O âmbito da oralidade

O âmbito da oralidade

O crítico nigeriano Abiola Irele, falecido recentemente, desenvolveu uma sofisticada teoria sobre o tema da oralidade: em vez de “literatura africana”, Irele chama de “imaginação africana” o âmbito literário estudado por ele.

Estado da Arte

09 Setembro 2017 | 18h05

O crítico nigeriano Abiola Irele ( 1936 – 2017): “imaginação africana”.

Por Adriano Moraes Migliavacca

No artigo passado, escrevi sobre a polêmica, no mundo literário africano, entre os que defendem uma literatura escrita em línguas africanas e os que defendem uma literatura escrita em línguas europeias e seus respectivos argumentos. Aqui chamo a atenção para um fenômeno de grande importância ao se considerar a literatura africana em línguas nativas: a oralidade.

É sabido que, exceção feita aos povos de cultura islâmica, os povos africanos que foram colonizados pelos europeus não possuíam língua escrita, o que por vezes fez crer que eles não tinham qualquer tradição literária. No entanto, um exame mais acurado nos mostra uma realidade bem diferente: esses povos possuem, isso sim, inúmeras tradições literárias de transmissão oral, ricas em textos consagrados e variados gêneros literários com suas muitas relações com as sociedades em que são gerados. A existência dessas tradições vem oferecer considerável complexidade para os estudos literários africanos. Afinal, ao se esboçar uma classificação das literaturas na África, onde se podem posicionar tais textos em relação às modernas literaturas em línguas europeias?


Um questionamento que surge é se existe alguma relação entre esses dois âmbitos literários: o escrito em línguas europeias e o oral em línguas africanas. Logo vem à mente a relação que existe, nas literaturas europeias, entre o latim e o grego e as línguas modernas. No entanto, o que temos no caso africano é algo bem diferente, pois que há, em geral, relação etimológica entre as línguas clássicas e as modernas europeias, algo que não se vê entre as modernas línguas europeias e as africanas. Além do mais, se escritores europeus em grande parte compartilham a herança grega e latina, o caso africano é bastante mais segmentado, uma vez que temos diversas tradições que nem sempre dialogam entre si. Tais constatações nos levam a crer que talvez não haja relações entre os dois âmbitos literários listados acima.

No entanto, tal afirmação está bem longe da verdade. É bom lembrar que os autores africanos, de origem africana, têm cada um uma relação com uma tradição oral na qual geralmente foi educado, juntamente com a tradição ocidental que conheceu no ensino formal. Muitas vezes, esses autores se lançam em estudos acadêmicos sobre sua tradição oral para conhecê-la em minúcias, e não há dúvidas de que levam grande parte dos achados para suas próprias produções; destacam-se, nessa prática, poetas como o ganense de origem ewe Kofi Awoonor e o sul-africano de origem zulu Mazisi Kunene. O que se pode objetar, no entanto, é que, se cada um desses autores conhece bem sua própria tradição literária, desconhece as dos outros, ou seja, Kunene pode ser um conhecedor da tradição oral zulu, mas desconhece a tradição ewe de Awoonor e vice-versa.

Tal situação faz com que as relações entre o âmbito da escrita e o âmbito da oralidade formem uma trama bastante complexa em que autores individuais trazem para um diálogo literário ocorrido em inglês, francês ou português aportes de tradições orais diversas, a atividade da tradução surgindo como um intermédio constante. A experiência da oralidade é algo que marca profundamente a literatura africana, mesmo que muitas vezes de forma indireta. Para entender tal realidade complexa, o crítico nigeriano Abiola Irele, falecido recentemente,  desenvolveu uma sofisticada teoria sobre o assunto. Em vez de “literatura africana”, Irele chama de “imaginação africana” o âmbito literário estudado por ele. Tal âmbito se caracteriza exatamente por uma viva interação entre a experiência da escrita e a experiência da oralidade, sendo que a última funciona como base para os autores que Irele coloca nessa tradição. A realidade chamada por Irele de “imaginação africana” é uma em que tradições orais que não têm diálogo direto entre si acabam por dialogar na literatura escrita, impactando consideravelmente o próprio âmbito da literatura escrita em seus gêneros e formas, levando em consideração os gêneros e formas que se encontram no âmbito da oralidade. Nas sociedades sem escrita, a produção da oralidade se organiza em três níveis: a linguagem comum, denotativa, o uso retórico da linguagem, que consiste em fórmulas e provérbios, e o uso propriamente literário, em que se encontram textos mais longos muitas vezes de caráter tão fixo quanto aqueles que encontramos em tradições escritas.

Também não se pode esquecer que uma literatura produzida inteiramente na oralidade formará outros tipos de gêneros e relações que uma produzida na escrita. Na literatura oral, a situação na qual certo texto é produzido, o ritmo musical que o acompanha, o tipo de melodia ou os instrumentos utilizados, tudo isso influencia no modo como tal texto será classificado dentro de sua sociedade de origem. Igualmente, nas sociedades africanas, a poesia é algo intrínseco a situações e serviços que, nas sociedades ocidentais, não têm nenhuma relação com ela. O uso de ervas medicinais muitas vezes necessita ser acompanhado por uma fórmula mágica que é entoada pelo especialista. Isso acrescenta também um caráter de funcionalidade ao caráter estético da literatura, ao ponto de o crítico nigeriano Tanure Ojaide postular, talvez com certo exagero, que não existe arte pela arte na África, sendo toda arte e toda a literatura marcadas pela funcionalidade. São questões como essas que fizeram Irele postular que uma das possíveis contribuições da África na área da literatura é exatamente chamar a atenção para elementos que em geral ficam de fora da consideração dos estudos literários.

Tal observação de Irele parece conter uma boa dose de verdade. A oralidade é uma experiência essencial para todas as tradições literárias. Mesmo naquelas em que sua prática está perdida em um tempo muito antigo, a existência de uma base oral para o fazer literário é uma dimensão importantíssima para se compreender a própria evolução dessa literatura. Nas sociedades africanas, essa experiência é atual e fervilhante e pode ser acessada ainda nos dias de hoje.

Adriano Moraes Migliavacca é tradutor e doutorando em Literaturas de Língua Inglesa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.