Morte e ressurreição de palavras

Morte e ressurreição de palavras

Palavras podem morrer, desaparecendo seu uso, em operações políticos. Foi o caso de "latifúndio". Mas também podem morrer pela banalização oportunista, como é o caso de "golpe".

Estado da Arte

01 Abril 2018 | 15h00

Boulos, Lula e Manuela: “antifascistas”. FOTO DANIEL TEIXEIRA / ESTADAO

por Idelber Avelar

Ao longo da última década e meia escrevendo na internet, tenho mantido um arquivo Word intitulado “Cemitério das palavras”, no qual vou apontando mudanças na pragmática de certos termos. Por pragmática aqui me refiro ao ramo da linguística que estuda o uso dos vocábulos: não o seu sentido – isso seria tarefa da semântica –, nem qualquer dos seus atributos formais, que são estudados por outros ramos como a morfologia e a fonologia. A pragmática trabalha a evolução do seu uso, a sua operação em contexto, a palavra em interação social.

Tem sido impressionante revisitar esse arquivo periodicamente e constatar quanta coisa mudou em um período tão curto de tempo. Palavras morrem pelo sobreuso e também pelo abandono. Podem se transformar em mortas vivas, caso em que continuam sendo usadas, mas vão perdendo sua força e sua efetividade. Na política, essa força é essencial: a mesma postura, informada pela mesma pesquisa e vivência, pelo mesmo respeito pelo interlocutor e pela mesma polidez, pode produzir efeitos completamente diferentes se enunciada com dois grupos de palavras, um que mantém a sua efetividade e outro que é composto por palavras-zumbi.

Um exemplo relevante são os vocábulos “latifúndio” e “latifundiário”, que eram bastante comuns até a década de 1990 e que nos últimos tempos praticamente desapareceram dos dialetos da língua portuguesa falados no Brasil. O curioso é que se trata de termos que designavam uma realidade que continua existindo. O referente dos vocábulos continua lá, mas agora ele é designado com termos como “produtores rurais” ou “ruralistas”.

Esta operação linguística foi uma vitória considerável do latifúndio. O termo “ruralista” apaga completamente as origens de classe do fenômeno, de tal maneira que mesmo pessoas de camadas médias ou pobres que vivem no campo passam a sentir-se atacadas quando os “ruralistas” são criticados. Observo isso em pessoas próximas a mim, que não são, de forma nenhuma, grandes proprietários de terra, mas que se identificam com o termo “ruralista”, com a cultura gastronômica, comportamental e musical que ele designa. Essas pessoas passam, portanto, a fazer parte de um bloco político que defende interesses que não são necessariamente os delas. Mesmo entre aquelas forças políticas que combatem os ruralistas, o uso do termo está naturalizado, como se houvesse nele um óbvio sentido negativo. O efeito bolha impede que se perceba que entre aqueles designados pelo termo, ele está longe de ter a conotação negativa que mantém entre os opositores políticos e que era universalmente reconhecível no termo “latifundiário”. O desaparecimento deste último vocábulo coincide, curiosamente, com o desaparecimento da Reforma Agrária como pauta relevante no xadrez político brasileiro. A Reforma Agrária não foi feita, o latifúndio continua lá, mas as palavras sumiram, agora substituídas por outras, bem mais assépticas.

Palavras também morrem pelo sobreuso, ou pelo uso oportunista, e esse é o caso com o uso recente do vocábulo “golpe” para designar o impeachment que teve lugar em 2016. Independente de qual seja a sua opinião sobre o processo – e o autor destas linhas se declarou contra ele em várias ocasiões –, é mister reconhecer que ele teve início com as maiores manifestações de rua de um dia de toda a história do Brasil; que ele teve apoio de 70% da população, repetidamente aferido em pesquisas de opinião; que ele foi aberta e exaustivamente discutido pela sociedade brasileira ao longo de dezessete meses, desde as primeiras manifestações até a votação final; que seguiu à risca o rito constitucional, com amplo direito de defesa e exercício de todos os recursos; que foi mais longo e documentado que o impeachment anterior, de 1992, por ninguém caracterizado como golpe; que foi, finalmente, referendado por uma Suprema Corte indicada, em sua maioria, por Presidentes pertencentes ao partido supostamente golpeado.

No caso do uso recentemente disseminado do termo “golpe”, é revelador que seus proponentes raramente usem o complemento nominal que sempre acompanhou o termo no seu uso especializado: “golpe de Estado”. O desaparecimento do complemento nominal revela a operação subjacente a esse uso: a confusão deliberada entre golpe de Estado e golpe como sinônimo de engodo, trapaça, rasteira, embuste, armação, ludíbrio e tratantice, ou seja, a matéria de que é feita a política de todos os dias. Nessa confusão, evidentemente, o que se perde é a especificidade do golpe de Estado, que em nossa história sempre levou a fechamento de Congresso, suspensão da constituição vigente, eliminação do habeas corpus, tortura e exílio de opositores, processos que nem de longe estão em curso no Brasil de hoje. Golpe de mestre, golpe de sorte, golpe do baú, golpe de misericórdia: tudo se afunda na mesmice da banalização quando se perde o rigor do conceito. A palavra vai morrendo, como demonstrou o Prof. Marcus Fabiano Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense, em artigo demolidor.

“Fascismo” é outro termo ameaçado pelo sobreuso. Em seu sentido estrito, ele pressupõe um regime autoritário com concentração total de poder no chefe de Estado, constante exaltação da coletividade nacional, paulatina aniquilação de opositores, controle dos meios de comunicação de massas, imaginário belicista e, não raro, expansionista. Não me parece incorreto sugerir que um dos candidatos a Presidente tem mobilizado energias e paixões bem próximas ao que se poderia entender como fascismo em seu sentido clássico. Mas o termo tem sido usado para designar posições que ocupam um amplo espectro político e que nada têm a ver com o fascismo em sentido estrito. Particularmente curiosa é a associação entre fascismo e a precaríssima categoria de “discurso de ódio” – como se o ódio não pudesse se manifestar em diferentes posições do espectro, como se uma posição política em particular tivesse o monopólio do ódio. O sobreuso tem consequências práticas reais. A mais recente ficou visível na convocação de uma “frente antifascista”, que previsivelmente ficou restrita à força política que tem abusado da caracterização de todo e qualquer antagonista seu como fascista. O sobreuso instala uma profecia que se autorrealiza: em primeiro lugar, designam-se social-democratas, liberais, centristas e conservadores moderados como fascistas para, em um segundo momento, explicar sua ausência na frente antifascista porque eles seriam .. cúmplices do fascismo.

Em um de seus dísticos mais famosos, Carlos Drummond de Andrade anunciava, em “O lutador”, que lutar com palavras é a luta mais vã. A ambiguidade da conjunção “com” permitia a dupla leitura: “lutar contra as palavras” ou “lutar tendo as palavras como instrumento”. O cemitério das palavras, mortas pelo abandono ou pela banalização, reinstala a ambiguidade drummondiana. É inútil lutar, nenhuma chamada ao rigor deterá o processo, o cemitério continuará se enchendo de túmulos. Só podemos, nesta seara, aspirar a uma modesta ressurreição, tentar “apanhar algumas / para meu sustento / num dia de vida”.

Idelber Avelar é ensaísta e professor de literatura na Universidade Tulane (Nova Orleans). Seus livros mais recentes são Transculturación en suspenso: Los orígenes de los cánones narrativos colombianos (Caro y cuervo, 2016) e Crônicas do estado de exceção (Azougue, 2015).