O desaparecimento da infância

O desaparecimento da infância

A ideia por trás de “ecologia da mídia” é que um ambiente cultural mais uma nova tecnologia de mídia não é apenas ele mesmo mais algo novo, e sim algo totalmente transformado – como quando acontece após a introdução de uma nova espécie em algum ecossistema.

Estado da Arte

09 Outubro 2017 | 17h00

Por Pedro Sette-Câmara

O primeiro livro de crítica cultural que li na vida foi O desaparecimento da infância (Graphia, 1999), de Neil Postman. Li-o em inglês, em 1995. Apesar do título, o livro não tem nada a ver com lamúrias sobre como “no meu tempo não era assim, as crianças iam brincar na rua em vez de ficarem grudadas numa tela” etc. O interesse do livro está em mostrar o aparecimento da infância.

Como muitos dos melhores argumentos, o de Postman, apesar de denso, é fácil de enunciar: a ideia que hoje temos de infância deriva da invenção da imprensa móvel por Gutenberg.


Isso porque a “inocência” infantil se baseia na falta de acesso a certas informações, as quais antes estavam plenamente disponíveis, e em algumas décadas passaram a ficar condensadas e escondidas num código – a escrita – depois da invenção da imprensa móvel. Sim, claro, a escrita já existia, mas foi a imprensa que tornou a escrita disponível para todos. Tente comparar um livro medieval, enorme, pesadíssimo, feito para ser lido em pé, escrito em latim abreviado, sem índice, com um livro moderno, pequeno, portátil, com uma fonte legível, padronizada. É como comparar um dos primeiros computadores, do tamanho de uma casa, que só pode ser operado por quem conheça sua linguagem, com um iPhone.

Ou seja: a imprensa móvel cria a indústria do livro, e a massificação crescente dos livros cria a ideia de que é importante saber ler. Inventa-se a escola moderna. Quando as crianças são agrupadas, percebe-se que crianças de idades diferentes são diferentes. E, é claro, decide-se o que elas devem ou não devem ler.

Quando chegamos ao século XIX, que alguém como eu fica tentado a chamar de época de ouro da cultura literária, temos… os grandes clássicos da infância, das obras de Charles Dickens a Peter Pan.

Ecologia da mídia

O exemplo da infância ajuda a explicar o nome do campo de estudos de Postman: ecologia da mídia. A ideia por trás de “ecologia” é que um ambiente cultural mais uma nova tecnologia de mídia não é apenas ele mesmo mais algo novo, e sim algo totalmente transformado – como quando acontece após a introdução de uma nova espécie em algum ecossistema.

O mundo depois dos smartphones não é apenas o mundo de antes mais smartphones. Será que algum entrevistador perguntou a Steve Jobs como ele se sentia como profeta da pornografia amadora? Gutenberg, por sua vez, era um católico que pretendia espalhar a palavra de Deus. A reforma protestante não era exatamente parte de seus planos. Provavelmente ele também não estava interessado em criar a infância. E um dos pontos interessantes desse argumento é escancarar o simplismo que há em satanizar qualquer tecnologia: hoje ela pode estar acabando com a infância, mas foi ela também que criou a infância.

Sim, lá no começo falamos do clichê de que “no meu tempo as crianças subiam no pé de jabuticaba”. Porém, ficar grudado numa tela jogando videogame é a menor das questões. Estamos em parte voltando a uma situação medieval – as informações não estão mais presas a um código —, mas também entrando numa situação nova, em que a criança já pode ficar saturada de informações que, sem a tecnologia, nunca lhe chegariam.

Chernichévski

Inevitável ouvir a pergunta nada filosófica: mas então o que fazer? Postman mesmo não propôs grande coisa nos livros (que li). Na vida pessoal, ele, falecido em 2003, não usava computador (mas mandava os subordinados mandarem emails em seu nome), não ouvia CDs, não usava nem secretária eletrônica. Pode ter funcionado para ele, mas.

Só que, para esse nada filosófico “o que fazer?”, fórmula que, nesse caso, parece a versão abreviada de “o que fazer para deixar as coisas como estavam?”, talvez a única resposta seja filosofar mesmo, tentar redescobrir o que significam inocência, liberdade, bondade; o que se pode efetivamente transmitir aos pequenos, o que efetivamente está nas mãos deles.

Essa ressalva pode parecer aos aguerridos uma tentativa de tirar o corpo fora num momento em que a infância está no centro de vastas gritarias. Bem, cada um, cada um. Mas eu posso perguntar: o que é uma exposição num museu diante da internet? O conservadorismo brasileiro corre o risco de ficar igual à governanta de Amar, Verbo Intransitivo (Deus me perdoe por citar um dos piores livros de todos os tempos): contratada para seduzir o filho adolescente da família, descobre que ela não seria a primeira…

Porque por trás da pergunta “o que fazer para deixar tudo como está?” há nada menos uma preguiça tremenda de pensar. Um problema intrínseco de certos conservadorismos (talvez de todos, não sou especialista em conservadorismos) é identificar o Bem universal com certa ordem cultural, normalmente já na versão fantasia. Por isso, uma das piadas que gosto de fazer é que Cristo não veio ao mundo para anunciar a moral de santo Afonso de Ligório.

Platão para encerrar

Se meu argumento parece uma abominável tentativa de parecer descolado, observo que a história mesma das tecnologias, também discutida por Postman, está cheia dessas ressalvas.

Tudo o que achamos culturalmente relevante hoje depende da palavra escrita. Porém, Sócrates (não o médico e jogador) preferiu não escrever nada. No Fedro, de Platão, o rei Thamus fica cabreiro ao receber de presente do deus Toth a escrita, porque, segundo ele, ela acabaria com a memória. Em vez de ter memória, agora só teríamos reminiscências. Para Thamus, um livro seria nada menos do que um post-it gigantesco. Não só: para esse grande conservador de sua época, as formas de saber baseadas na escrita seriam puro charlatanismo. O que, enfim, há de servir para mostrar que o conservadorismo de hoje pode perfeitamente não ser mais do que o progressismo de ontem.

 

Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ.