O cânone em pauta – O Infinito

O cânone em pauta – O Infinito

Estado da Arte

03 Maio 2017 | 08h00

“Há um conceito que corrompe e altera todos os outros. Não falo do Mal, cujo limitado império é a Ética; falo do Infinito”, assim Jorge Luis Borges iniciava sua biografia do Infinito em Otras Inquisiciones. Oscilando entre os dois extremos do caos e da indefinição, por um lado, e da plenitude e da perfeição, por outro, a visão do infinito desperta o terror e o fascínio do coração humano desde as origens. Segundo o matemático David Hilbert, “nenhuma outra questão jamais moveu tão profundamente o espírito do homem; nenhuma ideia estimulou tão frutuosamente seu intelecto; ainda assim, nenhum conceito permanece tão necessitado de esclarecimento”. Por isso mesmo, o próprio Hilbert, referindo-se às especulações de seu colega Georg Cantor sobre o infinito, diria que “ninguém nos expulsará do paraíso que ele criou para nós”. Immanuel Kant, por sua vez, acreditava ter demonstrado por a + b que pela estrutura mesma da razão humana estamos condenados a sempre indagar e a jamais saber se o mundo é finito ou infinito. Já o poeta Giacomo Leopardi era taxativo: o infinito “é um parto da nossa imaginação, ao mesmo tempo da nossa pequeneza e da nossa soberba… um sonho, não uma realidade”, porque “não temos nenhuma prova da sua existência, sequer por analogia”. Para Descartes, contudo, era um fato insofismável que a ideia da perfeição infinita está inserida no mais íntimo do nosso ser, e por isso, deduziria Fichte, “o infinito aproximar-se do ‘sumo bem’ constitui o verdadeiro destino do homem”, “o sinal da nossa vocação à eternidade”. Não obstante, o senso comum continua a afirmar dia e noite que “tudo que é bom dura pouco”, e as ciências parecem comprovar que todas as coisas nesse mundo e nessa vida têm um fim – a começar por essa vida e por esse mundo… ou será que não?

Com

  • Alexandre Leone, rabino e professor do programa de pós-graduação de estudos judaicos e árabes da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.
  • Fábio Bertato, pesquisador do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Universidade Estadual de Campinas e membro da Sociedade Brasileira de História da Matemática e da Sociedade Brasileira de Lógica.
  • João Cortese, mestre em História e Filosofia da Ciência pela Universidade Paris 7 e pesquisador de filosofia da matemática na Universidade de São Paulo.

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