O inferno tem muitas portas

O inferno tem muitas portas

Estado da Arte

07 Outubro 2017 | 19h29

Por Willian Silveira

Vestido com a túnica branca de trabalho, Auguste Rodin (1840 – 1917) poderia ser facilmente tomado por santo ou sacerdote. Durante os longos silêncios que antecedem o encontro com a argila, a expressão grave sugere um diálogo que poderia ser tanto interno quanto digno de algum mefistófoles. E, no caso de Rodin, talvez não haja diferença entre ambas as conversas, pois a fé que professa, incomparável desde a admiração grega pelo volume do corpo, lhe garantiu culto e eternidade, mas foi insuficiente para lhe assegurar qualquer sombra de paraíso – mesmo na terra.

A vida conturbada do maior artista francês desde Victor Hugo (1802 – 1885) finalmente chega às telas com nome próprio. Escrito e dirigido por Jacques Doillon, Rodin (2017) traz o excelente Vincent Lindon no papel principal. O vencedor da Palma de Ouro por O Valor de um Homem (Stéphane Brizé, 2015) é o responsável por entregar os melhores momentos de um biografia excessivamente dedicada ao psicológico e de evidente desinteresse histórico. Prova disso é o ponto de partida da história: o ano de 1880. Apesar de marcar o reconhecimento do escultor com a venda de A Idade do Bronze para o governo francês, e resultar na encomenda da Porta do Inferno para um futuro – e frustrado – museu de decoração, a data impõe que o protagonista surja para o público no seu auge, aos 40 anos. A indiferença por quatro décadas de passado, desconsiderando as rejeições da Escola de Artes Plásticas e o impacto do período italiano, quando se deparou com as obras de Michelangelo pela primeira vez, se reflete na relação do filme com a mítica do escultor. Em vez de questioná-la, o roteiro prefere autorizar a faceta popular, em que o artista se torna refém do temperamento efusivo, da infidelidade e das obras perturbadoras. A tríade será o centro de um enredo etéreo, que cita Paul Cézanne, Claude Monet e Rainer Maria Rilke somente próximo do desfecho, como a se desculpar por ter transitado com desatenção pelo coração do período modernista.


Envolto em uma atmosfera criada predominantemente pelo uso de luz dura, a qual serve tanto para simular a luz natural quanto para transmitir o espírito atribulado do protagonista, a opção por Rodin mergulhar no mundo psicológico parece a alternativa encontrada pela direção ao suspeitar que as imagens do protagonista e seu affair estão cristalizadas na memória do público por Gerard Depardieu e Isabelle Adjani, no ótimo Camille Claudel. No longa de 1988, Bruno Nuytten atinge um equilíbrio raro entre vida privada e mundo artístico. Ao traçar a trajetória de Claudel, que conhece Rodin aos 19 anos, passa a trabalhar com ele no projeto inspirado no clássico de Dante e, em seguida, torna-se sua amante, o diretor acaba por retratar a personalidade do escultor de maneira precisa e objetiva. A oscilação entre a necessidade de criar e as exigências do mundo político, cada vez mais necessário para acalmar os mecenas, proporcionou a Depardieu uma atuação completa, a qual lembraremos ser coadjuvante somente no terço final, quando o longa naturalmente se debruça sobre a doença de Camille. Adjani, por sua vez, desempenha no filme o grande papel da carreira, uma atuação ainda melhor que a de A História de Adèle H. (François Truffaut, 1975). O talento de ambos resulta em um dos mais intensos casais já construídos na história do cinema, superando em muito a profundidade dramática de Warren Beatty e Faye Dunaway (Bonnie and Clyde, 1967), por exemplo, e se aproximando do registro de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, no clássico de Michael Curtiz (Casablanca, 1943). Parâmetro que significará um fantasma para interpretações futuras, como a de Lindon e da fraca Izia Higelin.

Analisados em contraste, Rodin e Camille Claudel diferem em estilo, abordagem, construção e objetivos. Na medida em que aquele se pretende introspectivo, este prefere a visão geral. Enquanto um escolhe a tensão mental envolvida na responsabilidade de construir símbolos emblemáticos como Balzac e Victor Hugo, o outro opta por revelar o mundo das aparências, o jogo de egos e a preconceituosa estrutura social da época. Frente a frente, Rodin e Camille, escultores acostumados a submeter a natureza à vontade, sofrem ao não encontrar no amante alguém que possa ser deformado ao seu bel-prazer. No caso dele, motivado pela satisfação irrestrita; no dela, pelo desejo de um afeto emancipado.

Distantes quase trinta anos e sem serem pensados como filmes complementares, é sintomático perceber o que os une. Por ironia, a independência das biografias de Doillon e Nuytten se transforma na melhor evidência da intensa convivência – pessoal e profissional – do casal. Vivida com vigor singular por mais de uma década, é exatamente no momento em que a relação se ausenta da tela que podemos constatar com clareza como não há Camille sem Rodin, ou mesmo Rodin sem Camille.

Willian Silveira é editor da revista Sétima e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE)