Mindhunter

Mindhunter

Dentro de Mindhunter, perguntar se Ford “é” também um psicopata trará uma resposta sempre variável: a obra resiste a essa problematização.

Estado da Arte

23 Outubro 2017 | 21h09

Por Pedro Sette-Câmara

(Preciso dizer que há spoilers? O que estraga o prazer para mim é a má dramaturgia, não saber o final; ninguém reclama da peça Henrique V por saber que, ao final, os ingleses vencem a batalha de Azincourt.)

Conhecemos a história: um policial, usando métodos que não seriam aprovados pela burocracia, obtém os resultados que ninguém mais consegue. A narrativa cresce em torno do sistema que precisa do elemento que mina o próprio sistema. Mindhunter, a nova série da (do?) Netflix sobre a divisão do FBI dedicada a estudar serial killers, é a mais nova abordagem desse topos — e seu mérito reside em parte em ter conseguido de certo modo esconder esse tema por alguns episódios, ao mesmo tempo que o escancarava.


O truque usado para esconder essa estrutura que qualquer um reconheceria de cara foi, obviamente, o interesse do tema. O policial em questão está mais para psicólogo do que para policial. E o tema do estudo da mente dos serial killers, por si, já é um elefante que esconde quase tudo o mais, nos deixando atônitos, num choque mudo, à espera de qualquer palavra que nos esclareça.

Penso numa frase, creio que de Claude Lanzmann, sobre como buscar as causas de uma monstruosidade como o Holocausto é dessacralizá-la. Ele tem razão. Mas deixamos de ler Hannah Arendt por isso? Mais importante do que sacralizar não é apostar que ao menos certos casos de violência podem ser impedidos pelo estudo?

Assim acompanhamos dois agentes do FBI — um dos quais, Holden Ford, nosso policial transgressor e eficiente, que obtém resultados espetaculares às custas do protocolo — em sua suas entrevistas com assassinos já cumprindo suas penas. Logo os dois veem-se equipados para colocar outros assassinos atrás das grades.

Só que, entre as entrevistas de uns e a captura de outros, o que há não é apenas o encontro de grandes mentes da psicologia que bolam métodos infalíveis. O triunfo da ciência é parcial. O que há é aquela dramática quebra de protocolo: os assassinos condenados só se abrem quando Holden começa a imitá-los, a falar a linguagem deles; para extrair confissões dos suspeitos, Holden também começa a tratá-los de igual para igual, borrando a diferença que separa um respeitável agente do FBI de gente que mata e em seguida estupra o cadáver.

Claro que se pode dizer que falar como um serial killer é diferente de ser um serial killer — mas os superiores de Holden e a plateia sem dúvida compreendem o medo da contaminação.

Holden, cheio dos outros em si, começa a ficar cheio de si. Seu sucesso o leva a desafiar diretamente a corregedoria que questiona seus métodos. Depois desse choque, ele vai diretamente encontrar-se com Ed Kemper, o primeiro assassino que entrevistou, do outro lado do país. O resultado desse encontro é que Holden se reconhece mais do que um mero leitor hipócrita de Kemper. O desprezo pelo órgão para o qual trabalha faz com que Holden se veja também seu semelhante, seu irmão.

A série não tem nada de boba e por isso também se antecipa à plateia. Num momento em que, no Brasil, arte e liberdade são temas em voga, não custa recordar que a obra de arte capaz de antecipar as reações tem mais chance de sobreviver do que a obra facilmente abatida.

O ataque reducionista consiste em reduzir qualquer obra dramática a uma obra de tese, como se fosse apenas o exemplo que ilustra um argumento. Apesar de eu mesmo não crer na autonomia absoluta do estético (nem do estético, nem de nada), entendo que ela possa ser procurada como refúgio desse inferno reducionista.

Mas retorno. A série, então, não se esquiva das perguntas inevitáveis, inevitavelmente enunciadas: os assassinos ficam assim ou já nascem assim? Nós compartilhamos com eles certos traços?

Existe, é claro, uma vertigem retórica nessas perguntas. Se reconhecermos em nós a banalidade do mal, teremos de rever nossa auto-imagem. Só que a obra de arte nem responde perguntas, nem, por favor, propõe debates: ela apresenta uma primeira imitação de algo do mundo, de uma ação.

Dentro de Mindhunter, perguntar se Ford “é” também um psicopata trará uma resposta sempre variável: a obra resiste a essa — digamos — problematização. O que, enfim, só é um problema para quem vai à dramaturgia em busca de respostas e debates.

 

Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ.