Narciso gosta de se mutilar – De ‘Crime e castigo’ a crimes sem castigo

Narciso gosta de se mutilar – De ‘Crime e castigo’ a crimes sem castigo

Para o niilismo de Raskólnikov, se Deus não existe, tudo é permitido. Cabe aos seres extraordinários sepultar o anacronismo judaico-cristão para fundar uma época em que o (super-)homem se torne o centro e a medida de todas as coisas.

Estado da Arte

13 Abril 2018 | 08h00

Por Flávio Ricardo Vassoler

1. Crimes sem castigo

Protagonista do romance Crime e castigo (1866), do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o ex-estudante de Direito/jovem intelectual niilista Ródion Raskólnikov bem apreende que sua época – tempos de pujança científico-industrial, tempos anticriacionistas de Charles Darwin – está matando Deus, a base transcendental sobre a qual haviam sido estruturados, histórica e ideologicamente, os princípios éticos da humanidade. Não à toa, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), leitor contumaz de Dostoiévski, nos narra, em A gaia ciência (1882), a história de um

homem louco que, em plena manhã, acendeu uma lanterna, correu até o mercado e se pôs a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!” …. Conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas e, em cada uma delas, entoou o seu Requiem aeternam deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”[1]

Raskólnikov bem sabia que a suposta loucura da personagem nietzscheana sintetizava o espírito de sua época. Revogado, então, o Decálogo de Moisés, o cadáver de Deus só fazia apontar para a obsolescência de um de seus mandamentos pétreos: Não matarás. Afinal, o raciocínio niilista de Raskólnikov o leva a pensar que, se Deus não existe, tudo é permitido; assim, apenas a massa ordinária continuará a se aferrar, por séculos e séculos, amém, a princípios transcendentais putrefatos. Cabe aos seres extraordinários – prossegue o niilismo raskolnikoviano – sepultar de vez o anacronismo judaico-cristão para fundar uma época em que o homem (ou melhor, o super-homem) se torne o centro e a medida de todas as coisas.

Quando lemos os livros do Velho Testamento, que característica da personalidade divina mais salta aos olhos?

Urge dar vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe. Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus zeloso, que castigo a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta gerações daqueles que me odeiam[2].

Ao nos lembrarmos da fúria de Deus que inunda suas criaturas com o dilúvio e dizima sem mais os habitantes de Sodoma e Gomorra, descobrimos que a divindade reserva unicamente para si o papel de carrasco. Ocorre que Kiríllov, personagem dostoievskiana de Os demônios (1872) e filho intelectual de Raskólnikov, só faz proclamar: “Se Deus não existe, então eu sou Deus. …. Se Deus existe, então toda a vontade é Dele, e fora da vontade Dele nada posso. Se não existe, então toda a vontade é minha e sou obrigado a proclamar o arbítrio”[3].

A escatologia de Raskólnikov conclui, portanto, que a coroação do ego só estará completa quando a espada letal de Deus for desembainhada pela mão do super-homem.

Munido, então, de um machado, Raskólnikov vai à casa da usurária Alióna Ivánovna, para quem o jovem empenhara as últimas quinquilharias de sua miséria. Chega o momento de a personagem realizar seu experimento niilista: com duas machadadas certeiras contra a têmpora do “piolho usurpador”, Raskólnikov lança mão da terra arrasada moral que o anarco-niilista alemão Max Stirner (1806-1856) já defendera em sua obra O único e a sua propriedade (1844):

O que é divino é problema de Deus, o que é humano, problema do homem. Eu não me preocupo com o que é divino, humano, verdadeiro, bom, justo, livre etc., mas, unicamente, com o que é meu, e não se trata de algo genérico, mas de algo único, já que eu sou único. Nada significa mais para mim do que eu mesmo! …. O que eu quiser, eu devo possuir e vou buscar. O que o homem conseguir amealhar lhe pertence: o mundo me pertence. O certo é aquilo que me convém[4].

Mas eis que, no momento em que Raskólnikov mata Alióna Ivánovna, a irmã da velha usurária aparece no apartamento. Ora, é preciso proceder à queima de arquivo, meu caro, ossos do ofício niilista: o ventre de mais uma inocente é necessário para o parto do novo mundo. De um momento para o outro, o utilitarismo de Raskólnikov o transforma de ex-estudante de Direito/inquilino inadimplente em duplo homicida. [Pequenas empresas, grandes negócios: quando o microempreendedor Raskólnikov conseguir arregimentar niilistas suficientes para fundar uma seita política, tomar o poder e instaurar um regime de terror multinacional, o executivo soviético Ióssif Stálin (1878-1953) lhe ensinará que uma única morte é uma tragédia; duas, uma decorrência; um milhão, material estatístico.]

Ocorre que, antes de desferir as machadadas, Raskólnikov ouviu as súplicas de suas vítimas, o jovem viu as contorções agônicas em seus rostos; enquanto aplicava os golpes, a personagem ainda pôde entreouvir o choro e o ranger de dentes, a suma dor do corpo que estrebucha e desfalece diante do carrasco. É assim que, após violar a fronteira do Não matarás, Raskólnikov se vê acossado pelo espectro da culpa e do remorso. [Não sabemos, ao certo, se o jovem sofre por causa de suas vítimas (e/)ou se ele padece pelo fato de sua vaidade lhe mostrar que, a despeito de seus ideais niilistas e grandiloquentes, Raskólnikov não consegue suportar o fardo de ter aspergido sangue alheio. Assim, o dostoievskiano em questão não seria, verdadeiramente, um super-homem para quem tudo é permitido, mas um cordeiro em pele de lobo, mais um membro da massa ordinária da qual ele antes tanto queria se apartar.]

Diante das agruras morais de Raskólnikov, o niilista romeno Emil Cioran (1911-1995), em sua obra Lágrimas e santos (1937), passa a desancar tanto a personagem quanto o próprio Dostoiévski:

Raskólnikov estava inquestionavelmente certo: de um lado, temos a massa que vive como um bando de autômatos de acordo com as leis da natureza; de outro, os eleitos para quem tudo é permitido, uma vez que eles expiam a vergonha da mediocridade da vida através da intensidade de suas próprias vidas. Mas por que Raskólnikov falha? Por que ele se vê consumido pelo remorso depois do crime? Seria possível que Dostoiévski temesse as consequências de seus próprios princípios? Ora, um homem que enfrentou a morte já não pensa em quaisquer consequências. A falha de Raskólnikov nos leva à covardia de Dostoiévski[5].

Para Cioran (e Nietzsche), o niilista, muitas vezes, só está à altura de seu ato no momento do assassínio; pouco depois, a culpa já começa a consumi-lo até a medula. Dostoiévski, assim, teria retirado o gênio da modernidade niilista da lâmpada, mas, assombrado pelos desdobramentos de suas ideias – isto é, acossado pela vacuidade ética de sua época –, o escritor russo teria inoculado em sua personagem os bacilos anacrônicos da mentalidade judaico-cristã que só fariam embotar Raskólnikov diante do vanguardismo de sua heresia. A covardia de Dostoiévski, então, diria respeito ao medo (e à culpa) de ter dado à luz um sentido de época que solaparia todas e quaisquer bases para a reciprocidade e a solidariedade humanas. Ao fim e ao cabo, os répteis só fariam devorar uns aos outros – levado às últimas consequências, o darwinismo social de Raskólnikov não traria tranquilidade nem mesmo aos poderosos, já que, leitores das lições de O príncipe (1532), do florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), eles sabem que sequer o generalíssimo romano Júlio César (100 a.C. – 44 a.C.) está a salvo.

Ocorre que o devir da obra de Dostoiévski se encarrega de dar uma resposta a Cioran.

Raskólnikov concebe o assassínio e o executa. O protagonista de Crime e castigo formula o plano e suja as mãos de sangue. Treze anos depois, em Os irmãos Karamázov (1879-1880), Dostoiévski daria vazão àquilo que poderíamos chamar de divisão letal do trabalho: Ivan, o intelectual niilista, concebe a morte de seu pai, o bufão Fiódor Karamázov; Smierdiakov, irmão de Ivan e filho bastardo de Fiódor, executará o parricídio. Membro da intelligentsia revolucionária, Ivan tem muito a perder se sujar as mãos de sangue; o reles serviçal Smierdiakov, por sua vez, é filho do estupro de sua mãe pelo pai Karamázov. Ora, a simbologia é inequívoca: se o Pai diluviano está morto, o pai estuprador não pode permanecer vivo. Sem ter o que perder a não ser os aguilhões de sua própria humilhação, Smierdiakov assassina o pai e, numa trama bastante ardilosa, ainda faz com que a culpa recaia sobre o irmão Dmítri Karamázov, que já alardeara aos quatro cantos a vontade de matar Fiódor Karamázov, uma vez que ambos disputavam, encarniçadamente, o amor de Grútchenka, uma das mulheres mais pungentes da obra de Dostoiévski.

É bem verdade que, ao fim, Ivan Karamázov fica louco, e Smierdiakov se enforca – novamente, a simbologia judaico-cristã em Dostoiévski é profunda: a razão niilista e utilitária de Ivan se esfacela; assim como Judas Iscariotes, o traidor de Cristo, Smierdiakov se enforca. O parricídio, então, acaba revertido contra si mesmo. De qualquer forma, a escatologia criativa de Dostoiévski, ao acompanhar os sentidos e ressentimentos de sua época, pôde levar às últimas consequências a ruptura do Não matarás: quando mentor e executor se tornam duas pessoas distintas, a cisão moral de Raskólnikov – em russo, raskol significa cisão – passa a ser administrada de maneira a minimizar o superaquecimento das máquinas e maximizar a produtividade.

Se lançarmos mão da escatologia criativa de Dostoiévski para aproximá-la de nossa própria época, teremos que alterar o título do romance de Crime e castigo para Crimes sem castigo em face dos ataques militares a reboque de drones.

Por improvável e exígua que fosse, ainda havia uma possibilidade de Alióna Ivánovna e sua irmã escaparem das machadadas de Raskólnikov: os golpes poderiam errar o alvo, as vítimas poderiam se esquivar, o corpo do carrasco, radicalmente presente, poderia ser ferido de alguma maneira. É bem verdade que o homicídio concebido e executado pela personagem já pressupunha um forte princípio de alienação em relação ao outro – a alteridade, na verdade, não passava de um meio com vistas ao alcance de determinado fim. De qualquer forma, a reversão do assassínio como culpa – eis o castigo quintessencial em face do crime – revela um caráter empático entre algoz e vítimas.

Ora, ninguém escapa de um ataque de drones. Ataque matemático, ataque via satélite, ataque incólume – não há qualquer possibilidade de os mandantes ouvirem o choro e o ranger de dentes de suas vítimas –, ataque sem sobreviventes, ataque, potencialmente, sem ruínas, já que, com disparos e bombas cirúrgicos, tudo é destruído, tudo é pulverizado. Tende a zero, inclusive, o horror que, certa vez, o ex-presidente dos EUA Bill Clinton chamou de collateral damage – as vítimas inocentes que, não tendo relação com os verdadeiros alvos militares, se transformam em danos colaterais. Já não há choro e ranger de dentes pelo fato de que quarteirões inteiros pulverizados por computador sequer apresentem testemunhas. [O pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973) não conseguiria pintar Guernica (1937) após um ataque de drones.]

Em face da divisão letal do trabalho levada a cabo por Ivan Karamázov e Smierdiakov, Raskólnikov é um aprendiz de feiticeiro; em face de um ataque de drones, Ivan Karamázov e Smierdiakov são contratados, respectivamente, como engenheiro civil e pedreiro da empreiteira multinacional que encabeçará as obras de reconstrução da Síria após os exércitos estadunidense e russo terem devastado o país.

2. Narciso gosta de se mutilar

E se o egoísmo, o utilitarismo e o hedonismo de Raskólnikov, Ivan Karamázov e Smierdiakov não representassem, inequivocamente, a maximização das satisfações pessoais? E se, sob a capa de sua volúpia, Narciso só ficasse escarafunchando suas feridas purulentas como que a conjuminar prazer e dor

À primeira vista, a sociedade contemporânea, em sua monomania competitiva, é formada por sujeitos radicalmente cônscios da necessidade de exaltar as próprias capacidades para suplantar os demais. Os currículos que apresentamos em entrevistas de emprego parecem forjados pelo sarcasmo de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa (1888-1935): “Nunca conheci quem tivesse levado porrada./ Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. …. // Toda a gente que eu conheço e que fala comigo/ Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,/ Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…”[6]. A melancolia cabisbaixa e o realismo profundo de Manuel Bandeira (1886-1968), quando o poeta suspira pela “vida inteira que podia ter sido e que não foi”[7], devem ser vedados a todo custo com tarjas pretas. (Raskólnikov e Ivan Karamázov se tornam executivos da indústria farmacêutica.) Apresentar o curriculum vitae ao lado do curriculum mortis – isto é, vibrar com as conquistas muitas vezes frágeis e contingentes sem escamotear as reiteradas derrotas e frustrações – equivale a um harakiri profissional (e pessoal). É preciso vestir a camisa, é preciso ser pró-ativo, é preciso cumprir todos e cada um dos prazos que se sobrepõem como a imagem tangível da ansiedade e do desespero, é preciso trabalhar para (muito) além do horário, é preciso, ainda assim, ter o corpo esbelto (liquidez corpórea, liquidez laboral), é preciso se exercitar na academia como um prolongamento doloroso da alienação própria ao escritório. Questionar a cacofonia da vida inteiramente administrada já não pressupõe uma licença psiquiátrica – com a extinção da CLT e a degola do INSS, Narciso precisa gostar de se mutilar.

Se entrevíssemos a possibilidade de carreiras estáveis e bem-remuneradas, a autoflagelação da formiga ainda poderia se vangloriar diante da completa insegurança a que a vida tresloucada da cigarra se vê submetida. Ocorre que, por meio de uma total paródia da famosa fábula do francês Jean de La Fontaine (1621-1695), o turbocapitalismo radicalmente contemporâneo já não dá garantias ao sumo esforço da formiga, de modo que a contingência e a insegurança – as marcas da vida hippie da cigarra – também passam a assolar o formigueiro.

Ao invés de permitir a seus funcionários uma carreira prolongada e bem-planejada, as empresas transformam o risco e a instabilidade na segunda natureza do cotidiano profissional. Quando assalariados são chamados de colaboradores – à valorização simbólica corresponde a extinção de direitos trabalhistas –, nem mesmo a ironia cruel de Machado de Assis ousa engatilhar seu sorriso de canto de boca. Contratam-se colaboradores ou sócios – sujeitos monetários sem dinheiro, donos de empresas sem capital e meios de produção – por projetos: durante um determinado tempo – 6 meses, 1 ano ou, quando muito, 2 anos –, o empreendedor pode esperar por seu salário. (Ou não…) Depois disso, se a idade útil lhe permitir, será preciso achar um novo emprego – ou melhor, uma nova colocação (termo mais propício para retratar o caráter móvel e retrátil das pessoas administradas como coisas.)

O artista performático russo Petr Pavlensky numa apresentação em Paris.

Não à toa, a guerra de todos contra todos se acirra: pais perdem a autoridade sobre os filhos – a instabilidade econômica esgarça o manto da tradição –, o falo já não pode titubear, o clitóris intumescido se torna fálico, casais se divorciam (se é que alguma vez chegaram a se unir) e amizades se estilhaçam – afinal, qualquer prenúncio de intimidade tende a municiar potenciais competidores. Um velho provérbio árabe se transforma no mantra de Narciso: “Aquilo que o teu inimigo não puder saber, não o digas ao amigo”[8].

Em um contexto de radical solapamento da base de reprodução social da vida, não nos deve assustar que o conglomerado midiático-ideológico alce o nível de exigências narcísicas a patamares estratosféricos (formação irretocável, corpos esbeltos, pele, dentes e cabelos imaculados), na mesma medida em que Narciso Raskólnikov Karamázov, para prolongar a sociopatologia de seu narcisismo, precisa gostar de se mutilar (nesse caso, indícios de inadequação e depressão não seriam sintomas de sanidade?). É quando Eros e Tânatos, prazer e dor, sadismo e masoquismo, utilitarismo e morbidez passam a copular compulsivamente; é quando a construção utilitária da vida, ao se ver radicalmente deformada pelo risco e a insegurança, escarafuncha as feridas de Narciso com o punhal daquilo que poderíamos chamar de inutilidade banal. Ora, à banalidade utilitária e hedonista dos sujeitos que precisam se mostrar narcísicos, corresponde a inutilidade banal daqueles que, mais dia, menos dia, serão substituídos ou proscritos com a mesma celeridade com que se afirmam, hoje, para além dos demais. A sensação de ser fungível trai o amor de Narciso por si mesmo: por ter que respeitar a – ou pior, por ter que acreditar na – autoidolatria, o Narciso insolvente e contingencialmente empregado passa a se odiar na mesma medida em que precisa se amar, uma vez que o senso de autodesprezo se insinua pelas muitas frestas daquele que, a despeito do outdoor de si mesmo (o ego como Você S/A), já não consegue corresponder à imagem de sua marca.

Se apontássemos a competição dos grandes narcotraficantes mexicanos para ver quem erige o túmulo mais solene e portentoso, seria possível redarguir que, em tais carreiras criminosas, a morte é uma eminência parda de tal vulto que, a bem dizer, é como se Tânatos destronasse Eros de uma vez e passasse a ditar, com a ampulheta e a foice da morte, todos e cada um dos parâmetros narcísicos do prazer.

Entretanto, se observamos o padrão de comportamento dos atiradores civis, desde o massacre na Columbine High School, no Colorado (EUA), em abril de 1999, passando pelo massacre do Realengo, ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira, na cidade do Rio de Janeiro, em abril de 2011, até chegarmos ao mais recente caso na Parkland High School, na Flórida (EUA), no dia 14 de fevereiro de 2018 (apenas para citarmos três entre as várias tragédias ocorridas), descobriremos que há uma profunda fusão entre winners e losers, vida e morte.

Os atiradores escolares tendem a apresentar o perfil dos nerds que, supostamente (e não mais do que supostamente), não se importam em ser postos em ostracismo. Tidos como párias no esporte e desprezados pelas garotas, o ímpeto narcísico de tais losers se vê achincalhado a ponto de considerarmos que eles sequer têm amor próprio. Mas, a partir da adaptação de uma famosa máxima do químico francês Antoine Lavoisier (1743-1794), é possível dizer que, na sociedade, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Como face reversa (e recíproca) do narcisismo, o ressentimento do loser, via de regra, traz implicações como a rebeldia no vestuário e no asseio, o isolamento e a misantropia. Mas, em alguns casos – casos que, desde o massacre de Columbine, passaram a compor uma verdadeira dinastia –, o profundo ressentimento opera como um propulsor que, no limite, pretende transformar o loser em winner, o coadjuvante em herói, por meio de uma vingança viril que, ao mesmo tempo, lance mão do martírio como derradeira exposição narcísica.

Os atiradores tentam matar todos aqueles e aquelas que os desprezam. Ao fim e ao cabo, eles se suicidam, mas o martírio, como a tradição sociopatológica de tais massacres já consagrou, é precedido pela feitura de vídeos postados no YouTube. Agora, eles não poderão ser simplesmente relegados e/ou esquecidos. Sempre que os sobreviventes e parentes se lembrarem das vítimas, o narcisismo dos losers será vivenciado e veiculado, ainda que eles não possam aferir, de forma utilitária e hedonista, os louros de sua vitória de Pirro após a morte. Nesse caso, à morte em vida dos losers em termos do hedonismo narcísico, corresponde a vida após a morte (sem Deus e sem a eternidade) dos winners que, em meio à dinastia letal a que dão continuidade, os eleva à condição de mártires. É quando Eros e Tânatos, prazer e dor, sadismo e masoquismo, utilitarismo e morbidez passam a copular compulsivamente; é quando a destruição utilitária da vida escarafuncha as feridas de Narciso com os revólveres e pistolas da inutilidade banal.

Arrematemos este ensaio com o relato do suicídio midiático do jovem chinês Wu Yongning, de 26 anos, famoso escalador de edifícios com centenas de milhares de seguidores nas redes sociais.

No dia 7 de novembro de 2017, Wu subiu ao cume de um arranha-céu de 62 andares (190 metros de altura) na cidade de Changsha, no sudeste da China. O jovem posicionara seu celular, estrategicamente, para poder gravar todas e cada uma de suas acrobacias junto ao parapeito do edifício.

Com uma mistura de ansiedade e náusea – aparições somáticas de Eros e Tânatos –, assistimos ao vídeo de dois minutos e nove segundos, ao longo do qual o jovem se debruça sobre o parapeito do prédio, desce a perna direita, desce a perna esquerda, se escora junto ao parapeito com os antebraços e, pênsil como o pólen, começa a fazer barra vertical – uma, duas, três vezes – como se estivesse circundado pela areia da praia de Copacabana. Súbito, a situação se complica, Wu perde o equilíbrio – o jovem tenta, sem sucesso, levar o dorso até o parapeito, mas lhe faltam forças. Com a palma das mãos suadas e a respiração ofegante, os espectadores ainda ouvimos o grito agônico e esganiçado de Wu antes de o jovem despencar para o estrelato da morte.

“Querido Wu, essa foi a sua melhor performance. Show must go on: nós nunca esqueceremos você!” – diz o comentário repleto de curtidas de uma seguidora de Wu, cuja morte vivificada sentencia que Narciso, de fato, adora se mutilar[9].

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras O evangelho segundo Talião (nVersos, 2013), Tiro de misericórdia (nVersos, 2014) e Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra, no prelo), além de ter organizado o livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Escreve, periodicamente, para o caderno literário Aliás, do jornal O Estado de S. Paulo. Página na internet: Portal Heráclito – www.portalheraclito.com.br.

[1] Friedrich Nietzsche, A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, pp. 147-148.

[2] Êxodo 21: 23-25; Deuteronômio 5: 9-10.

[3] Fiódor Dostoiévski, Os demônios. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2004, p. 597.

[4] Max Stirner, O único e a sua propriedade. Tradução de João Barrento. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 171.

[5] Emil Cioran, Tears and Saints. Translated by Ilinca Zarifopol-Johnston. Chicago: The University of Chicago Press, 1995, p. 97. Fiz a tradução livre do trecho para o português.

[6] Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, “Poema em linha reta”. In: Fernando Pessoa: obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1972, p. 37.

[7] Manuel Bandeira, “Pneumotórax”. In: Manuel Bandeira: poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009, p. 81.

[8] Provérbio árabe citado pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) na obra Aforismos para a sabedoria na vida (1851). Tradução de Genésio de Almeida Moura. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1956, p. 195.

[9] Eis o link para o vídeo do suicídio midiático de Wu Yongning postado no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=nflgJWkMTcE. Consulta feita no dia 28/03/18.