O épico da esperança

O épico da esperança

A esperança, como a felicidade, é um tema que só se torna verossímil por meio da parcimônia. Sentimos mais intensamente sua essência quando ela surge engolfada pelo desespero; da mesma maneira, a felicidade só se torna nítida e pungente quando contrastada com o infortúnio. Ambas, para realmente comover, precisam ser sucintas; em excesso, perdem a forma e o frescor.

Estado da Arte

19 Agosto 2017 | 11h00

Por José Francisco Botelho 

 

À memória de Cid Nader

Spinoza certa vez escreveu que toda esperança carrega em si um laivo de tristeza – e não poderia ser diferente, já que a esperança é coetânea de todos os sofrimentos do mundo. Isso, ao menos, é o que nos dá a entender Hesíodo, em O Trabalho e os Dias. Como sabemos, Prometeu, criador da nossa espécie, provocou a ira dos deuses ao roubar uma brasa do Sol; o fogo, ciumentamente guardado pelos imortais, era um elemento proibido às irrisórias mãos humanas. O mais famoso de todos os furtos exigia uma vingança cosmicamente exemplar; para efetuá-la, o senhor do Olimpo acorrentou Prometeu a um rochedo e condenou-o a ter o fígado eternamente degustado por uma águia. Conosco, foi menos piedoso: em vez de um único tormento, enviou-nos inúmeros, parcelados ao longo do tempo e transmissíveis de geração em geração. No interior de um jarro de argila, cada deus olímpico colocou um maligno presente à humanidade; o fatídico receptáculo foi enviado à Terra; e coube a Pandora, tragicamente célebre, a honra sombria de abrir-lhe a tampa. Até aquele dia, a humanidade vivia num ócio permanente e intocado pelo tédio: invencivelmente jovens, vagávamos pelos campos olhando o sol e as estrelas. (É de se perguntar por que precisávamos tanto do fogo, já que nada nos faltava; mas Prometeu, no momento, não está em condições de responder). A tranquila infância da humanidade acabou no momento em que Pandora destampou o jarro; de lá saíram voando todos os males que bem conhecemos, ou viremos a conhecer: o Labor, a Velhice, a Loucura, o Vício, as sortidas e intermináveis Enfermidades. O tenebroso enxame picou Pandora em todo o corpo, depois voou porta afora e pôs-se a perseguir a tribo dos mortais, que ainda hoje tentam escapar de seus milenares algozes ‒ e talvez já tivessem derrotado alguns deles, não fosse pela Loucura, cujo zumbido permanente nos obriga a avançar aos trambolhões. Mas voltemos brevemente ao jarro de Pandora, porque algo permaneceu lá dentro: “Apenas a Esperança continuou no interior da morada inquebrável, entre as bordas do jarro, e não voou para longe”, reporta Hesíodo. “Mas os outros todos voaram, as pragas incontáveis que perambulam entre os mortais, e desde então o mal anda pela terra e pelo mar, de dia e de noite”.

Por que a Esperança não saiu voando? Por que permaneceu refugiada no jarro de Pandora? E, já que estamos no assunto: por que os deuses a colocaram lá dentro? Desde a Antiguidade, as interpretações do mito variaram muito. Talvez alguma divindade misericordiosa tenha escondido, entre tantos males, um antídoto parcial, a ser buscado nas sombras, nos recessos menos espalhafatosos da alma humana. Ou talvez a esperança seja, pelo contrário, uma espécie de quinta coluna do sofrimento: um mal suplementar, que nos ilude e nos distrai, para que os outros males, os ostensivamente nefastos, possam nos atormentar com mais gosto e virtuosismo. Em sua versão do mito, Robert Graves escreveu, terrivelmente: “A enganosa Esperança, com suas várias mentiras, veio apenas impedir que os homens cometessem suicídio coletivo”.

A antiga controvérsia de Pandora me veio à mente alguns dias atrás, enquanto terminava de assistir ao magnífico épico de Cristopher Nolan sobre a retirada britânica na Batalha de Dunquerque. A narrativa de Dunkirk se desenrola entre 26 de maio e 4 de junho de 1940, apenas duas semanas após a invasão da França – na época, Hitler e Stalin ainda eram aliados; o Japão não havia atacado Pearl Harbor; e os Estados Unidos só entrariam na guerra dali a dezoito meses. Na cidade francesa de Dunquerque, à beira do Canal da Mancha, 400 mil ingleses estavam encurralados pelos nazistas, sem esperança de resgate: a praia era rasa demais para que os navios britânicos viessem salvá-los. Se perdesse meio milhão de soldados, o exército britânico não teria como se recuperar e a guerra estaria perdida. A hora tenebrosa reverteu-se de forma totalmente inusitada no dia 4 de junho, quando centenas de civis ingleses embarcaram em seus barcos de pesca, iates, lanchas e traineiras, atravessam o Canal da Mancha e trouxeram 340 mil soldados para casa, num dos eventos militares mais extraordinários na História.

Dunkirk

Duas coisas, em especial, me impressionaram em Dunkirk. A primeira: este é um épico espetacular, mas não espetaculoso. Há poucos diálogos; o inimigo mal aparece; não há combates catárticos e triunfantes contra os nazistas; quase nada sabemos sobre a vida pregressa dos personagens principais.  Tal economia narrativa nos força a mergulhar na aflição e na crueza, na implacável verossimilhança da morte. Lá pela metade do filme, mesmo conhecendo o evento histórico e seu desfecho, flagrei-me achando que os ingleses não escapariam, que nada poderia salvá-los, e que eu estava diante de um Bastardos Inglórios ao contrário: a História parecia prestes a ser alterada para pior. A sensação de fatalidade inevitável me era fortalecida pela imagem shakespeariana de Kenneth Branagh – o general que tenta desesperadamente evacuar as tropas e, enquanto isso, perambula na ponta de um molhe batido pelas ondas, olhos fitos na costa da Inglaterra, o lar tão próximo e tão inalcançável. O personagem de Mark Rylance – um marinheiro cinquentão que já perdeu um filho na guerra e dirige seu pequeno barco em direção às praias infernais – me pareceu encarnar o esforço inútil de toda empreitada humana sobre a Terra.

E aqui entra a segunda grande virtude do filme: após me convencer de que tudo daria errado e após me surpreender com a reversão da catástrofe, o filme não tentou mergulhar-me numa apoteose vulgar. A fleuma narrativa estende-se até o último segundo: a grande catarse da obra ocorre quando um camponês estende uma garrafa de cerveja, pela janela do trem, ao exaustos soldados recém-saídos do inferno. Imagem de uma sutileza quase estarrecedora que, confesso, me fez esfregar o canto do olho – e não foi para tirar um cisco.

Bem: ao fim da sessão, como ia dizendo, consegui decifrar o jarro de Pandora. Ocorre que a esperança, como a felicidade, é um tema que só se torna verossímil por meio da parcimônia. Sentimos mais intensamente sua essência quando ela surge engolfada pelo desespero; da mesma maneira, a felicidade só se torna nítida e pungente quando contrastada com o infortúnio. Ambas, para realmente comover, precisam ser sucintas; em excesso, perdem a forma e o frescor. Para ilustrar essa opinião, recorro aos versos finais do Inferno. Após a horrenda caminhada pelo submundo – durante a qual percorreram um exaustivo catálogo de tormentos e suportaram a visão do Diabo em pessoa – Dante e Virgílio emergem das trevas e voltam a enxergar o firmamento: “Subimos, Virgílio à frente, eu atrás, pela boca da caverna; espiei as coisas belas que giram pelo céu; e então saímos, finalmente, para ver as estrelas”. Essas linhas despojadas nos golpeiam com mais intensidade, e nos transmitem um maior quociente estético de esperança, do que todos os cantos do Paraíso ‒ em que a bem-aventurança, por excesso de descrição, torna-se apenas uma alegoria teologicamente correta. Semelhante triunfo ocorre no filme de Nolan. Por não desembocar no triunfalismo fácil, por manter em sua vitória aquele laivo de melancolia de que falava Spinoza, o diretor britânico criou, de forma convincente e inesquecível, o épico da esperança.

Resisto muito a admitir que as artes devam ser mestras da vida, ou que estejam aí para nos ensinar algo de obviamente útil; pelo contrário, acho que a arte só nos revelará seu valor profundo se lhe permitirmos uma certa inutilidade superficial. Mas, no caso em questão, ouso dizer que o filme de Nolan carrega uma espécie de epifania prática. A esperança excessiva pode ser uma forma de loucura: conduz ao fanatismo, aprofunda a cegueira, apressa a catástrofe; ou então se esgota de repente e se transforma em seu oposto. A esperança durável é sempre modesta, íntima, de comunicação difícil, mas crucial. E é esta esperança – a que ficou no fundo do jarro, não sua gêmea histriônica – a que não se pode perder. Tampouco me parece coincidência que este filme tenha surgido logo agora, num momento da história mundial que parece reproduzir, com tétrica fidelidade, os versos assombrosos de Yeats: Tudo se esboroa; o centro não segura; / Mera anarquia avança sobre o mundo, / Maré escura de sangue avança e afoga / Os ritos da inocência em toda a parte;/ Os melhores vacilam, e os piores/ Andam cheios de irada intensidade (Tradução de Paulo Vizioli). Estamos na praia de Dunquerque, com os olhos fitos num lar salvífico que parece cada vez mais inatingível. E não nos salvarão as esperanças vastas, apoteóticas, autoritárias, esmagadoras, definitivas; se salvos formos, será pela esperança difícil, sorrateira, persistente, ao mesmo tempo apequenada e fortalecida pelo ceticismo: a esperança do timoneiro constante que cruza a fumaça e o fogo.

José Francisco Botelho é escritor, jornalista e tradutor. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico (Zouk – 2011) foi finalista do prêmio Açorianos. Suas traduções de Chaucer e
Shakespeare foram publicadas pela Companhia das Letras.