psicológica.

Enquanto que, por exemplo, o pensamento feminista de Simone de Beauvoir é marcado por ideias políticas, influenciadas principalmente por Hegel e Marx. As influências que informam o feminismo proposto por Anaïs Nin são outras, como, por exemplo, Freud e Proust. Assim, ao enfatizar o papel da arte e do processo criativo no desenvolvimento psicológico, Anaïs Nin diz-nos: “o que eu mais gostei na psicologia foi a ideia de que o destino é interior e está em nossas mãos. Enquanto nós aguardarmos pela salvação através dos outros, nós jamais desenvolveremos a força que nós precisamos para nos salvarmos a nós mesmos.”

Assim, em sua peroração, Anaïs Nin permite-nos concluir que a liberação da mulher na sociedade envolve não apenas lutas políticas, mas, sobretudo, a superação de obstáculos emocionais particulares.

É justamente este apreço pelas circunstâncias e pelas peculiaridades de cada indivíduo, que falta ao discurso de cunho feminista amplamente compartilhado nas redes sociais pelo Brasil a fora.

Ora, a mentalidade de grupo por si só não é capaz de fortalecer e de libertar o indivíduo dos seus próprios preconceitos e amarras afetivas. De contrário oprime, aliena e enfraquece a vontade individual. Atira a quem mais precisa de ajuda numa passividade e num discurso de vitimização que arrisca perpetuar uma dependência emocional a causar prejuízo a toda uma comunidade.

Na conclusão de Notas sobre o Feminismo, Anaïs Nin assevera que: “o pensamento majoritário é opressivo porque ele inibe o desenvolvimento individual e busca uma formula para todos. O crescimento individual empresta maior qualidade à vida em comunidade. Uma mulher desenvolvida saberá como cumprir com as suas obrigações sociais e como agir de maneira efetiva.” Escritas em 1972, essas palavras permanecem tão vitais e desafiadoras quanto elas soaram do momento da sua publicação.

Juliana de Albuquerque é doutoranda em literatura e filosofia alemã pela University College Cork, Irlanda.