MasterChef nos lembra que gosto é objetivo

MasterChef nos lembra que gosto é objetivo

Estado da Arte

24 Outubro 2016 | 08h00

por Rodrigo Cássio

No segundo programa da atual temporada de MasterChef, um dos cozinheiros que disputam o prêmio fez um comentário que eu nunca tinha ouvido ali, embora fosse fácil imaginar que surgiria em algum momento. No instante em que a chef Paola Carosella começava a avaliar o seu prato, o cozinheiro disse:

– Mas o gosto é algo pessoal, não é?

Ao que Carosella respondeu, referindo-se aos colegas de júri:

– Sim, o gosto é pessoal. Por isso nós somos três.

Competidores do MasterChef

Competidores do MasterChef

Esse curto diálogo expôs o que sempre me interessou especialmente neste programa de TV. Para que a sorte dos cozinheiros candidatos a chefs seja decidida, os jurados precisam construir um consenso de gosto sobre os pratos que lhes são apresentados. Comparado a outros reality shows similares, como a competição musical The Voice, MasterChef enfatiza muito mais essa construção, manipulando a expectativa dos espectadores sobre o resultado das degustações.

Poderia o MasterChef nos ensinar algo sobre o conceito filosófico de gosto? A bem da verdade, não é comum que a experiência do paladar seja abordada pela filosofia no mesmo nível de outras experiências estéticas. Nos principais capítulos da história do pensamento ocidental, o prazer da degustação de uma boa comida raramente se equipara à experiência contemplativa de coisas belas.

Platão, por exemplo, posicionava o bom e o belo acima das satisfações que podemos obter com o nosso corpo. Já Aristóteles, apesar das críticas ao mestre, considerava que o sentido humano mais valioso é a visão, cabendo ao paladar um papel bem menos importante. Nem mesmo os modernos se dispuseram a acolher a gastronomia como uma arte capaz de oferecer experiências de grande relevância. Para Kant, o prazer com a comida é da ordem do “agradável”, mobilizando um tipo de juízo distinto daquele que chamaríamos exatamente de “juízo estético”.

Apesar de tantas ressalvas, penso que o MasterChef nos permite discutir, de um ponto de vista filosófico, as operações envolvidas na produção de consenso sobre o gosto. Se assim o fazemos, a resposta de Paola Carosella pode se revelar bem menos contundente do que a princípio. Ao cozinheiro que quis relativizar a sua decisão sobre a qualidade do prato, ela poderia simplesmente dizer que não, o gosto não é “pessoal”. Na verdade, o gosto é algo solidamente objetivo.

O gosto como atmosfera

Até mesmo para o padrão MasterChef, em que a autoridade dos jurados e a franqueza dos julgamentos andam juntas, uma afirmação como essa seria recebida como petulância. Como poderia o gosto não ser “pessoal” em uma época em que a verdade é sempre “relativa”? No entanto, a tese de que o gosto tem objetividade pode ser fundamentada em boa filosofia, e também na experiência de emitir e comparar os nossos próprios juízos no decorrer do tempo. Assim se posicionava, por exemplo, Clement Greenberg, um dos mais importantes críticos de arte do século XX.

Em Estética Doméstica, um dos livros de Greenberg publicados no Brasil, o gosto é definido como uma espécie de atmosfera, criada através da avaliação dos objetos da arte por aqueles que se dispõem a avaliá-los. Visto na história, ele é o resultado de consensos que os avaliadores produzem, comparando as conclusões a que chegaram. Isso explica que o gosto seja passível de revisões, e elimina a objeção ingênua que considera a variedade dos juízos uma prova de que, nesse campo, nada haveria de objetivo. Que os avaliadores possam ser honestos quando julgam a qualidade de uma obra é muito mais importante do que eles estarem sempre de acordo em seus juízos.

Embora Greenberg escrevesse sobre arte, e não sobre deliciosos tartares feitos com técnicas ousadas e finas especiarias, a operação por trás do seu conceito de gosto é a mesma que vemos em MasterChef. A experiência com o objeto, e apenas ela, é o que nos faz reconhecer sua qualidade.

Por esse motivo, a qualidade não é algo que se possa demonstrar com argumentos. Ela nos chega diretamente pelos sentidos. Não há argumentos que possam convencer alguém de que Mozart é melhor compositor que Zezé di Camargo; mas quem se dispuser a ouvir música, com a dedicação necessária para compreendê-la, dificilmente chegará a uma conclusão diferente. Do mesmo modo, para os três jurados de MasterChef cumprirem seus papéis, é preciso que experimentem todos os pratos que lhe são servidos.

Há ocasiões em que eles ficam em silêncio depois de degustarem. Por certo, não é apenas para aumentar a tensão dos espectadores e cozinheiros. Manifestar a qualidade em palavras é realmente difícil, e é o que torna tão necessários os bons críticos. Quando nos lembra disso, a gastronomia inesperadamente expõe, em uma atração de TV, os princípios de uma crítica judicativa, atenta aos seus objetos, e que ainda poderia ajudar a explicar a arte do presente. Se não a temos hoje com muita frequência, é porque ela se tornou marginal na academia, e também desapareceu nos circuitos da arte mais desenvolvida.

O domínio está agora com aqueles que consideram o gosto realmente “pessoal”, ou, descartando de vez o conceito, sequer precisam endossar o que o senso comum diz sobre ele. Quem visita exposições de arte contemporânea é menos instigado a julgar a qualidade da sua experiência do que a “refletir” sobre “as questões do seu tempo”, como enuncia o texto da 32a Bienal de São Paulo, citando o “aquecimento global”, “a extinção das espécies” e a “perda da diversidade biológica e cultural”.

Distanciamento do espectador

Se em The Voice os espectadores podem ouvir, junto dos jurados, os trabalhos que os músicos executam no palco, o máximo que podemos fazer ao assistir MasterChef é imaginar o sabor dos pratos que o júri degusta.

Ao tirar do espectador a possibilidade de ter a experiência, MasterChef a coloca no centro da disputa, exigindo uma atenção diferente para o ato de apreciar e julgar o que os concorrentes do programa produziram. Como em todo reality show, os espectadores opinam sobre os participantes de que mais gostam; mas a avaliação moral não influencia no resultado do jogo. O que importa, de fato, é o resultado da experiência que os pratos provocam.

Alguns poderiam dizer que esse distanciamento do espectador é um problema, porque nos torna reféns de um corpo de jurados do qual, talvez, discordássemos. Outro crítico de arte pouco citado hoje, Clive Bell, certamente diria que essa distância evita a ilusão de que julgar bem é algo fácil e simples. Eu, que cozinho muito pouco, estou de acordo com Bell e Greenberg. MasterChef é uma oportuna lembrança de que o gosto é objetivo, e que essa objetividade precisa de um elevado grau de exigência, rigor e cultivo.

Em outras palavras, é uma lembrança de que a qualidade é uma coisa bastante rara – e também muito difícil.

Rodrigo Cássio Oliveira é professor adjunto da Universidade Federal de Goiás (UFG). Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Comunicação Social (UFG), é autor do livro Filmes do Brasil Secreto (2014)